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Economia TARIFAÇO

AS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS DO TARIFAÇO DE TRUMP CONTRA O BRASIL E AS ESTRATÉGIAS PARA SUA SUPERAÇÃO.

O tarifaço de 50% de Trump contra o Brasil representa um duro golpe para o comércio exterior do Brasil.

18/07/2025 às 00h59
Por: Colunista Fonte: Fernando Alcoforado*
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Foto: Divulgação / Autor / terrestre.jpg
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Este artigo tem por objetivo apresentar as consequências negativas sobre a economia brasileira do tarifaço de Trump contra o Brasil e as estratégias necessárias visando sua superação. Muito provavelmente, a tentativa de reduzir o tarifaço de Trump contra o Brasil não terá sucesso porque o governo brasileiro não aceitará a chantagem do governo dos Estados Unidos de negociar o fim do tarifaço pelo fim do processo contra Jair Bolsonaro afim de livrá-lo da inevitável prisão pela tentativa de golpe de estado durante seu mandato presidencial. Isto significa dizer que o governo brasileiro terá que destinar para novos mercados e para o mercado interno o total ou parte das exportações antes destinadas aos Estados Unidos. O fato é que o tarifaço de Trump tem potencial para provocar queda de bilhões de dólares nas exportações brasileiras haja vista que o mercado norte-americano é o segundo principal destino das vendas externas do Brasil, atrás apenas da China, com o petróleo tendo maior participação em receitas nas vendas para os Estados Unidos. Além disso, o mercado dos Estados Unidos está entre os mais relevantes para bens fabricados brasileiros, de maior valor agregado, como aeronaves, autopeças e máquinas, fato este que afetará enormemente a indústria nacional.

O tarifaço de 50% de Trump contra o Brasil representa um duro golpe para o comércio exterior do Brasil. Se entrar em vigor em 1º de agosto, a medida poderá reduzir significativamente a exportação de diversos setores econômicos do País. Os Estados Unidos representam um mercado estratégico para a venda de bens diversificados e de maior valor agregado, como aviões executivos e eletroeletrônicos. Só em 2024, foram vendidos US$ 40,4 bilhões em produtos para o mercado norte-americano , sendo 12% do total exportado pelo Brasil no ano. Na prática, uma tarifa de 50% tornaria inviável a compra de diversos itens brasileiros por empresas sediadas nos Estados Unidos, já que o custo de importação ficaria muito mais alto. Produtos como semicondutores, minerais críticos e produtos farmacêuticos devem seguir isentos do tarifaço de Trump. Esta isenção também se estenderia ao petróleo e seus derivados, ponto que ainda é dúvida para o setor. Se o Brasil e os Estados Unidos não chegarem a um acordo até a data prevista, setores relevantes da economia brasileira terão de buscar novos mercados para escoar seus produtos, o que, ainda assim, pode não ser suficiente para compensar as perdas. Alguns países têm condições de absorver parcialmente o excedente de produtos brasileiros. Esse redirecionamento é possível, mas leva tempo e requer negociações de alto nível.

Quais são os produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos? Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que petróleo, ferro, aço, café e carne estão entre os principais produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Os produtos mais vendidos de janeiro a junho de 2025 foram óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos, produtos semimanufaturados de ferro ou aço (baixo carbono), café não torrado não descafeinado, carnes bovinas desossadas e congeladas, ferro-gusa (ferro fundido bruto não ligado), celulose (pasta química de madeira não conífera) e óleos combustíveis e preparações de petróleo.  Há também produtos que, embora não estejam entre os mais exportados, têm grande importância para os mercados brasileiro e norte-americano , como é o caso do suco de laranja que representou 41,7% de todas as exportações brasileiras do produto destinadas aos Estados Unidos na safra 2024/25, encerrada em junho. Aeronaves também se enquadram nessa categoria com a Embraer com 63% das exportações brasileiras do setor que tiveram como destino os Estados Unidos.

O tarifaço de Trump fará com que setores econômicos como café (16,7% das exportações brasileiras para os Estados Unidos), carne bovina (segundo maior mercado, com 532 mil toneladas em 2024), suco de laranja (41,7% das exportações do setor), aeronaves (63% das exportações da Embraer) e petróleo (US$ 5,8 bilhões em 2024) sofram bastante com a perda de competitividade devido a seu encarecimento provocado pelo tarifaço. O tarifaço de 50% imposto pelo governo Trump sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos terão, portanto, impactos significativos na economia do Brasil, afetando vários de seus setores-chave, sua balança comercial e as taxas de inflação. Considerando a hipótese de que não haja acordo entre Brasil e Estados Unidos quanto às tarifas, haverá redução das exportações com a perda do mercado dos Estados Unidos. Café e carne bovina do Brasil poderão ter dificuldade de encontrar novos mercados, fato este que poderá levar a quedas de preços no mercado interno. A Embraer e fabricantes de autopeças podem perder contratos nos Estados Unidos, afetando ambas as cadeias produtivas. O etanol brasileiro, mais sustentável do que o norte-americano, perderá competitividade nos Estados Unidos.

