
Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo demonstrar que o imperialismo norte-americano é um “tigre de papel” porque com o apoio de Israel não conseguiu alcançar os objetivos políticos e militares pretendidos na guerra contra o Irã. A expressão “tigre de papel” foi popularizada por Mao Tsé-Tung, grande líder da Revolução Chinesa ocorrida em 1949, para descrever algo que parece poderoso, mas é estruturalmente frágil. Mao Tsé-Tung a usou especificamente para criticar o imperialismo dos Estados Unidos, afirmando que, apesar da aparência de força (armas, tecnologia, bombas atômicas), haveria fraquezas internas, limites estratégicos e propensas ao colapso, semelhante a um tigre feito de papel que não resiste ao vento. Este é o caso do imperialismo norte-americano sob o governo Trump dos Estados Unidos que fracassou na tentativa de mudar o regime iraniano e obter a rendição incondicional do governo do Irã. A metodologia utilizada na elaboração deste artigo consistiu em apresentar os objetivos estratégicos dos Estados Unidos e de Israel, os objetivos estratégicos do Irã, os resultados da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã até o presente momento e as conclusões.
1. Objetivos estratégicos dos Estados Unidos e de Israel
Os objetivos estratégicos dos Estados Unidos e Israel consistem em: 1) promover a mudança do regime iraniano com o assassinato de suas principais lideranças e o incentivo à revolta de segmentos do povo iraniano contra o regime; 2) destruir a infraestrutura econômica e militar do Irã com bombardeios contínuos sobre alvos militares e econômicos; e, 3) obter a rendição incondicional do Irã após os assassinatos de suas principais lideranças e a destruição da infraestrutura econômica e militar do Irã.
2. Objetivos estratégicos do Irã
Os objetivos estratégicos do Irã consistem em: 1) realizar ataques generalizados contra Israel e bases militares e empresas dos Estados Unidos situadas nos países árabes aliados do imperialismo norte-americano; 2) fazer com que os países árabes aliados dos Estados Unidos, que sofrem bombardeios iranianos contra bases militares norte-americanas e empresas dos Estados Unidos que lá operam, pressionem o governo norte-americano para parar sua agressão contra o Irã; e, 3) fechar o Estreito de Ormuz à passagem do petróleo, gás natural liquefeito e outros produtos apenas para os países inimigos do Irã a fim de provocar um impacto econômico global negativo, em especial nos Estados Unidos.
3. Resultados da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã
Pode-se afirmar que os Estados Unidos e Israel fracassaram na consecução de seus objetivos estratégicos porque o regime do Irã não mudou, houve destruição de grande parte da infraestrutura econômica do Irã, mas não do poder dissuasório militar do Irã, e o Irã não se rendeu aos Estados Unidos e a Israel que era o principal objetivo desses países. Sobre a mudança de regime no Irã, trata-se de um objetivo de difícil realização, especialmente após as experiências fracassadas dos Estados Unidos como as do Iraque e do Afeganistão. No caso do Irã, não há possibilidade de mudança do regime devido à existência de forte coesão do poder estatal, o apoio da grande maioria da população ao regime iraniano na luta contra o inimigo externo, a capacidade militar descentralizada e a existência de rede de aliados regionais como o Hezbollah no Líbano e Houthis no Iêmen. Esses fatores tornam ineficaz intervenções militares dos Estados Unidos e de Israel no Irã. A rendição incondicional do Irã não aconteceu mesmo com os bombardeios incessantes de norte-americanos e israelenses sobre a infraestrutura econômica e militar e sobre a população civil iraniana. Houve um erro de cálculo do imperialismo norte-americano porque nenhuma grande potência hoje espera realisticamente esse tipo de desfecho contra um país como o Irã sem o desencadear de uma guerra total que teria custos globais imensos.
