
Atendimento individualizado multiprofissional garante diagnóstico de autismo em crianças menores de seis anos
A agricultora Maria das Candeias Justino, de 31 anos, é do interior do Estado, do município de Iracema, a 290 km de distância da capital. Ela e o marido enfrentaram a viagem longa para cuidar da saúde do filho de dois anos de idade. Ele foi avaliado por especialistas do Núcleo de Atenção à Infância e Adolescência (Naia) do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).
“Sabemos que esse ambulatório é referência para transtornos do desenvolvimento, então valeu a pena a viagem para buscar esse atendimento. Meu filho é muito agitado, hiperativo, possui sintomas de TDAH e autismo. Hoje, tivemos a oportunidade de realizar nossa primeira consulta e daqui a trinta dias saberemos o diagnóstico. Seja o que for, estamos dispostos a realizar o tratamento para que ele possa ter um futuro melhor”, declara Maria, com um olhar cheio de esperança.
O Núcleo de Atenção ao TEA na Primeira Infância (Natep), ambulatório do Naia, iniciou suas atividades em agosto deste ano e foi criado com o objetivo de atender à grande demanda de crianças menores de seis anos com suspeita de autismo. “Percebemos que existiam muitas crianças pequenas, na faixa etária entre um ano e meio a seis anos de idade, com suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e desenvolvimento infantil na fila de atendimento. Pensando nisso, criamos esse ambulatório, aumentando a oferta de vagas, atendendo principalmente os moradores do interior do estado do Ceará”, pontua o médico pediatra e coordenador do Naia, Jorge Eduardo Carvalho de Almeida.
O médico observa que, atualmente, as famílias estão mais conscientes sobre a importância de buscar um diagnóstico em relação aos transtornos mentais e, mais especificamente, às dificuldades do desenvolvimento infantil. “Antigamente, era comum que os pais esperassem os filhos completarem sete anos de idade para ter um diagnóstico de algo suspeito na saúde mental. Hoje em dia, as famílias estão buscando cada vez mais cedo o diagnóstico e isso é ótimo porque teremos resultados melhores. Por volta de dois a três anos de idade, o cérebro tem uma plasticidade muito elevada, então a intervenção que você fizer, o estímulo que você der nessa idade o efeito será mais eficiente ao longo da vida dessa pessoa”, frisa o pediatra.
E esse é o propósito do novo ambulatório do Naia. “Atendemos crianças de um ano e meio até seis anos incompletos. Nessa faixa etária existe o período de desenvolvimento cerebral bastante complexo e intenso. Aqui nesse ambulatório tentamos detectar precocemente, estimular essas crianças e orientar os pais sobre esse período tão importante pra vida das crianças que é a primeira infância”, explica a psiquiatra Kedma Barros.
Com uma equipe formada por psiquiatra, psicóloga, nutricionista e farmacêuticos clínicos, os atendimentos no Natep são individualizados. Cerca de quatro crianças são atendidas por turno.
“Estudamos caso por caso, não existe uma receita pronta, fazemos uma investigação diagnóstica porque as crianças que chegam aqui apresentam alterações comportamentais e do marco do desenvolvimento. Cada família, juntamente com a criança, passa por uma consulta completa, na qual precisamos entender desde o período gestacional, condições de parto, pré-natal, identificando fatores de risco, o cotidiano e a rotina na casa para ajudar a mãe a avaliar se é preciso mudar algo no ambiente. Tudo isso vai nos ajudar a construir o processo terapêutico individualizado”, afirma a psiquiatra especializada na infância e adolescência.
De acordo com a especialista, alguns sinais são bem característicos, como atraso ou regressão de habilidades. “Se a criança conseguia falar algumas palavras e, de repente, perde esse marco estabelecido ou quando não consegue atingir o esperado é um sinal que merece atenção”, afirma.
Outro sinal bem comum é a dificuldade de sustentar o olhar ou fazer um contato com outras pessoas. “O não atingimento das habilidades sociais, de comunicação, funções motoras e a regressão dessas habilidades são possibilidades de algum transtorno do neurodesenvolvimento, sendo necessária avaliação especializada”, orienta a psiquiatra.
O apoio psicológico é fundamental. Neste ambulatório, o serviço de psicologia atua junto aos pacientes e familiares. “Na psicoterapia eu avalio os comportamentos da criança, orientando os pais nesse processo de desenvolvimento das capacidades e habilidades dos filhos a partir dos estímulos para que a criança tenha autonomia com menos suporte possível. Trabalhamos interação através do lúdico e da musicalidade com avaliação do comprometimento na fala, na comunicação e evolução positiva de cada uma delas”, explica a psicóloga Rita Rodrigues.
Os pais das crianças atendidas pelo Natep também contam com um acompanhamento de farmacêuticos clínicos, que analisam os medicamentos prescritos pelos médicos, avaliam as possíveis reações adversas e orientam quanto a possíveis suplementos, chás e interações medicamentosas.
O acesso ao ambulatório é feito através da Central de Regulação do Estado.
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