
Por Fernando Alcoforado.
Este é o resumo do artigo de 10 páginas que tem por objetivo apresentar os fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel e os fatores de insucesso da ação militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã levando em conta fatores estratégicos, geopolíticos e militares, distinguindo capacidades reais, limitações e riscos de escalada. Serão oferecidas respostas quanto às razões pelas quais o Irã consegue resistir à agressão militar dos Estados Unidos e Israel sem aceitar uma rendição incondicional.
Os fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel são os seguintes: 1) O Irã adota uma estratégia militar defensiva; 2) Os obstáculos existentes no Irã para seus inimigos conquistarem seus objetivos estratégicos; 3) A doutrina de guerra assimétrica do Irã; 4) O grande arsenal de mísseis e drones do Irã; 5) A dispersão, redundância e capacidade de regeneração do sistema militar iraniano; 6) O fechamento e controle do Estreito de Ormuz pelo Irã; 7) A capacidade do Irã de ampliar a guerra para diversos pontos do Oriente Médio; 8 ) A rede de aliados e organizações associadas ao Irã no Oriente Médio; 9) O apoio econômico e diplomático externo ao Irã; 10) O desenvolvimento da capacidade tecnológica própria pelo Irã; 11) A coesão institucional e o nacionalismo defensivo do Irã; 12) A possibilidade do programa nuclear iraniano produzir armas nucleares como dissuasão latente; 13) A guerra de atrito desenvolvida pelo Irã e o fator tempo a seu favor; e, 14) A criação pelo Irã de uma nova crise do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz que tende a levar a economia mundial à depressão econômica.
Os fatores de insucesso da ação militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã são os 14 fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel acima descritos e mais os seguintes: 1) As limitações de uma campanha exclusivamente aérea pelos Estados Unidos e Israel; 2) O custo proibitivo de uma invasão terrestre do Irã pelos Estados Unidos; 3) A vulnerabilidade das economias dos países do Golfo Pérsico aliados dos Estados Unidos a ataques iranianos; 4) A ausência de alternativa política capaz de substituir o regime iraniano atual; 5) As limitações políticas, econômicas, financeiras e militares dos Estados Unidos; 6) As limitações estratégicas de Israel; e, 7) A impossibilidade prática dos Estados Unidos e Israel imporem “rendição incondicional” ao Irã.
Conclusão
Este artigo deixa evidenciado o insucesso dos Estados Unidos e Israel em promover a mudança do regime iraniano e em obter a rendição incondicional do governo do Irã graças ao sucesso do governo iraniano na adoção de eficazes estratégias defensivas. O Irã resiste porque estruturou sua defesa não para vencer uma guerra convencional, mas para sobreviver ao primeiro ataque, dispersar suas forças, retaliar de forma assimétrica, regionalizar o conflito e elevar progressivamente os custos do adversário. Essa estratégia não garante uma vitória iraniana, mas assegura sua sobrevivência como nação independente. O país enfrenta perdas militares, humanas e econômicas extremamente graves, defesas aéreas vulneráveis, deterioração econômica e crescente dependência de sistemas assimétricos. Todavia, ela torna sua rendição incondicional militarmente difícil, economicamente dispendiosa e politicamente arriscada para seus inimigos.
A resistência iraniana não significa que o país esteja vencendo militarmente os Estados Unidos e Israel. Ambos possuem enorme superioridade aérea, tecnológica, de inteligência e de poder de fogo. O que ocorre é que o Irã demonstra ter capacidade suficiente para impedir que a superioridade militar adversária seja capaz de levá-lo à rendição incondicional com a capitulação política, mudança de regime e ocupação do território iraniano. O fator central é a diferença entre superioridade militar e capacidade de impor resultados políticos. Em outras palavras, Estados Unidos e Israel podem conquistar superioridade aérea, destruir grande parte da infraestrutura militar iraniana e provocar danos econômicos enormes. Contudo, para obrigar o Irã à rendição incondicional, precisariam eliminar simultaneamente sua liderança política e militar, sua capacidade de retaliação, sua coesão institucional, sua rede regional de apoiadores e sua possibilidade de reconstrução mediante uma invasão e ocupação de escala gigantesca do Irã pelos Estados Unidos e Israel.