O Irã, por sua vez, conquistou a maior parte de seus objetivos estratégicos porque realizou ataques generalizados contra Israel e bases militares e empresas dos Estados Unidos situados nos países árabes aliados do imperialismo norte-americano e fechou o Estreito de Ormuz apenas para os países inimigos do Irã que resultou em um impacto econômico global negativo, em especial nos Estados Unidos. Ao fechar o Estreito de Ormuz para os países seus inimigos, o Irã se utilizou de um dos pontos mais sensíveis economicamente do planeta como arma de guerra porque seu fechamento total para os países inimigos do Irã provocou um impacto imediato no aumento do preço global do petróleo. Não foi alcançado, entretanto, o objetivo de fazer com que os países árabes aliados dos Estados Unidos, que sofrem bombardeios iranianos contra bases militares norte-americanas e empresas dos Estados Unidos que lá operam, pressionassem o governo norte-americano para parar sua agressão contra o Irã porque os países árabes do Golfo, embora sofram prejuízos econômicos e riscos de segurança, não forçam o fim da guerra dos Estados Unidos no Irã principalmente por dependerem da proteção militar americana haja vista que os sistemas de defesa dos Estados Unidos interceptam mísseis iranianos, e o Irã é visto por eles como um inimigo comum (xiita) em meio a países árabes sunitas.
Não resta dúvidas de que o Irã alcançou seu maior objetivo estratégico porque seu principal instrumento estratégico não é a superioridade militar convencional, mas o controle indireto de fluxos econômicos globais, especialmente via Estreito de Ormuz onde cerca de 20% do petróleo mundial transita por essa rota e sua interrupção parcial já elevou drasticamente os preços do petróleo e do gás natural liquefeito, entre outros produtos. O Irã possui ainda mais de 400 kg de urânio enriquecido, presumivelmente escondidos no subsolo. O regime iraniano apesar de ter perdido dezenas de suas figuras mais importantes em ataques aéreos, parece estar entrincheirado. O Irã conseguiu, com meios relativamente limitados, atacar navios e rotas comerciais, elevar custos de seguro marítimo e gerar instabilidade nos mercados mundiais. Esta estratégia iraniana transformou a economia em arma de guerra. O impacto econômico global com o fechamento do Estreito de Ormuz gerou choques econômicos, como é o caso da elevação dos preços do petróleo, o comprometimento das cadeias logísticas globais e o aumento das taxas de inflação em todo o mundo. Isso pode contribuir para um cenário de estagflação (baixo crescimento + inflação alta) da economia mundial, especialmente das economias nacionais já fragilizadas.
Em síntese, o fechamento do Estreito de Ormuz provocou um choque energético devido à forte elevação do preço do petróleo, que ultrapassou US$ 100 por barril após a escalada militar, aumento da inflação global, elevação de custos logísticos e pressão sobre políticas monetárias dos governos. Além disso, o fechamento do Estreito de Ormuz produziu efeitos em cadeias produtivas de fertilizantes com risco à queda na produção de alimentos, de plásticos e insumos industriais com o risco de interrupções produtivas e de chips e tecnologia com a escassez de insumos críticos. A economia global sofre um efeito cascata sistêmico. Há, também, o risco de estagflação com a combinação de inflação elevada (choque de custos) e desaceleração econômica mundial. Diante do fracasso na consecução de seus objetivos estratégicos na guerra contra o Irã, o Presidente Donald Trump, em desespero, ameaçou que os Estados Unidos poderiam destruir o Irã "em uma noite" com bombardeios incessantes e que "toda civilização iraniana morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada" caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz. Para evitar a consumação deste crime de guerra por Donald Trump, os governantes do Paquistão, Egito e Turquia, que tentam mediar a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, elaboraram uma proposta que pede um cessar-fogo temporário de 45 dias e a reabertura do Estreito de Ormuz. Esta proposta dessas nações foi enviada ao ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e a Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos.
