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Webinar apresenta relatório com panorama inédito sobre ataques de gênero no jornalismo.

NO Dia Internacional da Mulher, 8.mar.2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a UNESCO reuniram pesquisadoras e jornalistas para falar sobre a violência de gênero contra profissionais de imprensa e, em especial, o cotidiano de ataques sofridos pelas profissionais mulheres, que muitas vezes têm saltado das plataformas digitais para o mundo off-line.

10/03/2022 às 23h48 Atualizada em 12/03/2022 às 15h47
Por: Fábio Costa Pinto Fonte: https://abraji.org.br/noticias/webinar-apresenta-relatorio-com-panorama-inedito-sobre-ataques-de-genero-no-jornalismo?utm_source=instagram&utm_medium=social&utm_campaign=ig-post.
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Números: 127 jornalistas e meios de comunicação foram alvos de ataque de gênero em 2021. Foto: Reprodução uol.com.br.
Números: 127 jornalistas e meios de comunicação foram alvos de ataque de gênero em 2021. Foto: Reprodução uol.com.br.

Violência de Gênero contra Jornalistas”. 

O estudo revelou que 127 jornalistas e meios de comunicação foram alvos de ataque de gênero em 2021 e que os discursos estigmatizantes — agressões verbais visando oprimir e humilhar — estiveram presentes em 75% dos casos registrados. 

O primeiro encontro, do dia 8.mar.2022, já está disponível em uma plataforma para o público que não acompanhou o debate ao vivo. O material estará disponível por 30 dias. Mediado pela jornalista Jéssica Moreira, cofundadora do Nós, mulheres da periferia — um dos veículos atacados no ambiente ‘on-line’ em 2021 —, o painel contou com a participação de Marlova Noleto, diretora e representante da UNESCO no Brasil; Verônica Toste, consultora de gênero do projeto da Abraji; Julie Posetti, vice-presidente de Pesquisa Global do Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ); e Mariliz Pereira Jorge, colunista da Folha de S.Paulo.

Marlova Noleto destacou a importância de compreender os diferentes tipos de agressões e ameaças que as jornalistas sofrem no dia a dia “É essencial para desenvolver medidas abrangentes, mas também customizadas, para prevenir, proteger e remediar os ataques”, afirma. 

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Noleto também chamou a atenção para o crescimento exponencial de agressões ‘on-line’ contra mulheres jornalistas durante a pandemia de covid-19. Segundo a diretora da UNESCO no Brasil, essa forma de violência penetra o mundo off-line, alcançando consequências potencialmente fatais.

O quadro de ataques que surgem e ganham amplitude na ‘internet’ foi mostrado pela professora e pesquisadora Verônica Toste. Ela pontuou que 68% dos casos registrados pelo monitoramento ocorreram nos espaços digitais que parte dos ataques originados nesse meio apresentam indícios de serem orquestrados, pois, contam com a associação entre figuras políticas e grandes grupos de internautas. “A maneira com que conseguimos mapear o percurso dos ataques sinaliza ser possível haver redes organizadas ou semi organizadas de atores. Muitos ataques iniciam a partir de ações ou falas de autoridades e reverberam na forma de ataques massivos”, disse a pesquisadora.

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Durante o debate, Verônica Toste também apresentou a metodologia do projeto e apontou que o relatório tem a qualidade de produzir generalizações maiores sobre a situação da violência contra jornalistas no país de uma forma segura, apoiada em procedimentos científicos e na transparência dos dados coletados, disponibilizados no site do monitoramento.
 
“Algo que chamou muita atenção foi que, nos casos de vítimas que trabalham em alguma editoria de jornal específica, 89% dos ataques se dirigiram a jornalistas da área de cobertura política”, afirma Toste. 

Para a pesquisadora, esse dado revela que o jornalismo investigativo, responsável por fiscalizar o Estado e as ações dos agentes estatais, é o alvo mais recorrente de ataques. “Existe uma instrumentalização da questão de gênero para silenciar essa cobertura jornalística”. Essa questão também está evidenciada no fato de que os principais agressores identificáveis são atores políticos e estatais. 

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O quadro apresentado por Verônica Toste espelha o cenário internacional de violência de gênero contra jornalistas. A pesquisadora Julie Posetti, destacou as principais semelhanças entre a situação brasileira e o contexto de ataques às comunicadoras ao redor do mundo. Como autora principal da pesquisa The Chilling: A Global Study in Online Violence Against Women Journalist, a ser lançada pela UNESCO, Posetti trouxe dados globais que reforçam tendências encontradas pelo relatório da Abraji

O primeiro padrão se conecta à participação assídua de agentes estatais em casos de agressões contra mulheres profissionais de imprensa: 30% das entrevistadas para o The Chilling apontaram esses atores como seus agressores. 