Estados Unidos e Israel podem destruir instalações, eliminar comandantes e reduzir capacidades militares, mas isso não garante que consigam impor uma rendição incondicional ao Irã. Mesmo após campanhas de bombardeio e pesadas perdas, o Estado iraniano permanece funcional, preservou parte de sua capacidade de retaliação e continua exercendo domínio sobre o Estreito de Ormuz cujo fechamento pelos iranianos provocará uma crise energética de grandes proporções cujos efeitos sobre a economia mundial tenderão a ser muito severos, inclusive com a possibilidade de depressão da economia mundial cuja magnitude dependerá principalmente da duração do bloqueio sobre o Estreito de Ormuz. Em síntese, o fechamento do Estreito de Ormuz constitui um dos maiores riscos geoeconômicos do sistema internacional. Ele pode desencadear uma grave crise energética e uma recessão mundial. Uma depressão econômica global é um cenário plausível em caso de interrupção prolongada e escalada do conflito, mas não é um desfecho inevitável.
A última grande ameaça do governo Trump é a de destruir a infraestrutura de energia, pontes, entre outras, do Irã para obter a rendição deste país e que resulte em sua incapacidade de exercer o controle do Estreito de Ormuz. O governo iraniano, por sua vez, ameaçou, em retaliação, destruir as bases militares americanas e a infraestrutura de produção de petróleo, de dessalinização da água, entre outras instalações de empresas norte-americanas existentes nos países do Oriente Médio que levaria à inviabilização de muitos desses países que seriam privados da produção de petróleo e do abastecimento de água para suas populações. Foi esta ameaça de retaliação iraniana que fez o governo Trump suspender os novos bombardeios contra o Irã a pedido dos governos de países do Oriente Médio, vassalos dos Estados Unidos. Diante da desmoralização do governo Trump em não ter propiciado proteção militar aos países aliados do Oriente Médio contra os ataques iranianos por drones e mísseis e da possibilidade de perder o controle político e militar que exerce sobre os países vassalos do Oriente Médio pelo fato de não conseguir fazer com que o Irã se dobre à sua vontade, o governo Trump poderia, em última instância, fazer uso de uma bomba atômica sobre o Irã para obter a rendição incondicional deste país como fez com o Japão durante a Segunda Guerra Mundial.
Com base nas informações públicas disponíveis não há evidências de que o governo Trump tenha decidido ou esteja preparando o emprego de armas nucleares contra o Irã. Ao contrário, quando questionado diretamente sobre essa hipótese em abril de 2026, Donald Trump respondeu que não usaria armas nucleares contra o Irã, afirmando que os objetivos militares poderiam ser alcançados por meios convencionais e que « uma arma nuclear nunca deveria ser usada por ninguém ». Como os objetivos militares dos Estados Unidos não estão sendo alcançados por meios convencionais, a solução consistiria no uso de armas nucleares contra o Irã ? O emprego de armas nucleares apresentaria, entretanto, custos extremamente elevados para os próprios Estados Unidos porque romperia o chamado « tabu nuclear » vigente desde 1945, provocaria forte condenação internacional, inclusive entre aliados, aumentaria significativamente o risco de escalada regional ou global com a possibilidade de eclosão da Terceira Guerra Mundial, poderia estimular outros países a buscar armas nucleares como forma de dissuasão e geraria consequências humanitárias, ambientais e econômicas de grande magnitude. O governo Trump está diante da alternativa inviável de negociar um acordo vantajoso para os Estados Unidos com o Irã ou fazer uso de uma bomba atômica com todas as consequências dela resultantes para obter a rendição incondicional do Irã.
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