
A traqueostomia é realizada para facilitar a respiração por meio de ventilação mecânica. O procedimento cirúrgico, uma abertura frontal na traqueia, possibilita a desobstrução de vias respiratórias e a higiene da região. Na Casa de Cuidados do Ceará (CCC), unidade da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) sob administração do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH), os profissionais atuam na reabilitação de pacientes traqueostomizados e celebram cada decanulação – também conhecida como “desmame”.
Apesar dos benefícios, o instrumento artificial aumenta o risco de infecção. Por isso, a retirada do dispositivo é considerada um processo importante na recuperação do paciente, impedindo o desenvolvimento de fraquezas musculares, facilitando a deglutição e diminuindo o desconforto. O momento da decanulação é considerado uma grande conquista não só para a pessoa traqueostomizada – que passa a respirar naturalmente pelo nariz. A família e a equipe responsável pelos cuidados também comemoram.
Na maioria dos casos, pacientes internados na CCC que passaram pelo procedimento estão nessa condição há mais tempo e chegam à unidade encaminhados por outros equipamentos de saúde. Quando o usuário dá entrada no serviço da Casa, são feitos processos de reabilitação motora e respiratória, objetivando o fortalecimento da musculatura e da capacidade cardiopulmonar.
Em 2022, 58% das pessoas traqueostomizadas internadas na CCC passaram pelo “desmame” com sucesso – a meta era 40%. Os demais eram pacientes que, por algum motivo, não tinham condições de respirar de forma natural.
“Há uma avaliação multiprofissional realizada por médico, fisioterapeuta e fonoaudiólogo, cada um na sua área. Na ocasião, são analisados diversos aspectos, desde a deglutição até a respiração do paciente”, explica a coordenadora de Fisioterapia, Aryadne Marques.
“Consideramos uma vitória quando a traqueostomia é retirada sem intercorrências por até 96 horas. A avaliação da equipe e o auxílio dos cuidadores são fundamentais para prevenir problemas como broncoaspiração e pneumonia aspirativa decorrente da aspiração incorreta”, acrescenta.
Maria José Sousa, de 41 anos, atua como cuidadora desde 2021. Ela já prestou assistência a quem usou sonda ou teve de ser traqueostomizado. Sousa lembra do impacto da decanulação na vida de pacientes e familiares. “Uma vez, a irmã de uma pessoa que estava sendo cuidada me ligou e agradeceu bastante pela atuação da equipe. A retirada do dispositivo é uma preocupação a menos, embora os cuidados continuem”.

A traqueostomia impossibilita que a alimentação seja feita da forma convencional. Não poder mastigar os alimentos, no entanto, anula uma sensação de prazer e interfere no resgate de memórias afetivas proporcionado pelo paladar. Por isso, os profissionais da CCC buscam alternativas para dar maior conforto a esses pacientes.
“A retirada segura da sonda é considerada uma vitória, pois, sem o aparelho, é possível sentir os alimentos com seus sabores e suas texturas”, pontua a fonoaudióloga Cintia Oliveira.
A diretora da Casa, Ursula Wille Campos, complementa: “Durante a reabilitação, conseguimos a retirada da sonda e o retorno da alimentação pela boca em mais de 50% dos casos acompanhados pela fonoterapia”.
Para qualificar a assistência, profissionais da CCC orientam cuidadores por meio de oficinas sobre postura correta para uma alimentação segura e eficaz, higienização oral e decanulação. As condutas reduzem riscos de pneumonia aspirativa de repetição.
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