O papel das plataformas digitais na dinâmica de abusos também foi indicado como relevante. Segundo Posetti, comunicadoras foram, frequentemente, alvos de termos degradantes como “presstitute” (combinação das palavras anglófonas press, de imprensa, e prostitute, de prostituta) em postagens e comentários de redes sociais. “[A expressão serve] para desmoralizar a jornalista e atacá-la tanto no nível pessoal quanto no nível profissional. É uma palavra terrível, misógina. Essas são maneiras vis de discriminação, usadas para causar dor e aumentar os riscos que a mulher sofre ‘on-line’”, explica. 

As participantes destacaram que as táticas machistas são recorrentemente usadas em conjunto com o racismo, quando se trata de atacar mulheres não brancas no jornalismo, e com a intolerância religiosa, além de outras formas de preconceito e agressão. 

Para além dos dados trazidos pelas pesquisadoras, o evento também contou com uma perspectiva mais pessoal da violência contra mulheres jornalistas. Mariliz Pereira Jorge, um dos maiores alvos de ataques on-line no jornalismo, relatou que, por anos, foi colunista do caderno de esportes, cobrindo temas como corrupção, machismo, racismo e homofobia, mas que nada se compara à violência que sofre desde que escreveu sobre política. Para ela, essa violência recrudesceu desde as eleições presidenciais de 2018.

“Eu não me surpreendo mais com a virulência desses ataques, mas não, é algo com o qual nós se acostume. Ninguém se acostuma com violência, especialmente a que as mulheres sofrem. A mulher é um alvo muito fácil e o estudo só confirma o que nós vem sentindo na pele: ataques pelo nosso gênero, idade, sexualidade, aparência, orientação sexual”, disse Pereira Jorge. 

A jornalista afirmou que falta suporte por parte das plataformas de redes sociais, que não só falham em retirar conteúdos ofensivos e discursos de ódio contra elas, como ainda censuram e restringem a liberdade de expressão das profissionais, a partir de denúncias orquestradas dos mesmos grupos de ataques. 

Os efeitos que esses ataques têm sobre a saúde mental das jornalistas foi abordado tanto por Mariliz Pereira Jorge quanto por Julie Posetti. Segundo a pesquisadora, é importante que haja “uma abordagem híbrida, ao lidar com os ataques especialmente massivos e envolvem ameaças físicas, de violência sexual e exposição, por meio do suporte psicológico, mas também social e de solidariedade dos colegas e da sociedade”. 

Segundo Mariliz, o intuito desses ataques é calar e amedrontar as mulheres jornalistas para desistirem de seu trabalho. “Mas posso dizer que não vão conseguir. Isso tudo faz com que nós se fortaleça como classe, como mulheres na mesma profissão”, expôs a colunista. 

“Onde querem nos calar, somos vozes, potência e grito”, finalizou a diretora da UNESCO no Brasil, Marlova Noleto. 


Segundo dia de evento

Hoje (9.mar.2022), a partir das 17h, acontecerá o segundo debate sobre o tema, cujo objetivo é buscar possíveis soluções para combater a violência contra profissionais de imprensa mulheres. A mesa “Violência de gênero contra jornalistas: o que pode ser feito a respeito?” conta com a participação de Cármen Lúcia, ministra do Supremo Tribunal Federal; Leonor Costa, coordenadora de comunicação do mandato da deputada Talíria Petrone; Laura Tresca, Integrante do Comitê Gestor da Internet no Brasil; Leticia Kleim, assistente jurídica da Abraji e coordenadora do relatório “Violência de gênero contra jornalistas"; e Patricia Campos Mello, diretora da Abraji, que fará a mediação do debate.
 
Informações sobre como participar podem ser obtidas na plataforma oficial do evento.
 
Resultado do projeto da Abraji Violência de gênero contra jornalistas, o relatório “Violência de Gênero contra Jornalistas: dados sobre os ataques com viés de gênero e casos que vitimaram mulheres no Brasil em 2021” pode ser conferido neste link. O documento foi produzido com financiamento do Global Media Defence Fund, da UNESCO. As versões em inglês e em espanhol também estão acessíveis ao público.

 

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