
Este é o resumo do artigo de 11 páginas que tem por objetivo apresentar como ocorreram as 6 revoluções agrícolas que produziram impactos sobre a sociedade ao longo da história. As revoluções agrícolas foram transformações profundas na forma de produzir alimentos e mudaram radicalmente a organização econômica, social e política da humanidade. Nos parágrafos abaixo está apresentado um panorama das principais revoluções agrícolas e seus impactos globais.
1ª Revolução agrícola ou (Revolução Neolítica)
A 1ª Revolução Agrícola (10 mil a 8 mil a.C) é, também, conhecida como “Revolução Neolítica”. Durante a 1ª Revolução Agrícola ou Revolução Neolítica houve a transição do nomadismo caçador-coletor para a agricultura sedentária com o cultivo de plantas (trigo, cevada, arroz, milho) e domesticação de animais (bovinos, ovinos, suínos) que ocorreu na Mesopotâmia (Crescente Fértil), no Vale do Rio Nilo, no Vale do Rio Indo, na China, na Mesoamérica e na região dos Andes. Com o passar dos séculos, o aprimoramento das técnicas agrícolas e a sedentarização da população permitiram uma dieta alimentar mais rica e um expressivo crescimento dos grupos humanos.
Para que ocorresse a 1ª Revolução Agrícola foi de fundamental importância a descoberta, por exemplo, das sementes, que levaram ao desenvolvimento das técnicas produtivas e da especialização do trabalho na agricultura. As mulheres que eram responsáveis pela coleta de raízes e frutos observaram que as sementes das plantas, quando enterradas no solo, brotavam e davam origem a novas plantas. Com o tempo, aprenderam os processos de cultivo. Vendo como as sementes germinavam, as mulheres passaram a selecionar sementes dos melhores alimentos, a plantar uma a uma em solo macio e úmido e conseguiram os primeiros cultivos.
Nossos antepassados usavam galhos de árvores para afofar o solo e fazer sulcos onde eram colocadas as sementes, como enxadas primitivas. Como nessa época o ser humano já havia dominado a metalurgia e domesticava animais, inventou um utensílio feito com galhos bifurcados (que depois recebeu uma pedra afiada na ponta) que, puxado por animais, arava a terra. Os sumérios foram os primeiros a utilizarem arados tracionados por animais. O impacto da invenção do arado foi tão grande que hoje ela é considerada um marco da 1ª Revolução Agrícola. Os arados desta época apenas rasgavam a terra, sem revirá-la como fazem os arados mais modernos. A 1ª Revolução Agrícola ou Revolução Neolítica provocou o surgimento das primeiras aldeias e cidades no mundo, o crescimento populacional, o nascimento da propriedade privada da terra, a divisão social do trabalho, a criação do aparelho de Estado, da escrita e da tributação.
A 1ª Revolução Agrícola contribuiu para o surgimento das grandes civilizações que ocorreram por volta de 4000 a 3000 a.C., no período da Antiguidade, com o desenvolvimento da escrita e da agricultura nas férteis regiões dos rios na Mesopotâmia, Egito, Vale do Indo e China, formando as primeiras cidades-estado e impérios complexos com organizações sociais e políticas avançadas. As várias civilizações de povos sumérios, babilônios, assírios, medos e persas constituíram a chamada civilização do regadio. A ciência e a tecnologia primitivas de armazenamento dos produtos agrícolas surgiram na Mesopotâmia e também no Egito.
2ª Revolução agrícola
A 2ª Revolução Agrícola ocorreu na Baixa Idade Média que corresponde ao período entre os séculos XII e meados do século XV. Neste período, houve um conjunto de transformações ocorridas na agricultura, a partir de novas técnicas e tecnologias (ferradura, rotação de culturas, charrua, coalheira etc.). Na medida em que fez surgir o excedente de produção, dinamizou o comércio e as cidades e fortaleceu a burguesia, abalando os pilares do feudalismo. Houve melhoria nas técnicas agrícolas que provocaram o excedente de produção. Este excedente de produção fez com que o que fosse produzido virasse "moeda", escambo, quando produtos como alimentos, ferramentas ou trabalho são trocados por outros de valor equivalente. As "aldeias", feudos, começam a ganhar força através desse comércio.
