
Nesta quarta-feira (29), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) reúne servidores e convidados em um momento de imersão cultural para encerrar a programação 'Abril Indígena 2026', que celebrou o dia 19 de abril, Dia Nacional dos Povos Indígenas.
A programação institucional realiza-se no Auditório Alberto Bentes Guerreiro, no escritório central da Emater, em Marituba, na Região Metropolitana de Belém (RMB), e destaca a exibição do curta-metragem paraense “Quem Quer” (2025), de direção, produção e elenco indígenas.
“É um filme-manifesto que denuncia o apagamento histórico e imperialista da presença indígena não só na Amazônia paraense, e sim na sociedade como um todo. Enfrentamos o desafio de desmistificar o que é insistente de caricatura e de estereótipo. ‘Indígena’ é diferente de ‘índio’: nós existimos não só pelo viés racial, fenotípico, mas pelo viés étnico. O território é sagrado, porém não nos limita: protagonizamos um movimento de retomada de ancestralidade e de repertencimento, independentes de aldeamento”, resume o roteirista da obra, Porakê Munduruku, de 44 anos.
Porakê, que adota também o nome civil de Glailson Santos, engenheiro agrônomo especialista em Gestão e Educação Ambiental, atualmente com atuação na Coordenadoria de Educação Ambiental (Ceam) da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), é autor do livro “Imuê’en” (“retribuição”, no idioma munduruku), de subtítulo “Por um estar no mundo originário”.
Porakê se autodenomina um “mombe’usara” (“contador de histórias e estórias”), e é o debatedor principal da roda-de-conversa “Quem Quer? Culturas Indígenas, Memória e Identidade, com mediação das servidoras da Emater engenheira agrônoma Alda Lúcia do Remédio. Ela é especialista e mestra em Gestão Pública, do Núcleo de Metodologia e Comunicação (NMC), e da bibliotecária Nalzelí Pereira, especialista em Gestão Tecnológica da Informação, da Biblioteca Lucivaldo Coelho.
“Na perspectiva de ater [assistência técnica e extensão rural] indígena, este é um momento de reconstrução de conhecimento, no sentido de trazermos informações pelas vozes de quem tem lugar de fala: os indígenas. O colonizador cria um imaginário que precisamos desfabular, desconstruir, porque a realidade é o norte inclusive da efetivação de políticas públicas de atendimento indígena com a qual a Emater contribui em todas as regiões do Pará”, diz Do Remédio.
Durante o evento, a vivência da família Wapatichiina-Xakanywa, de etnia tikuna-hixkaryana, da Tríplice-Fronteira Amazônica (Brasil-Colômbia-Peru), é uma atração especial. No estande de artesanato, os visitantes podem adquirir preciosidades tais quais cocar de pena de arara azul e pintar na pele, à base de tintura de jenipapo, grafismos com significados de força, resistência e espiritualidade.
“Eu acho que as políticas públicas têm chegado, sim, pra nós, indígenas, e isso é muito bom, porque o acesso a estudo, tecnologia, renda valoriza nossa existência ancestral e nos dá meios de transmissão de cultura, de manutenção das tradições”, relata a assistente social Missilene Wepatchiina, de 32 anos, pós–graduanda em Sustentabilidade Amazônica.
Natural do município de Benjamin Constant, no Amazonas, ela por ora reside em Belém, junto com o marido, Davi Xakanywa, estudante de medicina, e as três filhas do casal: Jade, de um ano; Sara, de seis anos, e Amanda, de oito anos.
Abril Indígena
Ao longo do mês de abril, a Emater promoveu diversas ações em todo o Pará a fim de fortalecer os povos originários como público prioritário das políticas públicas rurais do Governo do Estado.
Em Santa Luzia, no Rio Caeté, por exemplo, a Emater acaba de entregar 32 cadastros nacionais da agricultura familiar (cafs) a indígenas tembé do Território Indígena Alto Rio Guamá, em ação na aldeia São Pedro. Os 350 indígenas de seis aldeias Tembé presentes (Frasqueira, Jacaré, Ita Putyr, Pacotyl e Pirá) participaram, ainda, de uma capacitação sobre apicultura.
A partir dos cafs, a Emater articula projetos individuais de crédito rural das linhas A e B do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) ante o Banco da Amazônia (Basa) e o Banco do Brasil (BB), com valores entre R$ 12 mil e R$ 50 mil, para atividades como manejo de açaizal nativo, pesca artesanal e plantio de pimenta-do-reino.
De acordo com relatórios internos da Coordenadoria de Planejamento (Cplan) da Emater, o Governo do Pará concretiza ater indígena junto com cerca de mil indígenas nas regiões do Araguaia, de Carajás, do Baixo Amazonas, do Guamá, do Lago do Tucuruí, do Rio Caeté, do Rio Capim, do Tapajós, do Tocantins e do Xingu.
Texto: Aline Miranda
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