
A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) lança, nesta terça-feira (10), o Guia de Bolso de Hanseníase para Profissionais de Saúde da Atenção Primária. O produto surge em meio ao Janeiro Roxo, mês no qual as discussões acerca da doença crônica são ampliadas. O documento busca fortalecer a compreensão dos trabalhadores por meio de informações sobre sintomas, diagnóstico, transmissão e tratamento.
Para a coordenadora dos programas de Hanseníase e Tuberculose da Sesa, Yolanda Barros, a publicação foi criada visando ao aprimoramento de condutas durante o atendimento de pacientes. “O Guia é um sonho nosso há muito tempo. É um documento importante para que os nossos profissionais tenham em mãos um manual rápido para norteá-los e colocar a hanseníase no radar de diagnósticos”, reforça a idealizadora do projeto.
De acordo com Barros, a doença tem potencial incapacitante. O tratamento precoce e o acompanhamento adequado, no entanto, diminuem os riscos. No Brasil, a hanseníase ainda é considerada um grave problema de saúde pública e, no Ceará, a condição configura-se como uma “endemia oculta”. De 2015 a 2022, 11.727 casos foram notificados no Estado, sendo 486 em menores de 15 anos, conforme boletim epidemiológico mais recente.

Neste período, 59,7% dos diagnósticos foram em pessoas do sexo biológico masculino. A faixa etária de 50 a 64 anos foi a mais afetada (30,4%). “Ainda hoje, de fato, pode até parecer estranho para a maioria das pessoas, mas a hanseníase nunca deixou de estar entre nós. Apesar de ser uma doença secular, ainda assola diferentes sociedades, incluindo a cearense. Refiro-me à doença como oculta porque, infelizmente, permanece negligenciada e pouco discutida na grande mídia. Mas os dados trazem a importância e a urgência de falarmos sobre o assunto”, ressalta a enfermeira.
O diagnóstico de hanseníase pode ser feito nos postos de saúde. Desde o surgimento do tratamento ambulatorial, a partir da década de 1950, o isolamento compulsório em hospitais-colônia não é mais necessário.
A Sesa reúne dois grandes equipamentos para assistir esse público. O Centro de Dermatologia Dona Libânia (CDERM) é um deles. Localizado no Centro de Fortaleza, a unidade é referência para doenças dermatológicas, além de ser parâmetro nacional do Ministério da Saúde para hanseníase.
O outro é o Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD), em Redenção, na Região Metropolitana. A estrutura presta assistência dermatológica sanitária e multidisciplinar, com ênfase em hanseníase. Fundado em 1928, o CCAD é o equipamento mais antigo vinculado à pasta estadual. Além da atenção à saúde, o CCAD realiza um trabalho relevante para a reinserção de pacientes diagnosticados com hanseníase na sociedade.
O diagnóstico precoce é a melhor estratégia para enfrentar a hanseníase, aliado à busca ativa de profissionais da Saúde e ao monitoramento dos índices epidemiológicos nos municípios. Cerca de 72% dos casos são multibacilares, quando há alta transmissão da doença.

“Com o tempo prolongado de exposição ao bacilo, aumentam as chances de surgirem as temidas incapacidades físicas. Isso traz consequências como deformidades de mãos, olhos e pés, culminando em limitações no trabalho e na vida social do paciente, somando perdas econômicas e traumas psicológicos”, explica Barros.
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A enfermeira ressalta que, embora seja um tratamento longo, existem duas operacionalizações a partir do diagnóstico: uma para pacientes paucibacilares e outra para multibacilares. “As classificações têm os mesmos tratamento e medicamento, diferindo apenas o tempo, de seis e 12 meses, respectivamente”, detalha. A cura pode ser alcançada em ambas as situações.
A hanseníase é uma doença infecciosa de evolução lenta causada pelo Mycobacterium leprae, também denominado bacilo de Hansen. A micobactéria afeta células da pele e dos nervos, manifestando-se por meio de manchas brancas ou avermelhadas, provocando perda de sensibilidade ao calor, ao frio, à dor e ao tato, além de sensação de formigamento ou dormência nas extremidades.

Por muito tempo, a hanseníase foi considerada uma mazela de pessoas “impuras”, e simbolizava a desonra. Antes, o diagnóstico era dado não por médicos, mas por sacerdotes. O estigma em torno da doença ainda persiste.
“É visível a forma pela qual a hanseníase, além de acometer fisicamente as pessoas, repercute na autoestima, levando-as terem preconceito consigo mesmas, com medo de conviver em sociedade e a sentir vergonha das manchas. A falta de conhecimento gera discriminação”, lamenta Barros.
O Ministério da Saúde oficializou a campanha Janeiro Roxo desde 2016. Nesse período, a conscientização, o enfrentamento e o combate ao preconceito são pautas importantes para a desestigmatização da hanseníase e da população que convive com a doença.
“O objetivo do movimento é ampliar o conhecimento da sociedade sobre a doença por meio de ações e reforçar a importância do diagnóstico precoce para evitar sequelas graves que geram incapacidades físicas”, reiterou Yolanda Barros.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil está em segundo lugar em número de casos de hanseníase, ficando atrás somente da Índia e concentrando 90% dos registros nas Américas.
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