Na Baixa Idade Média, surgiu uma nova classe social: a burguesia. Dedicados ao comércio, os burgueses se enriqueceram e dinamizaram a economia no final da Idade Média. Esta nova camada social necessitava de segurança e buscou construir habitações protegidas por muros. Surgiram assim os burgos que, com o passar do tempo, deram origem a várias cidades. As cidades passaram a significar maiores oportunidades de trabalho. Muitos trabalhadores da zona rural passaram a deixar o campo para buscar melhores condições de vida nas cidades europeias. Com a diminuição dos trabalhadores rurais, os senhores feudais tiveram que alterar as obrigações dos servos, amenizando os impostos e taxas. Em alguns feudos, chegaram a oferecer maiores remunerações para os servos. Estas mudanças significaram uma transformação nas relações de trabalho no campo com o fim da servidão do qual resultou a desintegração do sistema feudal de produção.
A evolução da produtividade agrícola na Baixa Idade Média foi muitíssimo lenta. Baseando-se apenas em melhorar o arado de pau puxado pelo homem e alguns utensílios de pedra, passaram-se séculos para que os trabalhos de arrasto feitos pelo homem pudessem ser substituídos pela força animal, libertando-se o homem de trabalho tão árduo. Com o aparecimento e barateamento do ferro, o arado foi melhorado. Houve várias conquistas técnicas com o arado de ferro e com o desenvolvimento de novas maneiras de se atrelar o arado aos animais de modo a permitir que eles fossem utilizados à plena força, além de substituír o boi pelo cavalo, como animal de tração. Cabe observar que o arado, que serve para lavrar (arar) os campos, revolvendo a terra com o objetivo de descompactá-la, foi uma das grandes invenções da humanidade por permitir a produção de crescentes quantidades de alimentos e a fixação de populações estáveis.
3ª Revolução agrícola
A 3ª Revolução Agrícola ocorreu nos séculos XVII e XVIII. Neste período, houve um conjunto de transformações na agricultura principalmente na Inglaterra com a rotação de culturas (sistema Norfolk), o cercamento de terras (enclosures), o melhoramento genético rudimentar e o uso de ferramentas mais eficientes na produção agrícola. A 3ª Revolução Agrícola promoveu grande aumento da produtividade, o deslocamento de camponeses do campo para as cidades onde se transformaram em proletariado urbano, bem como o crescimento demográfico europeu. A 3ª Revolução Agrícola foi a pré-condição para o advento da 1ª Revolução Industrial. A agricultura capitalista nasceu com a 3ª Revolução Agrícola.
A 3ª Revolução Agrícola aconteceu na Inglaterra em paralelo com a 1ª Revolução Industrial com as inovações agrícolas que foi um processo que iniciou entre o final do século XVII e o final do século XVIII, na Inglaterra e na Holanda (Províncias Unidas), países com uma intensa atividade comercial. Durante os séculos XVII e XVIII, os grandes proprietários rurais ingleses (nobres e burgueses) levaram a cabo transformações nas suas propriedades que provocaram uma verdadeira revolução agrícola na Europa. Os grandes proprietários agrícolas ingleses aumentaram o tamanho de seus terrenos com a anexação de terrenos baldios, comprando a baixo preço terras a pequenos proprietários, recorrendo ao emparcelamento e cercamento dos terrenos (enclosures) que possibilitaram o aumento da criação de gado. Os grandes proprietários agrícolas ingleses fizeram experiências agrícolas ao nível da produtividade do solo e do aperfeiçoamento das raças animais. A agricultura, orientada para o mercado, permitiu aos proprietários rurais, aumentar a produção, conseguir lucros e investir em novas máquinas e técnicas.
O cercamento das terras e a criação de gado provocaram a diminuição das necessidades de mão de obra no campo. Muitos camponeses sem terra e trabalho no campo acabaram por migrar para a cidade. As inovações na agricultura consistiram no aperfeiçoamento de instrumentos e utilização das primeiras máquinas agrícolas, aplicação do sistema de rotação quadrienal das culturas com recurso à fertilização da terra com estrume animal, seleção de sementes e de animais reprodutores, expansão de novas culturas mais produtivas, caso da batata e do milho, aumento da área cultivável com a melhoria dos solos arenosos, com a adição de argila e a drenagem de pântanos. Novas técnicas agrícolas e maior investimento em maquinaria agrícola levaram ao aumento da produção agrícola que estava orientada para o mercado gerando maiores lucros na agricultura que são investidos no arranque do processo de industrialização. Os lucros oriundos da agricultura e do comércio colonial foram aplicados no desenvolvimento da atividade industrial e no comércio contribuindo para o crescimento do número de bancos que emprestavam dinheiro. A 3ª Revolução Agrícola ocorrida na Inglaterra foi uma fator importante no desencadeamento da 1ª Revolução Industrial.
