
Uma depressão econômica é caracterizada por um estado agravado de recessão sempre acarretando em consequências negativas para a economia mundial. Há diferenças entre recessão e depressão econômica. Recessão ocorre quando há declínio do Produto Interno Bruto (PIB) por dois ou mais trimestres consecutivos. Depressão econômica, por sua vez, consiste em um longo período caracterizado por vertiginosa queda do PIB, numerosas falências de empresas, crescimento elevado do desemprego, escassez de crédito, baixos níveis de produção e investimento, redução das transações comerciais, alta volatilidade do câmbio, com deflação (queda nos preços) ou hiperinflação (alta de preços) e crise de confiança. As maiores depressões econômicas da história foram as de 1873 e 1929. Entre elas, a mais grave foi, sem dúvidas, a de 1929.
Em geral, a depressão econômica mundial descreve uma situação muito mais grave do que uma recessão porque resulta de uma queda profunda e prolongada da produção, de forte aumento do desemprego, da contração do crédito e do investimento, de falências generalizadas de empresas e deterioração persistente do comércio mundial. A Grande Depressão ocorrida em 1929 tornou-se particularmente destrutiva porque um choque financeiro se transformou sucessivamente em crise bancária, colapso do crédito, queda da demanda, desemprego em massa, deflação e protecionismo internacional.
As possíveis causas da futura depressão econômica mundial que afetará a economia global com suas intensidades atuais e potencial de provocar depressão estão descritas a seguir:
| Causas Continua após a publicidade | Intensidade atual | Potencial de provocar depressão Continua após a publicidade |
| Guerra e choque energético | alta Continua após a publicidade | muito alto se houver escalada |
| Dívida pública mundial | muito alta | alto |
| Endividamento privado e fragilidade financeira | alta Continua após a publicidade | alto |
| Juros e custo de refinanciamento | alto | alto |
| Protecionismo e fragmentação comercial | alta Continua após a publicidade | alto |
| Bolha ou forte correção de ativos ligados à Inteligência Artificial | média/alta | médio-alto |
| Crise bancária internacional | atualmente limitada | muito alto se surgir |
| Desemprego tecnológico estrutural | crescente | médio no curto prazo, alto no longo |
| Mudanças climáticas e choques alimentares | crescente | alto quando combinados com outros choques |
A depressão econômica mundial mais provável não surgiria, portanto, de uma única causa. Surgiria de uma tempestade perfeita com várias causas como as descritas acima. Nas condições atuais, tudo leva a crer que a depressão econômica mundial ocorrerá com a sequência descrita a seguir:
1) Escalada militar no Oriente Médio e na Ucrânia; 2) novo choque do petróleo em consequência da guerra no Oriente Médio; 3) aumento da inflação mundial; 4) bancos centrais impossibilitados de reduzir rapidamente os juros; 5) crise da dívida pública e privada em todos os países; 6) queda das bolsas de valores e dos ativos ligados à Inteligência Artificial; 7) crise de fundos de investimento e crise bancária; 8 ) contração do crédito; 9) queda do investimento e do consumo; 10) desemprego em massa; 11) protecionismo; 12) colapso do comércio mundial; e, 13) depressão econômica global. Esta sequência é um cenário de risco sistêmico.
Para evitar uma nova depressão da economia mundial nas condições atuais, as políticas econômicas dos países deveriam funcionar em três níveis simultâneos descritos a seguir:
1) Impedir os choques iniciais. Isso significa os governantes dos países buscarem soluções diplomáticas para evitar guerras com impacto sistêmico, proteger as rotas internacionais de energia e alimentos, constituir reservas estratégicas e evitar guerras comerciais entre as grandes potências.
2) Impedir que uma recessão se transforme em depressão. Bancos centrais dos países precisam estar preparados para fornecer liquidez extraordinária ao sistema financeiro, governos nacionais devem permitir atuação dos estabilizadores automáticos e bancos precisam ser recapitalizados rapidamente se surgir uma crise sistêmica.
3) Corrigir antecipadamente as vulnerabilidades estruturais. Os governos dos países precisam reconstruir o espaço fiscal, estabilizar gradualmente a dívida pública, supervisionar instituições financeiras não bancárias, reduzir alavancagem excessiva e controlar riscos associados a mercados especulativos.
Lamentavelmente, nenhuma destas políticas econômicas acima descritas estão sendo adotadas para evitar a depressão econômica mundial. Não está havendo soluções diplomáticas para solucionar os conflitos internacionais, proteger as rotas internacionais de energia e alimentos, constituir reservas estratégicas e evitar guerras comerciais entre as grandes potências. Não existe uma ação dos Bancos Centrais de todos os países do mundo para desenvolverem estratégias coordenadas para impedir que uma recessão se transforme em depressão e corrigir vulnerabilidades estruturais de cada país.
