

Sara retornou aos trabalhos como enfermeira do Centro de Imagens e na Unidade de Cuidados Avançados 15 dias após sua cirurgia
O diagnóstico tardio da endometriose pode ocasionar graves consequências, incluindo a infertilidade e o comprometimento de órgãos importantes. No Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar (HMJMA), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), há um ambulatório especializado para tratamento da doença, e segundo o ginecologista obstetra, Lucas Nogueira, tem sido cada vez mais comum a presença de pacientes jovens com um alto comprometimento.
“A gente costuma receber as pacientes da rede de alta complexidade, com idades entre 30 e 35 anos de idade, já com a doença bem avançada. Muitas delas já não têm mais perspectivas de ter filhos devido às complicações e que tiveram que tirar o útero, outras que retiraram os ovários porque a doença já tinha afetado de forma muito grave e agora vão ter que repor os hormônios, além de não poder mais engravidar, algumas com comprometimento nos rins, que chegaram até a perder o órgão”, conta Nogueira.
O médico alerta que é uma doença com consequências graves, se não tratada, e, por isso, é importantíssimo ter atenção aos sinais. “As dores vão progredindo, assim como a inflamação. E as mudanças devem ser observadas, como: dor ao menstruar (cólicas), dor ao ter relação sexual, dor ao defecar ou ao urinar, dor pélvica fora do ciclo menstrual, dor no final da coluna ou na região lombar e a dor de não poder engravidar”, explica.
Há pacientes, que mesmo percebendo a escalada da dor e até o surgimento de novos sintomas, evitam buscar ajuda por medo, falta de conhecimento e até o costume. No caso da enfermeira do HMJMA Sara Suiane Sousa, 27, o medo foi o obstáculo. O acompanhamento tardio ocasionou a infertilidade.
“Eu sentia muitas cólicas, ia diversas vezes ao hospital para tomar medicação, e eu sabia que podia ser endometriose, mas também temia ser algo mais grave. Adiei o diagnóstico por medo, e ao buscar por ajuda, a doença já estava bem avançada. Além da infertilidade, a inflamação já estava comprometendo meu rim”, conta.
Suiane relata que a maternidade nunca esteve nos seus planos, mas sabe que sua escolha poderia ter ocasionado problemas gravíssimos. “Inclusive a perda progressiva da função normal do órgão, que poderia ser irreversível”.

Pacientes foram operadas no HMJMA no último dia 30 de setembro
O aumento das dores padrões da menstruação, o surgimento de novos sintomas e os desafios de viver com a endometriose foram os fatores que levaram as pacientes Francisca Cleide Bernardes de Oliveira, de 45 anos de idade, e Michele Saraiva de Sousa, 25, a buscarem assistência. Ambas foram operadas no HMJMA, no dia 30 de outubro, e se recuperam em casa.
Elas tiveram as vidas pessoal e, principalmente, profissional marcadas pelos desafios de viver com a dor da endometriose. “Convivo com a dor há 20 anos, já quase não consigo lembrar da minha vida sem ela”, conta Francisca, moradora de Campos Sales, no Cariri cearense. Cleide diz já ter desmaiado de dor. Com tantas dificuldades, parou de trabalhar.

Para Lucas Nogueira, a endometriose é uma doença ainda subestimada. “Os sintomas, muitas vezes representados por cólicas menstruais e constipação, por exemplo, podem ser vistos como normais para o período, mas não são. A dor causada pela endometriose pode ser incapacitante”, explica.
No caso de Michele, o comprometimento intestinal foi o que a fez buscar ajuda. “Fiquei 17 dias sem evacuar, foi desesperador”. Ela conta que antes da endometriose os sintomas pré-menstruais eram outros. “A diarreia era o alerta de que a menstruação estava chegando, e tudo foi mudando”.

Recuperando-se em casa, Cleide tem a esperança de poder voltar a ter uma vida normal. “Metade da minha vida foi com dor. Quero poder dizer que vivi mais tempo sem ela. Estou com muita fé”, diz com entusiasmo.
Já Michele, além de retornar ao mercado de trabalho, espera conquistar um sonho maior. “Com minha saúde restabelecida, sem dor, mais relaxada, com menos cobrança, menos medo, acredito que a minha segunda gravidez virá”, conclui animada.
O Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar (HMJMA) possui um ambulatório de endometriose com agendamento via Central de Regulação do Estado. Na unidade, são realizados diversos tratamentos para a doença, como clínico, implantação de DIU e cirurgia.
As pacientes submetidas a cirurgia de endometriose no HMJMA têm apoio psicológico e acompanhamento por dois anos no ambulatório especializado em endometriose. Este ano, até setembro, a unidade hospitalar de média complexidade realizou 36 cirurgias de endometriose. No ano passado foram 40.
Como forma de cuidado e atenção à mulher, a Sesa lançou, em parceria com a Secretaria das Mulheres, em agosto deste ano, o Programa Saúde da Mulher, ação que agiliza as cirurgias eletivas de endometriose no estado, bem como o tratamento da doença. A iniciativa está sendo realizada no HGCC, no Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar (HMJMA), no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), unidade federal.
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