
O Instituto Vladimir Herzog (IVH) enviou ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, uma carta em que manifesta preocupação com o que avalia serem sinais de ingerência externa e riscos de desestabilização do processo eleitoral brasileiro. O documento, assinado pelo diretor-executivo do IVH, Rogério Sottili, solicita que a ONU acompanhe possíveis interferências nas eleições de 2026 e defenda o respeito à soberania e às instituições brasileiras.
Na carta, enviada em 19 de setembro, Sottili afirma que o alerta decorre de uma série de episódios recentes envolvendo pressões políticas, econômicas e diplomáticas dos Estados Unidos sobre o Brasil. Segundo o IVH, há o risco de que essas ações atinjam o ambiente eleitoral e, posteriormente, sejam acompanhadas por tentativas de questionar a legitimidade do resultado das urnas ou retardar seu reconhecimento internacional.
O documento cita o relatório Desafios de Inteligência – Edição 2026, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que inclui a interferência externa entre as ameaças relacionadas ao cenário eleitoral e menciona instrumentos como desinformação, agentes de influência e apoio encoberto a grupos. A publicação da Abin identifica a segurança do processo eleitoral e a interferência externa entre os desafios analisados para 2026.
O IVH também reúne na carta episódios envolvendo declarações e medidas do governo norte-americano, contatos de integrantes da administração dos Estados Unidos com atores políticos brasileiros e questionamentos dirigidos às instituições do país. O Instituto sustenta que esses acontecimentos devem ser analisados em conjunto diante da proximidade das eleições.
Segundo Sottili, uma das principais preocupações é a possibilidade de contestação internacional do resultado eleitoral. “A proclamação do resultado eleitoral brasileiro é uma atribuição soberana das instituições brasileiras”, afirma o diretor-executivo na carta. O documento recorda que, em 2022, o reconhecimento rápido do resultado por outros países contribuiu, na avaliação do IVH, para reduzir o espaço político de narrativas de fraude e ruptura institucional.
Por esse motivo, o Instituto pede a Guterres que conclame os Estados-membros da ONU a respeitarem prontamente o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral brasileira, qualquer que seja o candidato vencedor. O IVH também solicita que o sistema das Nações Unidas acompanhe sinais de ingerência externa e manipulação informacional transnacional e desencoraje o uso de instrumentos econômicos, diplomáticos, tecnológicos ou de segurança para condicionar o processo eleitoral brasileiro.
A carta dedica ainda atenção às missões internacionais que acompanharão as eleições. O TSE confirma atualmente a participação de sete organizações internacionais, entre elas Organização dos Estados Americanos (OEA), União Europeia e Carter Center. As missões atuam de forma independente e podem acompanhar diferentes etapas do processo eleitoral, incluindo votação, apuração e totalização dos votos.
Para o IVH, a autonomia técnica desses organismos deve ser preservada diante de eventuais pressões políticas ou diplomáticas. O Instituto pede que a ONU defenda a independência e a integridade das missões oficialmente credenciadas e sustenta que seus relatórios terão peso para a confiança internacional no processo eleitoral brasileiro.
A iniciativa dá continuidade à atuação internacional do IVH em torno da integridade eleitoral. Em julho deste ano, Sottili integrou uma delegação de quinze organizações da sociedade civil brasileira que esteve em Washington e Nova York para reuniões com parlamentares, representantes da OEA e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, diplomatas e organizações da sociedade civil.
Ao final da carta, o Instituto afirma que a preservação da soberania eleitoral brasileira tem dimensão internacional. “Nenhum povo deve ter sua escolha democrática condicionada pela vontade, pela pressão econômica ou pelo poder político de outro Estado”, diz o documento.

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