A solução para a perda do mercado dos Estados Unidos será a busca de novos mercados para exportação.  É mais fácil redirecionar para novos mercados no caso de commodities como café, suco de laranja e açúcar já que possuem preços definidos internacionalmente. No entanto, empresas brasileiras que exportam produtos de maior valor agregado devem enfrentar mais dificuldades. É o caso da fabricante brasileira de aeronaves, a Embraer. Países como China, Índia, Vietnã, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, México e nações europeias têm potencial para absorver parte da produção brasileira. Mas nenhum deles tem, isoladamente, capacidade para substituir o mercado norte-americano de forma equivalente. Muitas empresas do Brasil terão que reduzir sua produção, cortar empregos e buscar mercados alternativos, como Ásia e União Europeia, mas nem todos os produtos terão substitutos rápidos. A Ásia pode se tornar o principal destino alternativo para produtos como petróleocelulose carne bovina. A China, embora seja o maior parceiro comercial do Brasil, enfrenta desaceleração no consumo interno e restrições em setores como aço e petróleo, o que limita sua capacidade de absorção total. Setores como o do aço, já taxado em 50% antes e etanol que perderá espaço nos Estados Unidos enfrentarão dificuldades adicionais. O Brasil pode acelerar a diversificação de parcerias com os países do BRICS.

Além da perda de mercado dos Estados Unidos, o Brasil sofrerá impactos financeiros e cambiais com a desvalorização do real e o aumento da cotação do dólar que pressionará a inflação no País e aumentará os custos de importação. O Banco Central deverá manter a taxa básica de juros da economia (Selic) em nível elevado (atualmente em 15%) para conter a inflação, o que desacelerará o crescimento econômico do Brasil. Poderá haver fuga de investimentos do Brasil devido à incerteza dos rumos de sua economia que pode reduzir a confiança de investidores estrangeiros dos quais o Brasil é dependente. O governo brasileiro planeja retaliações via Lei de Reciprocidade Econômica que possibilita sobretaxar produtos dos Estados Unidos e suspender patentes. Embora o impacto macroeconômico do tarifaço seja pequeno (0,5% do PIB, segundo estimativas), os efeitos setoriais e políticos são profundos. O tarifaço de Trump reforça a necessidade de o Brasil reduzir sua dependência externa de mercados para exportação dando prioridade ao desenvolvimento do mercado interno que é significativamente maior do que seu mercado exportador.  

Embora o Brasil seja um grande exportador de commodities agrícolas, como soja e carne, e também possua um setor industrial diversificado, o mercado interno consome a maior parte da produção nacional. A economia brasileira é impulsionada principalmente pela demanda doméstica, com o mercado externo desempenhando um papel importante, mas complementar. O mercado interno brasileiro é vasto e diversificado, com uma população de mais de 200 milhões de pessoas e uma classe média em crescimento. Isso gera uma demanda robusta por uma ampla gama de produtos e serviços, desde alimentos e bens de consumo até automóveis e tecnologia. O Brasil é um dos maiores exportadores de commodities do mundo, com destaque para produtos agrícolas e minerais. A corrente de comércio exterior (soma de exportações e importações) representa cerca de 23% do PIB brasileiro. As exportações são importantes para o Brasil, porque geram divisas, contribuem para o crescimento econômico e promovem a diversificação da produção nacional, mas aumenta o risco da economia brasileira ficar sujeita a crises econômicas externas e a impactos como o do tarifaço de Trump. No momento atual, a estratégia recomendável para o Brasil consistiria em compensar a perda do mercado dos Estados Unidos com a abertura de novos mercados, o aprofundamento das relações econômicas com a China, principal parceiro comercial do Brasil no mercado internacional, e o fortalecimento do mercado interno. 

