
A última década na Bahia consolidou um cenário paradoxal: enquanto a comunicação digital se expandia, o espaço para o jornalismo independente encolhia sob o peso de uma perseguição multifacetada. O que testemunhamos entre 2016 e 2026 não foi uma série de incidentes isolados, mas a implementação de um cerco deliberado onde o poder político e o Judiciário muitas vezes se fundem para silenciar a fiscalização social. No tabuleiro da democracia baiana, a estratégia de silenciamento evoluiu, alternando entre a brutalidade do chumbo no interior e a sofisticação perversa da perseguição política via tribunais.
O rastro de sangue deixado no estado é a face mais cruel dessa realidade, com o Sul e Extremo Sul da Bahia, configurando-se como zonas de silenciamento letal. De acordo com relatórios da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), a violência contra comunicadores expõe a vulnerabilidade de quem atua fora da capital.
Em Itabuna, o caso de Manoel Leal, fundador do jornal A Região, assassinado em 1998, continua sendo o marco da impunidade que atravessa décadas; a falta de punição rigorosa aos mandantes políticos alimentou a percepção de que a caneta pode ser interrompida pela bala sem consequências reais.
Em Teixeira de Freitas, em 2014, o jornalista Gel Lopes foi executado a tiros em uma emboscada, simbolizando a fragilidade dos profissionais diante da exposição de esquemas locais de poder. Já em Conceição da Feira, em 2015, o radialista Djalma Santos da Conceição foi sequestrado e executado com requintes de crueldade, em uma resposta direta às suas denúncias sobre o crime organizado.
Esse padrão de execução de vozes comunitárias críticas foi reforçado pelas mortes de Marlon de Carvalho Araújo, em Riachão do Jacuípe (2018), e Weverton Rabelo (Toninho Locutor), em Planaltino (2021).
Se no interior o silêncio vem pela bala, nos grandes centros urbanos ele vem pelo processo. O caso de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia (JGB), com sede em Feira de Santana e forte atuação em Salvador. Ao investigar a Operação Faroeste, iniciada em 2019 contra o esquema de venda de sentenças e grilagem no Oeste baiano, Augusto tornou-se alvo de uma avalanche de processos coordenados. Este assédio não busca justiça, mas a falência financeira e o esgotamento emocional do profissional. Apenas em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF), nas ADIs 6792 e 7055, impôs limites a esse abuso, proibindo a fragmentação de processos e garantindo que o foro seja o domicílio do réu para evitar o asfixiamento do jornalista, ação promovida pela Associação Brasileira de Imprensa - ABI e pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo - Abraji.
Em Lauro de Freitas, cidade da Região Metropolitana de Salvador, na Bahia, o jornalista Fábio Costa Pinto reforça essa luta por um jornalismo de resistência contra a estupidez coletiva. Ele relata que, em janeiro de 2025, um incidente o levou a denunciar a perseguição que enfrenta há anos, encontrando explicação nas reflexões de Carlo Cipolla, para quem "os estúpidos são mais perigosos que os bandidos", e de Dietrich Bonhoeffer, sobre a "estupidez coletiva" que cega indivíduos em nome do poder. Há mais de sete anos, Costa Pinto vem denunciando crimes contra profissionais da imprensa e populações vulneráveis, o que gerou uma reação direta: ele relata ser seguido na rua, em mercados e bancos, em uma tentativa de prejudicar seu trabalho ético. Membro do Conselho Deliberativo da ABI e editor do portal IBI, ele afirma que o jornalismo na Bahia tornou-se um ato de coragem, onde líderes políticos normalizam o ódio e o sistema judiciário é usado para intimidação simbólica. Diante da covardia, ele já registrou boletins de ocorrência, reafirmando que não tem medo de covardes.
Proteger o jornalismo na Bahia exige mais do que discursos; exige políticas públicas eficazes e o reconhecimento da imprensa como pilar democrático. Quando jornalistas são calados pela força ou pela toga, quem perde é a sociedade, que fica cega para fiscalizar seus governantes. A luta de profissionais como Carlos Augusto e Fábio Costa Pinto é a garantia de que a verdade ainda terá voz. Defender a liberdade de imprensa é defender o direito coletivo à informação e a própria sobrevivência da democracia.
*Fábio Costa Pinto é jornalista, membro do Conselho Deliberativo da ABI e membro das Comissões de Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos. É fundador do Jornal Repórter (Impresso) e editor do portal de notícias Inteligência Brasil Imprensa (IBI).
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