Como proteger o Brasil de uma depressão mundial
Pelo exposto, a depressão econômica mundial deverá ocorrer trazendo impactos negativos sobre o comércio exterior do Brasil, promovendo queda dos preços das commodities, deteriorando a situação financeira e cambial do país e promovendo a redução do investimento privado. O comércio exterior do Brasil será bastante afetado com a depressão da economia mundial. Uma forte contração na economia dos Estados Unidos, China, União Europeia e demais países reduziria a demanda internacional por minério de ferro, petróleo, soja, carnes, celulose e produtos industriais brasileiros. A China, por exemplo, respondeu entre agosto e outubro de 2025 por aproximadamente 29% das exportações brasileiras. A futura depressão econômica mundial levará ao colapso da demanda global fazendo com que petróleo, minérios e diversas commodities agrícolas tendam a sofrer forte desvalorização. Isso reduziria simultaneamente as receitas das empresas exportadoras, a arrecadação tributária, os investimentos e as receitas de estados e municípios produtores de commodities. O efeito depressão econômica mundial sobre o petróleo merece especial atenção porque o próprio Tesouro considera a variação de seus preços relevante para as receitas públicas brasileiras.
A futura depressão econômica mundial afetaria, também, o setor financeiro e cambial do Brasil porque provocaria inicialmente fuga de capitais do Brasil para ativos considerados seguros em outros países, valorização do dólar e depreciação do real. O Brasil poderia enfrentar queda nos índices da Bolsa de Valores, aumento dos prêmios de risco e maior custo de financiamento externo. As reservas internacionais do Brasil seriam importantes linhas de defesa que são elementos fundamentais da resiliência brasileira. A futura depressão econômica mundial pode levar à redução do investimento privado. Diante da queda da demanda e da incerteza, empresas brasileiras e multinacionais adiariam projetos. Investimentos diretos estrangeiros também poderiam diminuir, especialmente se a depressão for acompanhada de fragmentação geoeconômica. O FMI já identifica tensões comerciais globais como o aumento do risco para investimento e comércio brasileiros. Finalmente, tudo isto faria com que ocorressem os eventos seguintes: 1) queda da produção interna do Brasil; 2) demissões em massa de trabalhadores; 3) redução da massa salarial; 4) queda do consumo interno do país; e, 5) depressão da economia brasileira. Caso esse mecanismo não seja interrompido com a adoção de políticas públicas, poderá surgir uma dinâmica recessiva cumulativa semelhante ao mecanismo descrito por Keynes para grandes depressões.
Em um cenário de recessão global moderadamente severa, o Brasil provavelmente enfrentaria a queda da atividade econômica, o aumento do desemprego e a desvalorização cambial. Em uma verdadeira futura depressão econômica mundial prolongada, porém, os efeitos sobre a economia brasileira poderiam ser devastadores com retração acumulada do PIB, falências empresariais, deterioração das contas públicas, aumento expressivo da relação dívida pública/PIB, queda da arrecadação pública, crescimento da inadimplência das empresas e das famílias, redução dos investimentos privados, aumento da pobreza e forte pressão sobre os sistemas de assistência social. Uma futura depressão econômica mundial associada simultaneamente a guerras, bloqueios comerciais ou rupturas energéticas como a atual poderia gerar uma combinação de muito mais difícil superação ao apresentar baixo crescimento econômico para o Brasil com inflação de alimentos, de combustíveis, de fertilizantes e de insumos importados.
Para evitar este cenário negativo para a economia brasileira, o governo Lula deveria adotar as estratégias descritas a seguir: 1) Criar espaço fiscal anticíclico; 2) Elaborar Programa Nacional de Investimentos Anticíclicos; 3) Reconstruir a capacidade industrial brasileira; 4) Investir em ciência, tecnologia e inovação; 5) Ampliar a diversificação das exportações e dos parceiros comerciais do Brasil; 6) Preservar as reservas internacionais do Brasil; 7) Proteger o sistema financeiro nacional; e, 8 ) Construir estabilizadores sociais robustos.
A primeira estratégia a ser adotada deveria ser implementada antes da futura depressão econômica mundial com a construção da capacidade fiscal, produtiva, tecnológica e financeira do Brasil e, durante a crise, acionar mecanismos anticíclicos. A primeira prioridade é criar espaço fiscal anticíclico com a estabilização da dívida pública em períodos normais, redução dos gastos tributários pouco eficientes, melhoria da composição do gasto público e preservação do investimento público. Isso permitiria que, diante de uma futura depressão econômica mundial, o governo do Brasil aumentasse temporariamente investimentos e transferências sem provocar crise de confiança na dívida pública.