Além da ação imediata de buscar novos mercados para compensar a perda do mercado dos Estados Unidos, a estratégia correta do governo brasileiro deveria ser o de aprofundar as relações econômicas com a China, principal parceiro comercial do Brasil no mercado internacional, e priorizar o desenvolvimento do mercado interno. A assinatura de 37 acordos comerciais no dia 20/11/2024 entre o Brasil e a China é altamente importante porque possibilitará reativar a economia brasileira alavancando o desenvolvimento do mercado interno do Brasil. Este acordo comercial contribuirá para a participação chinesa nos investimentos do governo Lula em obras do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na construção e reforma das rotas de integração regional na América do Sul, nos aportes em projetos de transição energética e na modernização do parque industrial brasileiro alicerçando a cooperação entre o Brasil e a China pelos próximos 50 anos em áreas como infraestrutura sustentável, transição energética, inteligência artificial, economia digital, saúde e aeroespacial, estabelecendo  sinergias entre as estratégias brasileiras de desenvolvimento, como a NIB (Nova Indústria Brasil), o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o Programa Rotas da Integração Sul-Americana, o Plano de Transformação Ecológica, a Iniciativa Cinturão e a nova Rota da Seda. Para que tudo isto seja realizado, é preciso que haja o fortalecimento do papel do Estado brasileiro para que o Brasil possa enfrentar os desafios da era contemporânea e promover seu desenvolvimento econômico e social.

Para assistir o vídeo, acessar o website https://www.youtube.com/watch?v=SkaEW8xoXDY

Para ler o artigo de 5 páginas em Português, Inglês e Francês, acessar os websites do Academia.edu <https://www.academia.edu/142918717/AS_CONSEQU%C3%8ANCIAS_NEGATIVAS_DO_TARIFA%C3%87O_DE_TRUMP_CONTRA_O_BRASIL_E_AS_ESTRAT%C3%89GIAS_PARA_SUA_SUPERA%C3%87%C3%83O>, <https://www.academia.edu/142918860/THE_NEGATIVE_CONSEQUENCES_OF_TRUMPS_TARIFF_HIGH_ON_BRAZIL_AND_STRATEGIES_TO_OVERCOME_THEM> e <https://www.academia.edu/142919020/LES_CONS%C3%89QUENCES_N%C3%89GATIVES_DES_TARIFS_DOUANIERS_%C3%89LEV%C3%89S_DE_TRUMP_SUR_LE_BR%C3%89SIL_ET_LES_STRAT%C3%89GIES_POUR_LES_SURMONTER>, do SlideShare <https://pt.slideshare.net/slideshow/as-consequencias-negativas-do-tarifaco-de-trump-contra-o-brasil-e-as-estrategias-para-sua-superacao-pdf/281672896>, <https://pt.slideshare.net/slideshow/the-negative-consequences-of-trump-s-tariff-high-on-brazil-and-strategies-to-overcome-them-pdf/281672999> e <https://pt.slideshare.net/slideshow/les-consequences-negatives-des-tarifs-douaniers-eleves-de-trump-sur-le-bresil-et-les-strategies-pour-les-surmonter-pdf/281673060> e do Linkedin <https://www.linkedin.com/pulse/consequ%C3%AAncias-negativas-do-tarifa%C3%A7o-de-trump-contra-o-alcoforado-86bgf/?trackingId=9xbd6UHPjtXKLJrGsUUFvg%3D%3D>, <https://www.linkedin.com/pulse/negative-consequences-trumps-tariff-high-brazil-them-alcoforado-t83hf/?trackingId=NfqaASLWyaQijNx0nD5qEg%3D%3D> e <https://www.linkedin.com/pulse/les-cons%C3%A9quences-n%C3%A9gatives-des-tarifs-douaniers-de-trump-alcoforado-m5b5f/?trackingId=2fyOlhDIs%2BMMzL8dq4Ko0Q%3D%3D>.

  • Fernando Alcoforado, awarded the medal of Engineering Merit of the CONFEA / CREA System, member of the SBPC- Brazilian Society for the Progress of Science and IPB- Polytechnic Institute of Bahia, engineer from the UFBA Polytechnic School and doctor in Territorial Planning and Regional Development from the University of Barcelona, college professor (Engineering, Economics and Administration) and consultant in the areas of strategic planning, business planning, regional planning, urban planning and energy systems, was Advisor to the Vice President of Engineering and Technology at LIGHT S.A. Electric power distribution company from Rio de Janeiro, Strategic Planning Coordinator of CEPED- Bahia Research and Development Center, Undersecretary of Energy of the State of Bahia, Secretary of Planning of Salvador, is the author of the books Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Doctoral thesis. Barcelona University, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), a chapter in the book Flood Handbook (CRC Press,  Boca Raton, Florida United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023), A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023), Como construir um mundo de paz, progresso e felicidade para toda a humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2024) and How to build a world of peace, progress and happiness for all humanity (Editora CRV, Curitiba, 2024).
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Fernando Alcoforado
Sobre Fernando Alcoforado, 82, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona. Professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997),De Collor a FHC — O Brasil.
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