
Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo apresentar a distinção entre antissemitismo e
O antissemitismo é uma forma de preconceito, discriminação ou hostilidade contra judeus enquanto grupo religioso, étnico ou cultural. O termo foi popularizado no século XIX por Wilhelm Marr. O antissemitismo pode se manifestar como estereótipo (ex.: “os judeus exercem o controle financeiro global”), discriminação social ou política e violência física e genocídio (caso extremo: o Holocausto durante o nazismo). O antissemitismo pode ser definido como ódio contra judeus. O antissemitismo começou no ano 387 quando teve início a maior campanha de instigação cristã contra os judeus de que se tem notícia na Antiguidade, patrocinada por João Crisóstomo, a partir de Antioquia (Síria) quando afirmou naquele momento que a sinagoga era lugar de blasfêmia, asilo do diabo e castelo de Satanás. Vários são os episódios de antissemitismo ao longo da história tendo atingido o ápice quando, ao assumir o poder na Alemanha, Hitler anunciou que o extermínio dos judeus seria uma de suas prioridades. Em 1938 aconteceu a chamada "Noite dos Cristais" na Alemanha, quando 191 sinagogas e inúmeras instalações judaicas foram destruídas, 91 judeus foram assassinados e 30 mil arrastados para campos de concentração. Durante a Segunda Guerra Mundial, houve o Holocausto Judaico quando foram mortos seis milhões de judeus.
O antissionismo diz respeito à oposição ao sionismo, que é o movimento político que promoveu a criação de um Estado judeu na Palestina histórica. O sionismo articulado por Theodor Herzl no final do século XIX foi decisivo para a criação do Estado de Israel após a Segunda Guerra Mundial. O sionismo surgiu no século XIX entre os judeus da Europa central e oriental com um movimento nacionalista cujo objetivo era a criação de um estado dos judeus, sendo este considerado como o único meio de assegurar a identidade e a sobrevivência da nação judaica, assim como de lhe garantir um lugar ao sol entre as demais nações. O nacionalismo judaico tomou o nome de sionismo, palavra que deriva de Sião, um dos nomes de Jerusalém na Bíblia. Inicialmente de caráter religioso, o sionismo pregava a volta dos judeus à “Terra de Israel”. O estado projetado pelos nacionalistas judeus nesta época não tinha necessariamente a Palestina por cenário. Os nacionalistas judaicos não tardaram a optar pela Palestina. Essa escolha era natural e particularmente mobilizadora, por causa da ligação do judaísmo à Palestina e da atração que ela exerce mesmo sobre muitos judeus que não são religiosos ou originários desta região.
A usurpação do território da Palestina pelos sionistas começou quando o Reino Unido que exercia o Mandato para a Palestina depois da 1ª Guerra Mundial deixou de considerar como objetivo levar à plena independência a população que então a habitava, isto é, a população palestina. Ao invés disso, promoveu a criação de um lar nacional judaico, isto é, a criação de um estado judaico com gente que, na sua maioria esmagadora, estava ainda espalhada pelo mundo. Após a 2ª Guerra Mundial foi aprovada pela ONU a partilha da Palestina entre palestinos e judeus que não foi aceita pelos palestinos e aceita pelos judeus que criou o Estado Israel em 14 de maio de 1948, quando se consumou a usurpação do território da Palestina pelos judeus. David Ben Gurion, que seria o primeiro governante israelense, leu a declaração de Independência de Israel. Ben Gurion, judeu polonês, primeiro chefe de governo de Israel de 1948 a 1963, citado por Noam Chomsky em sua obra The Fateful Triangle: The United States, Israel and the Palestinians, afirmou que "após nos tornarmos uma força poderosa, como resultado da criação do estado, nós aboliremos a partilha e nos expandiremos para toda a Palestina. (...) O estado será apenas um estágio na realização do sionismo e sua tarefa é preparar a base para nossa expansão por toda a Palestina". É exatamente isto que está ocorrendo atualmente na Palestina com o Estado de Israel ocupando todo o território da Palestina em detrimento dos palestinos.