Os governos do Irã e dos Estados Unidos concordaram com um cessar-fogo condicional de duas semanas durante o qual o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz será permitido pelo Irã. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse no dia 07/04 que concordou em suspender ataques ao Irã por duas semanas. O anúncio foi feito menos de duas horas antes do fim do ultimato que ele havia estabelecido para que o país do Oriente Médio fechasse um acordo e reabrisse o Estreito de Ormuz. O governo do Irã concordou em permitir a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz por duas semanas, com o trânsito coordenado pelas forças militares iranianas. O Irã apresentou também um plano de 10 pontos, que inclui, entre outras medidas, a cessação completa da guerra. O plano de 10 pontos do governo do Irã está descrito a seguir:
· Garantia de que não haverá novos ataques contra o Irã;
· Manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz;
· Reconhecimento do direito ao enriquecimento de urânio;
· Suspensão de todas as sanções, incluindo primárias e secundárias;
· Encerramento de resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA);
· Pagamento de compensações ao Irã;
· Retirada das forças de combate dos Estados Unidos da região;
· Fim das ações militares em outras frentes, incluindo contra grupos aliados do Irã no Líbano;
· Liberação de ativos iranianos bloqueados no exterior;
· Aprovação de todos os pontos em uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU.
O Paquistão, que tem intermediado as negociações, convidou as delegações dos países envolvidos no conflito para se encontrarem em Islamabad, capital do Paquistão, na sexta-feira (10/04) "para novas negociações em direção a um acordo conclusivo que resolva todas as disputas". Segundo o primeiro-ministro paquistanês, o cessar-fogo também passará a valer no L´bano, onde Israel está em combate com o Hezbollah, partido político islâmico xiita e grupo paramilitar apoiado pelo Irã. O governo de Israel tem afirmado que não deixará o Líbano até que a ameaça representada pelo Hezbollah seja eliminada. O fato de o Líbano ser considerado por Israel como fora do acordo é um problema que ameaça o cessar fogo negociado entre os Estados Unidos e o Irã. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou ontem (08/04) que “os termos do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos são claros e explícitos: os Estados Unidos devem escolher — cessar-fogo ou guerra contínua por meio de Israel. Não podem ter ambos”. “A decisão está com os Estados Unidos, e o mundo está observando se eles cumprirão seus compromissos”, acrescentou o chanceler. A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã alertou que responderá se as agressões contra o Líbano não cessarem imediatamente.
A maneira como o cessar-fogo foi alcançado, mediado pelo Paquistão entre os Estados Unidos e o Irã, com Israel excluído, deixou clara a natureza da relação subordinada de Israel em relação aos Estados Unidos. Israel não participará das negociações que devem começar em Islamabad em 10 de abril, nas quais os Estados Unidos e o Irã tentarão chegar a algum tipo de acordo permanente. A segurança futura de Israel está à mercê dos caprichos de Trump. Se Trump forçar Israel a suspender também sua campanha no Líbano, isso poderá sinalizar o início de uma ruptura entre os Estados Unidos e Israel. Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, ficaria feliz em sabotar o cessar-fogo, mas acima de tudo quer evitar qualquer desentendimento aberto com Trump. Trump parece determinado a encerrar a guerra no Irã diante do fracasso na consecução de seus objetivos estratégicos, mesmo que o regime iraniano permaneça no poder e mantenha sua capacidade de atacar Israel com mísseis e drones. Pode até manter seu material nuclear, embora as autoridades americanas insistam que não.
