
Ao longo dos séculos, a história do Brasil nem sempre foi contada a partir de todas as vozes que ajudaram a construir o país. Povos negros, indígenas, ciganos e comunidades tradicionais, comprovam essa realidade, que apesar do protagonismo na formação social, cultural e histórica brasileira, eles foram frequentemente reduzidos à invisibilidade ou a representações limitadas. Com a proposta de reconstruir essa narrativa, o Museu da Diáspora Africana, dos Povos Indígenas e das Comunidades Tradicionais da Paraíba surge como um espaço voltado à valorização da memória, da ancestralidade e dos direitos humanos.
O projeto nasce a partir de um espaço museológico construído em diálogo direto com as próprias comunidades e fundamentado na valorização da ancestralidade, da resistência e da diversidade cultural. O trabalho é realizado com apoio da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba (Secties), da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq-PB) e da Secretaria da Mulher e da Diversidade Humana (SEMDH).
“O Museu da Diáspora representa um projeto estratégico porque une ciência, memória, direitos humanos e inclusão social. Quando a Secties apoia iniciativas como essa, também está fortalecendo a produção de conhecimento a partir das experiências e saberes dos povos negros, indígenas e das comunidades tradicionais. É um trabalho que ajuda a construir uma compreensão mais plural, democrática e humana da formação da nossa sociedade”, ressaltou o secretário da Secties, Claudio Furtado.
A iniciativa é desenvolvida a partir da pesquisa “Territorialidades, Tradicionalidades e Diversidades das Etnias Paraibanas”, coordenada pelo professor Estêvão Palitot, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba.
O espaço do museu será construído no Casarão do Capitão Mor, no Centro de João Pessoa, e pretende se consolidar como um ambiente de reflexão crítica sobre o passado e o presente brasileiro, abordando desde os impactos da escravidão até os processos de resistência, sobrevivência e recriação da vida protagonizados por diferentes povos ao longo da história. “O visitante não vai encontrar apenas uma narrativa de sofrimento. O museu também contará histórias de resistência, de luta, de criatividade, de sobrevivência e de vitórias históricas. É importante reconhecer o protagonismo desses povos na construção da sociedade brasileira”, afirmou Estêvão Palitot.
Segundo o antropólogo, o espaço foi concebido para provocar uma experiência sensorial e reflexiva capaz de envolver emocionalmente o público. “A proposta é que o visitante saia encantado e transformado. Encantado pela linguagem artística, museológica e conceitual apresentada, mas principalmente transformado pelo contato com as histórias e experiências dos povos negros, indígenas, ciganos e das comunidades tradicionais da Paraíba.”
O museu utilizará diferentes estratégias museológicas e tecnológicas para construir essa experiência. Entre elas estão recursos audiovisuais, ambientações imersivas, organização espacial interativa e múltiplas linguagens artísticas. “Nós queremos construir uma experiência sinestésica de conhecimento. Não apenas uma experiência baseada na informação, mas também no envolvimento emocional e sensorial do visitante com cada ambiente do museu”, explica.
Apoio Secties
Ao todo, a Secties investiu aproximadamente R$ 1 milhão no museu. De acordo com Estêvão Palitot, a participação da Secties tem sido decisiva para a viabilização do museu em diferentes dimensões. “A Secties tem sido a agência de fomento fundamental para a consecução desse museu, junto com a Secretaria da Mulher e da Diversidade Humana. O apoio não acontece apenas por meio do financiamento das bolsas de pesquisa, mas também garantindo a infraestrutura necessária para reunir o material de pesquisa, organizar o acervo museológico, sistematizar conteúdos e preparar a exposição”, destaca.
O suporte institucional envolve tanto o financiamento científico quanto a estrutura operacional necessária para consolidar a proposta museológica. Para Palitot, uma das contribuições mais importantes da secretaria está no reconhecimento de que a produção de conhecimento não acontece apenas nos espaços acadêmicos convencionais. “As tecnologias sociais produzidas pelos povos negros, indígenas e pelas comunidades tradicionais são fundamentais para garantir a continuidade da vida. Precisamos ampliar o conceito de tecnologia para além das máquinas e dos dispositivos técnicos”, explica.
Museologia como ferramenta de transformação social
A proposta do museu é apresentar a diáspora africana não apenas pelo trauma da escravidão, mas também pela potência histórica, cultural e política dos povos negros e tradicionais na construção do Brasil. Um dos diferenciais do projeto é o processo colaborativo de construção das narrativas expositivas. Em vez de apenas retratar as comunidades a partir de um olhar externo, o museu vem sendo pensado em diálogo direto com os próprios grupos representados.
“As comunidades têm discutido conosco o que deve ser evidenciado, o que deve ser mostrado e como querem ser representadas. Isso é extremamente importante porque rompe com práticas históricas de silenciamento e de representação feita sem a participação dos próprios sujeitos”, afirma o pesquisador.
A proposta busca respeitar as especificidades culturais, espirituais e territoriais de cada povo, evitando abordagens homogêneas sobre experiências historicamente diversas.
“O museu pretende traduzir uma experiência vasta, diversa e muitas vezes dolorosa a partir dos elementos culturais, artísticos e tradicionais dessas comunidades. É uma construção feita com elas, não apenas sobre elas”, reforça.
Mais do que preservar memórias, o espaço pretende estimular novas formas de compreender a própria sociedade brasileira. “O papel do museu é educativo. É trazer essas histórias para que possamos recontá-las de maneira mais crítica, plural e humana. Só assim conseguimos construir uma sociedade verdadeiramente democrática e consciente da sua própria formação histórica”, conclui.


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