Para manter sua dominação na Palestina, os sionistas criaram em Israel um poderoso sistema de dominação militar sobre a maioria palestina muçulmana, cristã e laica. O Estado de Israel é o único país do Oriente Médio a ter armamentos nucleares e recebe anualmente dos Estados Unidos, além de apoio e proteção militar, bilhões de dólares se constituindo como ponta-de-lança dos interesses norte-americanos no Oriente Médio. Em ritmo crescente ouvem-se novamente manifestações antissionistas em todo o mundo, especialmente no mundo árabe e nas nações islâmicas. O antissemitismo e o antissionismo estão crescendo no mundo no momento atual devido, em grande medida à postura belicista, racista e fascista assumida pelo governo de Israel em relação ao povo palestino desde sua criação em 1948. A explicação dada pelo governo Netanyahu de Israel é a de que eles têm agido com violência ao longo da história em resposta à violência dos palestinos e dos países árabes desde a criação do estado judaico. Entretanto, é o Sionismo que contribui para a existência de grupos extremistas antissionistas entre os palestinos. O antissionismo tem assumido a forma de crítica à política adotada pelo Estado de Israel contra os palestinos, a oposição à ideia de um Estado baseado em identidade étnico-religiosa, como é o caso do Estado de Israel, e a defesa de dois estados na Palestina (um Estado palestino e um Estado judeu).
O fato é que o Estado de Israel usurpou, ocupou e construiu prédios em terras que não pertenciam a israelenses e tinham proprietários palestinos regulares e legais desde sua criação em 1948. Mesmo antes de haver o estado de Israel, depois da 1ª Guerra Mundial, os sionistas introduziram o terrorismo no Oriente Médio. O Estado de Israel e seus fundadores foram pioneiros na prática de assassinar funcionários da ONU e líderes palestinos. A carnificina com cerca de 70 mil mortos, especialmente de mulheres e crianças, que se vê até hoje na Faixa de Gaza praticada por Israel contra o povo palestino nada tem de novidade, porque ela já ocorreu inúmeras vezes no passado em toda a Palestina, embora, desta vez, o horror dos crimes contra a humanidade alcance novos e vergonhosos recordes. Com mais esse morticínio, o Sionismo está sendo responsável pelo Holocausto Palestino com a prática sistemática de agressão e assassinatos contra o povo palestino desde 1948 quando foi criado o estado de Israel. O Sionismo pratica no momento na Faixa de Gaza um verdadeiro genocídio contra o povo palestino com a política de bombardeio contínuo e covarde dos seus centros urbanos e de isolamento desta população em Gaza que funciona como um gueto similar, por exemplo, ao Gueto de Varsóvia na Polônia implantado pela Alemanha nazista contra os judeus.
Algumas críticas antissionistas ao Estado de Israel são claramente políticas e legítimas como é o caso da crítica contra a destruição da Faixa de Gaza e o genocídio do povo palestino lá residente. Outras críticas, entretanto, que usam estereótipos históricos contra judeus e os responsabilizam pelas ações do governo sionista de Israel são antissemitas e são inaceitáveis porque nem todos os judeus do mundo concordam com as políticas postas em prática pelo governo atual de Israel. As diferenças entre antissemitismo e antissionismo dizem respeito, portanto, sob a ótica do status moral e político, com o antissemitismo sendo considerado como racismo e intolerância racial, enquanto o antissionismo sendo considerado como crítica política contra o Estado de Israel.
Pelo exposto, pode-se afirmar que o antissemitismo é um fenômeno multissecular e mutável, que assumiu diferentes formas ao longo do tempo como os descritos a seguir:
· Religioso (Idade Média): acusação de “deicídio” contra judeus (ato de matar um deus ou uma divindade). O termo refere-se comumente à crucificação de Jesus Cristo, considerada pelos cristãos a morte de um ser divino, e pode também significar a contestação da existência de Deus ou deidades.
· Nacionalista (século XIX): os judeus considerados como “corpo estranho” à nação.
· Racial (século XX): os judeus considerados como raça inferior durante o nazismo.
· Contemporâneo: o antissemitismo inclui formas híbridas, algumas ligadas ao debate sobre Israel na era contemporânea.
