
Nesta quinta-feira (26), pacientes celebraram o Dia da Visibilidade Trans, instituído em 29 de janeiro
Pacientes e profissionais do Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans) do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM) se reuniram, nesta quinta-feira (26), para celebrar o Dia da Visibilidade Trans, instituído no dia 29 de janeiro.
“Em todas as quintas-feiras, temos atendimentos a esse público no HSM, então, já antecipamos as comemorações com uma dinâmica de grupo e um lanche especial”, diz o enfermeiro e coordenador do ambulatório, Emanuel Moura.
O Sertrans foi criado em 2017 como um serviço de atenção à saúde de nível secundário para proporcionar acompanhamento relacionado ao processo transexualizador – do uso do nome social à adequação do corpo biológico à identidade de gênero e social, passando pela introdução da hormonioterapia. O ambulatório oferece atendimento multiprofissional com assistentes sociais, endocrinologista, enfermeiros, psicólogos e psiquiatras. Em 2022, mais de 230 pessoas foram beneficiadas.
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A transfobia presente na sociedade de forma estrutural, segundo a psicóloga Gabriela Benigno, é um dos preconceitos que reforçam e impõem o padrão de gênero binário (homem e mulher), endossando uma falsa percepção de que a diversidade humana não existe.
“Na realidade, a experiência humana é múltipla e contempla todos os gêneros que transcendem essa lógica binária. Isso faz com que as pessoas trans, muitas vezes, se sintam desqualificadas, gerando adoecimentos psicológicos como depressão e ansiedade, além de outros tipos de comorbidades”, argumenta Benigno.
A psicóloga ressalta, portanto, a necessidade de acompanhar a saúde mental dessas pessoas. “É fundamental dar acolhimento e amparo para que possam confirmar suas vivências, reconhecendo-as dentro da sua identidade de gênero – que não coincide com o sexo designado ao nascimento”, pontua.

A experiência de se sentir um ‘cidadão respeitado’ é percebida por Jonas Oliveira durante os atendimentos
Jonas Oliveira, de 34 anos, é paciente do Sertrans há 11 meses. Ele conta que, após ser assistido no equipamento, tem conseguido viver em sua plenitude. “Quando você é uma pessoa trans, colocada em contextos de marginalidade, é muito complicado não ter um suporte. Aqui, tenho a experiência de me sentir um cidadão respeitado e de existir na sociedade enquanto indivíduo”.

Maria Samira agradece o acolhimento recebido no equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa)
Maria Samira Cavalcante, de 38 anos, também é paciente do ambulatório. Apesar de morar longe do serviço, a cuidadora de idosos afirma não perder o atendimento semanal. “Contamos com uma equipe preparada. Faço meus tratamentos hormonais com um endocrinologista, participo das terapias em grupo e individual, tenho apoio de enfermeiros e de assistente sociais. Tudo isso me faz sentir acolhida e rodeada de afeto. É um serviço vital para nós”, avalia.
Alguns pacientes dão entrada no Sertrans com quadros psicológicos graves. Foi o caso de Cássio Levi, de 25 anos. O jovem chegou ao ambulatório com depressão, precisando ser internado. “Minha família não me aceitava. Com o acompanhamento recebido aqui, sou uma nova pessoa. Hoje, meus relacionamentos são bem melhores, a minha própria aceitação e a da minha família também evoluíram. Estou mais equilibrado emocionalmente, viajo sempre que posso e estou mais feliz”.

Após quadro de depressão, Cássio Levi hoje afirma estar mais feliz
A assistência multiprofissional oferecida pelo Sertrans é preconizada por portarias do Ministério da Saúde. De acordo com Emanuel Moura, o trabalho desenvolvido no espaço observa os sofrimentos ligados ao processo de negação por parte da sociedade e de outras violências. Discussões em grupo sobre construção de identidade, incluindo ou não modificações corporais, proporcionam melhor qualidade de vida a essas pessoas. “A ideia é dar suporte ao processo de afirmação de gênero, priorizando a hormonioterapia”, diz o enfermeiro.
Para ser atendido pelo serviço, é necessário ir a um posto de saúde e informar a necessidade de afirmação de gênero. A equipe da atenção primária deve realizar a primeira assistência e, em seguida,encaminhar a/o paciente ao ambulatório estadual.
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