
Copidesquei hoje um texto que escrevi em 2019, no início do governo Bolsonaro, antes da pandemia. Não estou com saúde (mamãe diria, com nervos!) para falar, com a gentileza que meus leitores merecem, sobre o que estamos vivendo às vésperas desta eleição que se aproxima.
Eu dizia naquele ano: Tive um déjà-vu com a lembrança de uma revista em quadrinhos da minha infância. Quem é da minha geração deve lembrar de “Os sobrinhos do capitão”.
O Capitão, bobão (se finge de boa gente), tem sobrinhos capetas, que pintam e bordam na maior maldade, sob seu olhar conivente. Dois verdadeiros moleques. São defendidos por Mama Chucrutz, que faz tortas, coloca panos quentes nos malfeitos e mima os meninos. O Coronel, maior patente, mais velho, de barbas brancas, é o caça-gazeteiros que quer enquadrar os cabuladores de aulas e mal-educados, principalmente Hans e Fritz, os sobrinhos insuportáveis do Capitão. Dona Josefina é a professora, Lilico o aluno bom menino, ambos penam nas mãos dos dois endiabrados. A história se passa na África colonial, os negros, como sempre, são o alvo preferido das maldades.
Lembra alguma coisa para vocês? Não?!?!?! Vamos lá: De sobrinhos para filhinhos, e de dois para quatro, não faz grande diferença. A inversão de poder na hierarquia militar é clara, sem implicar nisso o fato de que o sábio é o general... ops... o Coronel (os generais que viriam a articular o golpe com o capitão!). Professora e bom aluno tratados como lixo, já que educação se resume a cantar o hino diariamente para ser filmado (aprender e ter conhecimento significa pensar, algo perigoso para o capitão e seus filhinhos). Finalmente, Mama Chucrutz é a imagem perfeita dos apoiadores do governo, jogando torta na nossa cara, chamando de comunistas e petralhas a todos que se queixarem dos malfeitos das crianças mentirosas e arruaceiras. O povo brasileiro vem como africanos, negros e pobres, escravos que devem trabalhar e servir em silêncio... E mais não preciso dizer.
O que eu pensava em 2019 sobre a família Bolsonaro, continuo pensando hoje, com os agravantes da tentativa do golpe de 8 de janeiro, da criação de um banco para extorquir os aposentados brasileiros em proveito próprio – fazer filme, bancar vida de nababo nos Estados Unidos, comprar mansões, eteceteraetal -- , e da venda do Brasil para os Estados Unidos de Trump, dando-lhe poder para escravizar nosso povo e tomar tudo que ainda nos resta. Esta última, já transformada em ação, pelo sobrinho/filhinho Fritz. Assisto e não acredito na propaganda transmitida na televisão: Hans, tão parecido a Adolf!, candidato no lugar do pai, preso por tentativa de golpe, dizendo que vai quadruplicar a multa para quem rouba celular (ação feita por Lula no atual governo, fez isso ao limite possível de 15 anos de prisão); que vai defender a mulher e acabar com o feminicídio, ele que fez o que fez com a própria mulher, que debochou do assassinato de Marielle Franco, que viu seu pai assediar menores venezuelanas e achou a maior graça; que vai acabar com o PCC, ele que foi à prisão levar medalha para um de seus líderes – diz que desconhecia não ser ele “pessoa de bem”... Mas estava preso ou não estava?
Acho horrível a divisão que o filho do capitão e outros candidatos de direita fazem do povo brasileiro como “de bem” e “só que não?” Vão governar para as “pessoas de bem”. Quem faz este julgamento, divide e rotula a população? Eu, certamente sou pessoa do mal, já que sou de esquerda, filha de comunistas perigosíssimos que até escreviam livros. Nada mais subversivo do que escrever livros. Pior somente poder ler e compreender o que se quer dizer, ter consciência, pensar pela própria cabeça. Para isso precisamos ter uma educação sólida, a meu ver o melhor caminho para diminuir a violência. O presidente a ser eleito deve governar para TODOS os brasileiros, não é não?
Em tempo, sou socialista, nunca fui filiada a nenhum partido político – estou muito mais à esquerda do que o Partido dos Trabalhadores, que respeito e reverencio. Votarei sempre com a esquerda e aproveito aqui para declarar meu voto em Lula na próxima eleição.
O povo brasileiro é constituído de pessoas da maior qualidade, capazes de sobreviver com dignidade às mais duras provas que a pobreza e os péssimos governos fascistoides impõem. Sem dúvidas são pessoas muito melhores que essa corja parenta do capitão.
Bom domingo de reflexão a todos.
*Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
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