Dois são os cenários prospectivos para o futuro do antissemitismo e do antissionismo no mundo, descritos a seguir:
Cenário futuro 1- Aumento do antissemitismo e do antissionismo no mundo
Este cenário considera a manutenção do governo sionista israelense com extremistas de direita no exercício do poder que tem as características seguintes:1) Ocupação e colonização de toda a Palestina por Israel e a retórica de ódio contra os palestinos e o Irã alimentam ressentimento global; 2) Violações de direitos humanos por Israel contra os palestinos e populações libanesas e repressão à crítica contra a política de Israel fortalecem narrativas de ódio contra judeus no mundo todo; 3) Judeus em países diversos se tornam alvo de ataques, ameaças de boicotes contra Israel e interesses judaicos no mundo; 4) Aumento de violência israelense gera aumento de ressentimento com mais radicalização e mais antissemitismo; 5) Parte da opinião pública tende a associar judeus em geral às ações do governo sionista israelense que pode gerar hostilidade dirigida a comunidades judaicas dentro e fora de Israel; 6) Israel mais isolado no mundo com a perda de alianças construídas especialmente no Oriente Médio e aplicação de sanções contra Israel; 7) crescimento de movimentos antissemitas contra judeus e de movimentos antissionistas contra Israel; 8 ) Haverá mais conflito promovido por Israel contra os palestinos e o Irã e seus aliados, mais radicalização de Israel contra seus inimigos e mais antissemitismo contra os judeus e antissionismo contra Israel; 9) A guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza e contra o Irã e sua rede de apoios no Líbano (Hezbollah) e no Iêmen (Houthis) intensificará a radicalização; e, 10) Conflitos geopolíticos também alimentam discursos conspiratórios e ódio contra os judeus em larga escala.
Em síntese, o resultado provável do Cenário futuro 1 é o crescimento global de incidentes antissemitas e antissionistas, maior tensão entre comunidades judaicas e outros grupos sociais no mundo e expansão do antissemitismo e do antissionismo tanto à direita quanto em setores radicalizados à esquerda.
Cenário futuro 2- Redução do antissemitismo e do antissionismo no mundo
Este cenário considera a existência de um novo governo israelense que tenha abandonado o sionismo com o afastamento dos extremistas de direita do governo de Israel e mudanças de orientação política que tem as características seguintes:1) Retorno à democracia e ao estado de direito em Israel com o afastamento de extremistas de direita do poder visando construir instituições democráticas fortes, respeito do governo de Israel pelos direitos humanos e fim da incitação contra os palestinos, Irã e países árabes em geral; 2) Abertura de Israel para a paz e o diálogo com os palestinos, Irã e países árabes que reduz os discursos de ódio com a adoção de processos diplomáticos que diminuem a exposição à violência e ressentimento e aumenta a credibilidade no combate ao antissemitismo; 3) Redução do antissemitismo e do antissionismo global com menos demonização dos judeus, com a diferenciação mais clara entre judeus e políticas sionistas do Estado de Israel evitando a fusão entre crítica legítima contra o sionismo e preconceito antissemita; 4) Israel mais forte e respeitado contando com apoio internacional renovado, parcerias, inovação e prosperidade sustentáveis; e, 5) Novo ciclo de convivência pacífica e esperança no futuro com menos ódio e mais segurança para todos os povos da região.
Em síntese, o resultado provável do Cenário futuro 2 é a queda gradual de incidentes antissemitas e antissionistas, a melhora das relações internacionais e maior eficácia nas políticas de combate ao antissemitismo.
Para que o cenário desejável (Cenário 2) venha a acontecer, é preciso que os judeus em Israel e em todos os países do mundo se empenhem no sentido de remover os extremistas sionistas do poder no Estado de Israel para criar as condições para a construção da paz no Oriente Médio entre o governo de Israel, os palestinos, o Irã e os países árabes. Além disso, o futuro novo governo de Israel não sionista se responsabilizaria pela reconstrução da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e buscaria a conciliação entre os povos judeu e palestino. Estas são as condições para que o antissemitismo e o antissionismo sejam extirpados da face da Terra.
Constata-se, portanto, que a única solução que permitiria evitar o crescimento do antissemitismo e do antissionismo no mundo seria os judeus de Israel e de todos os países do mundo se empenharem no sentido de colocar os extremistas sionistas fora do poder no Estado de Israel que abriria caminho para a construção da paz no Oriente Médio entre o governo de Israel, os palestinos, o Irã e os países árabes. A preliminar para que a paz ocorra no Oriente Médio, é a de que haja a construção da paz na região da Palestina entre o povo judeu e o povo palestino que consistiria em, de um lado, Israel aceitar a constituição do Estado palestino, buscar uma solução justa e negociada sobre Jerusalém e sobre o destino de refugiados palestinos e acabar com os assentamentos judaicos na Cisjordânia e, de outro, os palestinos reconhecerem o Estado de Israel. Além disso, os novos governos israelense e palestino deveriam buscar a construção da paz entre todas as nações do Oriente Médio.
Para assistir o vídeo, acessar o website:
https://www.youtube.com/watch?
Para ler o artigo completo de 5 páginas em Português, Inglês e Francês, acessar os websites do Academia.edu <https://www.academia.edu/
* Fernando Alcoforado, 86, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.
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