4ª Revolução agrícola ou Revolução verde
A 4ª Revolução Agrícola ou Revolução verde ocorreu nas décadas de 1940–1970 do século XX nos Estados Unidos, na Europa, no México, na Índia e no Sudeste Asiático com o desenvolvimento de sementes de alto rendimento (trigo e arroz) e o uso de fertilizantes químicos, agrotóxicos, irrigação em larga escala e a mecanização pesada. A 4ª Revolução Agrícola recebeu o nome de Revolução Verde. A expressão Revolução Verde diz respeito à invenção e disseminação de novas sementes e práticas agrícolas que permitiram um vasto aumento na produção agrícola nos Estados Unidos e na Europa e, nas décadas seguintes, em outros países. O modelo se baseia na intensiva utilização de sementes geneticamente alteradas (particularmente sementes híbridas), insumos industriais, fertilizantes e agrotóxicos, mecanização, produção em massa de produtos homogêneos e diminuição do custo de manejo. Também é creditado à Revolução Verde, o uso extensivo de tecnologia no plantio, na irrigação e na colheita, assim como no gerenciamento de produção.
A expansão da agricultura até meados dos anos 1970 deu-se de forma horizontal, isto é, com a incorporação de novas áreas para aumentar sua produção em todo o mundo. Em seguida, essa expansão ocorreu de forma vertical, isto é, houve um incremento de tecnologia para o aumento de sua produtividade. A partir de então, o caminho da agricultura tem sido o incremento tecnológico. Essa tecnologia engloba tanto a produção de insumos agrícolas (agrotóxicos, fertilizantes, etc.) quanto a mecanização agrícola e o uso da biotecnologia. Hoje em dia há uma enorme utilização dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG), que os especialistas chamam de “agricultura de precisão”. Dentre os desafios para a agricultura, estão principalmente a questão ambiental e a segurança alimentar. Nesse contexto é que o debate entre biotecnologia, transgênicos e agricultura orgânica ganha força.
A Revolução Verde passou a sofrer críticas, que persistem até hoje. Muitos questionam a sustentabilidade de um projeto baseado em monoculturas e que faz uso em grande escala de fertilizantes, agrotóxicos e insumos de alto custo. Outro ponto negativo são os maus tratos ao meio ambiente decorrentes do avanço das fronteiras agrícolas. O termo Revolução Verde foi criado durante uma conferência em Washington, por Willian Gown. Apesar de o termo ter surgido apenas na década de 1950, a vontade de inovação e o programa surgiram logo após a Segunda Guerra Mundial devido aos avanços e conhecimentos tecnológicos da época. Pesquisadores de países industrializados pretendiam aumentar a produção de alimentos, acabando assim com a fome nos países capitalistas periféricos através de um conjunto de tecnologias inovadoras. No entanto, o aumento da produção não foi o suficiente para acabar com a fome do mundo. Entre os problemas encontrados estava, principalmente, o fato de que os alimentos produzidos nos países capitalistas periféricos eram – e ainda são – destinados aos países desenvolvidos. O programa parecia satisfazer mais os grandes agricultores, fazendo com que os outros não conseguissem se adaptar às novas técnicas e não atingissem a produtividade, dificultando a sua permanência no ramo.
A Revolução Verde trouxe, também, inúmeros problemas para o meio ambiente. Com o desmatamento para cultivo, veio também o surgimento de pragas e utilização de agrotóxicos, fungicidas, entre outros problemas. Desta forma, houve uma alteração e contaminação em todo o ecossistema – solos, rios, animais, vegetais. Além disso, o programa “expulsou” os pequenos produtores da sua lavoura, contribuindo para o aumento do êxodo rural e, consequentemente, para o aumento da população em periferias de grandes capitais. A Revolução Verde ocorreu com o incremento de tecnologias às técnicas até então aplicadas. O objetivo era aumentar a produção e a produtividade. Os resultados foram obtidos por meio de técnicas como a rotação de cultura, a diversificação das sementes e a equalização do espaço para a pecuária.