A segunda estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em estabelecer um verdadeiro Programa Nacional de Investimentos Anticíclicos, com projetos previamente preparados nas áreas de transportes ferroviários, saneamento básico, habitação, energia, telecomunicações, adaptação climática e infraestrutura digital. Se a demanda privada despencasse, esses projetos poderiam ser acelerados imediatamente. O investimento público funcionaria como estabilizador da renda e simultaneamente aumentaria a produtividade futura do Brasil.
A terceira estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em reconstruir a capacidade industrial brasileira. Isso significa não apenas tentar produzir internamente tudo aquilo que atualmente é importado. Significa, também, identificar cadeias estratégicas nas quais uma interrupção externa poderia ameaçar o funcionamento do país como, por exemplo, o suprimento de medicamentos e insumos farmacêuticos, de semicondutores, de máquinas e equipamentos, de fertilizantes, de tecnologias digitais, de equipamentos elétricos, de defesa cibernética e de componentes das cadeias de energia renovável. Uma política industrial seletiva a ser adotada deve ser condicionada ao aumento da produtividade, da inovação, das exportações e das metas tecnológicas, evitando proteção permanente de empresas ineficientes.
A quarta estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em elevar sistematicamente o investimento em ciência, tecnologia e inovação, integrando universidades, institutos públicos de pesquisa e empresas. Uma depressão econômica global acompanhada de fragmentação geopolítica evidenciaria particularmente o custo da dependência de tecnologias estrangeiras.
A quinta estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em ampliar a diversificação das exportações e dos parceiros comerciais do Brasil. O Brasil deveria intensificar sua presença na América do Sul, na União Europeia, na África, na Índia, no Sudeste Asiático, no Oriente Médio e demais mercados, simultaneamente aumentando a parcela de produtos industriais e serviços intensivos em conhecimento nas exportações. A experiência de 2025 mostrou que exportadores brasileiros conseguiram redirecionar parte das vendas afetadas pelas tarifas norte-americanas para outros mercados, demonstrando a utilidade da diversificação.
A sexta estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em preservar as reservas internacionais do Brasil que não devem ser vistas como recursos normais de financiamento do orçamento público porque constituem seguro estratégico contra fuga de capitais e crises cambiais. Os aproximadamente US$ 358 bilhões registrados ao final de 2025 de reservas internacionais representam um dos principais amortecedores brasileiros contra fuga de capitais e crises cambiais.
A sétima estratégia consistiria em proteger o sistema financeiro nacional. Durante uma depressão econômica mundial, Banco Central, Banco do Brasil, Caixa, BNDES e demais instituições financeiras poderiam oferecer liquidez e linhas extraordinárias de crédito para empresas economicamente viáveis, evitando que uma crise temporária de caixa se transforme em onda generalizada de falências de empresas.
A oitava estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em construir estabilizadores sociais robustos. Seguro-desemprego, transferências de renda focalizadas, alimentação escolar e programas temporários de manutenção do emprego impediriam que uma queda inicial da produção interna do país provoque queda ainda maior do consumo.
Em síntese, a resposta brasileira deveria ser a elaboração pelo governo do Brasil de um “Plano de Defesa Econômica contra a Depressão Econômica Mundial” baseado em seis pilares: 1) estabilidade fiscal e financeira; 2) reservas internacionais; 3) proteção social anticíclica; 4) investimento público; 5) reindustrialização tecnológica; e, 6) diversificação das relações econômicas externas.
Antes da depressão econômica mundial, o objetivo a ser perseguido pelo governo brasileiro consistiria em diminuir a vulnerabilidade econômica do Brasil com a estabilização fiscal, manutenção das reservas internacionais, realização de investimentos em infraestrutura, redução da dependência tecnológica, diversificação comercial, fortalecimento industrial e elaboração de uma carteira de investimentos públicos pronta para execução.
No início da crise de depressão econômica mundial, a prioridade do governo brasileiro mudaria para impedir uma espiral recessiva com o aumento da liquidez bancária, a expansão temporária do crédito público, a proteção da renda dos desempregados, a aceleração de investimentos já preparados, o uso seletivo e temporário da política fiscal e a atuação cambial apenas para evitar disfuncionalidades de mercado.
Durante a depressão prolongada, seria necessário um programa nacional de reconstrução econômica com grandes investimentos produtivos, política industrial e tecnológica, formação profissional, financiamento de longo prazo pelo BNDES e demais bancos de desenvolvimento e aprofundamento das relações econômicas com múltiplos blocos internacionais.
Para assistir o vídeo, acessar o website:
https://www.youtube.com/watch?
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* Fernando Alcoforado, 86, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.
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