4. Conclusões
Pelo exposto, a não consecução dos objetivos estratégicos pelos Estados Unidos e por Israel mostra que o imperialismo norte-americano é um “tigre de papel” porque apesar de seu imenso poder militar não conseguiu mudar o regime iraniano, obter a rendição dos governantes do Irã, impedir o bombardeio pelo Irã de suas bases militares e outros alvos em países árabes e impedir o fechamento do Estreito de Ormuz pelo governo iraniano. O Irã, mesmo com poderio militar inferior, conseguiu neutralizar até agora o imperialismo norte-americano utilizando guerra assimétrica e dissuasão regional. Apesar da superioridade militar dos Estados Unidos e de Israel, o Irã tem demonstrado capacidade de resistência baseada em guerra assimétrica (uso de táticas não convencionais para explorar vulnerabilidades dos oponentes mais fortes), dissuasão regional (uso de capacidades militares ou estratégicas para impedir agressões de potências externas) e uso estratégico de gargalos econômicos globais (controle de rotas marítimas como Ormuz e comprometimento de cadeias de suprimentos cruciais). A escalada militar recente no Oriente Médio reconfigura o equilíbrio de poder regional e global. A guerra no Irã demonstra que a superioridade militar não garante vitória política e militar porque países de menor poder militar como o Irã podem impor custos globais significativos. Além disso, a economia tornou-se arma central de guerra.
A célebre frase de Mao Tsé-Tung, "todos os reacionários são tigres de papel" (incluindo o imperialismo dos Estados Unidos), define inimigos que parecem poderosos superficialmente, mas são frágeis e incapazes de resistirem à força dos povos a longo prazo. A metáfora busca desmistificar o poder do imperialismo norte-americano, encorajando os povos do mundo inteiro à luta, pois, estrategicamente, o imperialismo é vulnerável, embora taticamente possam ser agressivos como é o caso do imperialismo norte-americano sob Trump. Para Mao Tsé-Tung, o “tigre de papel” representa forças imperialistas ou reacionárias que, apesar da força aparente (armas, tecnologia, bombas atômicas), carecem de apoio popular, tornando-se fracas "por dentro" e propensas ao colapso, semelhante a um tigre feito de papel que não resiste ao vento. Este é o caso do governo Trump nos Estados Unidos. O governo de Donald Trump (iniciado em janeiro de 2025) tem sido descrito por muitos analistas como uma nova era de "imperialismo global" ou "neocolonialismo", marcado por um nacionalismo agressivo que visa expandir o poder dos Estados Unidos via controle territorial, econômico e ameaças militares. A retórica de Trump foca na competição com a China e na imposição dos interesses norte-americanos, incluindo o desejo de comprar ou se apossar da Groenlândia, a utilização da Doutrina Monroe (América para os Estados Unidos) visando o controle dos países latino-americanos a começar pelo canal do Panamá, Venezuela e Cuba e intervenção militar no Irã para exercer o controle do Oriente Médio. A guerra no Irã evidencia uma transformação estrutural do sistema internacional devido ao fracasso relativo de estratégias de coerção direta, à ascensão da guerra assimétrica e econômica e a vulnerabilidade da economia global interdependente.
Para assistir o vídeo, acessar o website https://www.youtube.
Para ler o artigo em Português, Inglês e Francês, acessar os websites do Academia.edu <https://www.academia.edu/
IMPERIALISMO O FRACASSO DO BELICISMO DOS ESTADOS UNIDOS CONTRA O IRÃ E O DECLÍNIO DO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO.
DEPENDÊNCIA A DESESTABILIZAÇÃO DA ECONOMIA MUNDIAL EXIGE O FIM DA DEPENDÊNCIA DO BRASIL DE PAÍSES ESTRANGEIROS.
Opinião TRUMP, AGENTE DO CAOS E DO MAL.
ORIENTE MÉDIO A GUERRA DOS ESTADOS UNIDOS E ISRAEL CONTRA O IRÃ E SUAS CONSEQUÊNCIAS NO ORIENTE MÉDIO E GLOBAIS.
IMPACTOS A NANOTECNOLOGIA, SUAS PRINCIPAIS APLICAÇÕES E IMPACTOS NA SOCIEDADE
IMPERIALISMO A AÇÃO MILITAR DOS ESTADOS UNIDOS CONTRA O IRÃ MOSTRA O CARÁTER NEFASTO DO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO E O FIM DO DIREITO INTERNACIONAL.
Mín. 26° Máx. 27°