5ª Revolução agrícola ou Revolução digital
A 5ª Revolução Agrícola ou Revolução digital ocorreu no final do século XX e durante o século XXI. As transformações que acontecem no campo estão relacionadas com a digitalização dos processos de produção. Esse fenômeno vai além da simples mecanização do campo. Nessa nova onda de mudanças, ganha forma a agricultura digital: “mix” de Internet das Coisas (rede de objetos físicos e dispositivos que se conectam à internet, permitindo a troca de dados entre eles), agricultura de precisão (estratégia de gestão agrícola que visa aumentar a produtividade, a sustentabilidade e a minimização dos impactos ambientais) e Big Data (usado em aprendizado de máquina, modelagem preditiva e outras análises avançadas para resolver problemas de negócios e tomar decisões informadas).
A 5ª Revolução Agrícola significa o uso de tecnologias digitais que aumentam qualidade e velocidade das decisões do produtor. O uso de plataformas de agricultura digital apoia o produtor por meio de serviços e soluções baseadas em ciência de dados, auxiliando no gerenciamento de suas operações com mais eficiência durante toda a safra, do plantio à colheita. Frente ao aumento da população mundial, veio a necessidade irrefutável de aumentar a produção de alimentos nos próximos anos. As plataformas de agricultura digital não só beneficiam o uso localizado de insumos (agricultura de precisão), como auxiliam o agricultor a aumentar a produção agrícola e melhorar o monitoramento da propriedade rural e o controle do processo produtivo como um todo. Com esse apoio, o agricultor tem condições de tomar decisões mais assertivas em todos os manejos e operações adotados. Para o agricultor, as tecnologias digitais tornaram-se uma aliada e tanto para reduzir custos e alcançar altos patamares de produtividade ao final de cada safra.
A 5ª Revolução Agrícola contempla a utilização de transgênicos e edição genética (CRISPR), bem como da agricultura de precisão (GPS, sensores, drones), de Big Data, da inteligência artificial e automação. A 5ª Revolução Agrícola propicia, como benefícios, a redução de custos e insumos e o controle corporativo das sementes e como malefícios a dependência de patentes e a exclusão de pequenos produtores. A agricultura torna-se parte do complexo tecnocientífico-financeiro global.
6ª Revolução agrícola ou Revolução agroecológica
A 6ª Revolução Agrícola ou Revolução agroecológica ganhou força nas décadas de 1970 e 1980, que ocorreu na América Latina, África e Ásia (movimentos camponeses), surgiu como uma alternativa sistêmica que propõe uma produção agrícola baseada na agricultura familiar, em princípios ecológicos, na diversidade de cultivos, no uso do conhecimento tradicional e da ciência, na soberania alimentar e na reforma agrária e justiça social. Cabe observar que a soberania alimentar diz respeito ao direito dos povos de escolherem como organizar a produção e distribuição dos alimentos, a democratização do acesso à terra, os modelos produtivos sustentáveis (agroecologia) e a pequena produção (agricultura familiar). A 6ª Revolução Agrícola proporciona resiliência climática, redução da dependência de insumos externos e reconstrução de economias locais. Trata-se de uma revolução em disputa contra o agronegócio global.
A 6ª Revolução Agrícola baseada na agricultura familiar é um modelo de produção rural onde a família é a principal gestora e força de trabalho, em pequenas propriedades, gerando a maior parte da renda familiar com a própria atividade agropecuária, sendo crucial para a segurança alimentar porque abastece com alimentos básicos, para a economia local e para a sustentabilidade, por focar na diversidade de culturas e uso de práticas mais integradas com o meio ambiente. As características principais da agricultura familiar são: 1) a gestão e a execução da produção pelas famílias com pouca dependência de empregados assalariados; 2) a pequena propriedade; 3) a maior parte da renda familiar vem da produção agropecuária da propriedade; 4) a diversidade produtiva com o cultivo de várias culturas (hortaliças, frutas, grãos, etc.) e criação de pequenos animais, gerando segurança alimentar e estabilidade de renda; e, 5) a sustentabilidade com foco na conservação de práticas tradicionais e recursos naturais.
Para assistir o vídeo, acessar o website https://www.youtube.com/watch?
Para ler o artigo em Português, Inglês e Francês, acessar o website do Academia.edu <https://www.academia.edu/
*Fernando Alcoforado, 86, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do IPB- Instituto Politécnico da Bahia e da Academia Baiana de Educação, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.
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