
A possibilidade de identificar doenças por meio da voz é uma das novas aplicações da inteligência artificial na área da saúde. A proposta é utilizar sistemas capazes de analisar características acústicas da fala para detectar padrões associados a determinadas condições clínicas. Apesar do potencial inovador, especialistas ressaltam que a tecnologia ainda está em desenvolvimento e precisa ser utilizada com responsabilidade e supervisão profissional.
De acordo com Lilian Aguiar Ricz, coordenadora do Laboratório de Investigação da Voz e da Fala do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, o fonoaudiólogo é o especialista capacitado para analisar a voz com finalidade clínica. “Esse profissional possui conhecimento técnico e experiência para relacionar alterações vocais à fisiopatologia da laringe e distinguir sinais de doença de variações causadas por fatores emocionais.”
A voz humana é resultado da interação entre sistemas cerebrais ligados à emoção e circuitos motores responsáveis pela produção vocal. Por isso, ela pode refletir tanto estados emocionais, como tristeza, raiva ou desânimo, quanto alterações orgânicas. O ouvido treinado do especialista é considerado altamente confiável na identificação de padrões patológicos e continua sendo referência na avaliação clínica da voz.
As pesquisas atuais buscam identificar os chamados biomarcadores vocais, ou seja, padrões acústicos que possam estar associados a doenças como problemas cardiovasculares, diabetes, menopausa e transtornos mentais. A expectativa é que, no futuro, esses marcadores contribuam para o diagnóstico precoce, o acompanhamento de doenças crônicas e a redução de custos no sistema de saúde.
Entretanto, ainda não existe nenhum programa oficialmente validado que permita diagnosticar uma doença apenas pela voz. “Um dos principais desafios da inteligência artificial é diferenciar alterações provocadas por emoções daquelas relacionadas a patologias. Um resultado equivocado pode gerar falso positivo e causar impactos psicológicos e sociais ao paciente”, destaca a especialista.
Além disso, a coleta da voz exige rigor técnico. É fundamental que a gravação seja feita em ambiente acusticamente controlado, com baixos níveis de ruído, equipamentos adequados e protocolos padronizados. A qualidade do armazenamento também é essencial para garantir análises fidedignas.
Especialistas reforçam que o diagnóstico médico não se baseia em um único indicador. A voz pode oferecer sinais importantes, mas deve ser considerada parte de um conjunto de informações clínicas, exames físicos e complementares. Nesse contexto, a inteligência artificial surge como ferramenta auxiliar, capaz de apoiar o profissional de saúde, mas não de substituí-lo.
A detecção de doenças por meio da voz é, portanto, uma área promissora, que combina tecnologia e conhecimento clínico. Para que seus benefícios se consolidem, será necessário avançar nas pesquisas, validar cientificamente os biomarcadores vocais e manter o compromisso ético com a segurança dos pacientes.
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