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Salvador, BA

Segurança VIOLÊNCIA

Enquanto foliões curtem Carnaval, jovens são mortos na Gamboa em Salvador.

Policiais são recebidos com gritos de "assassinos", as moradoras fizeram de tudo para impedir que prevalecesse a justificativa de "troca de tiro" e de "resistência armada" quase sempre dada nas operações que resultam em mortes.

08/03/2022 às 12h33 Atualizada em 08/03/2022 às 13h31
Por: Fábio Costa Pinto Fonte: https://noticias.uol.com.br/colunas/andre-santana/2022/03/06/com-potencial-turistico-e-artistico-comunidade-da-gamboa-merece-respeito.htm?uol_app=uolnoticias&cmpid=copiaecola&cmpid=copiaecola
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A perda de um filho morto pela Polícia Militar da Bahia, é irreparável. Foto; Reprodução Portal Uol Notícia.
A perda de um filho morto pela Polícia Militar da Bahia, é irreparável. Foto; Reprodução Portal Uol Notícia.

Por André Santana*. 

O último dia de Carnaval 2022, em Salvador, 1.º, foi marcado por protestos em uma importante avenida pela morte de três jovens negros em mais uma ação violenta da Polícia Militar, em uma comunidade da cidade. Na mesma região das manifestações, uma das mais concorridas festas privadas abria seus portões para a última noite de festejos carnavalescos.

O pátio do Museu de Arte Moderna da Bahia foi o cenário escolhido por uma das festas fechadas que movimentaram o Carnaval de Salvador este ano, após o cancelamento dos desfiles dos trios e atrações nas ruas da capital baiana, por conta da pandemia. 

Localizado na Avenida Contorno, que margeia a cidade à beira do mar da Baía de Todos os Santos, o espaço reuniu artistas e foliões em seis dias de festa. A bela praia do Solar do Unhão e as expressões artísticas e gastronômicas da comunidade pesqueira da Gamboa de Baixo têm atraído visitantes e iniciativas culturais.

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O local já foi utilizado para produções audiovisuais, como um clipe da cantora Anitta (da música Bola, Rebola), a série documental Street Food (Comida de Rua) da Netflix e a telenovela Segundo Sol, da Rede Globo.

Ali pertinho de onde aconteceu o baile privado, enquanto uma multidão se despedia da folia ao som de sucessos do axé music e novidades da música ‘pop’, famílias choravam a perda causada pelo assassinato de três jovens da Gamboa de Baixo, na madrugada do dia 1.º.

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Diante das execuções, os moradores da comunidade demonstraram coragem ao exigir justiça, confrontando a versão apresentada pelos policiais e costumeiramente aceita pela imprensa.

Segundo a Polícia Militar, os agentes foram recebidos por disparos ao chegarem ao local, para verificarem uma denúncia de que homens estavam armados.

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Moradores acusam policiais pelas execuções.

Durante os protestos pela morte de Patrick Sapucaia de 16 anos, Alexandre Santos de 20 anos e Cleberson Guimarães de 22 anos, as mulheres da comunidade enfrentaram a repressão policial e interromperam a tentativa de mais uma cobertura midiática centrada na versão dada pelas autoridades policiais.

Além de receberem os policiais com gritos de “assassinos”, as moradoras fizeram de tudo para impedir que prevalecesse a justificativa de “troca de tiro” e de “resistência armada” quase sempre dada nas operações que resultam em mortes.

Os moradores da comunidade, que testemunharam a ação, acusam os policiais de chegarem ao local lançando bomba de gás e atirando, atingindo os três jovens, que não apresentaram nenhuma resistência.

Os vizinhos e familiares das vítimas negam que tenha havido troca de tiros, como alega a Polícia Militar, e denunciam que os corpos das vítimas foram removidos e o local das execuções alterado, atrapalhando a apuração dos fatos.

Em depoimento ao UOL, a mãe de um dos jovens afirma que teve uma arma apontada para a cabeça pelos policiais, enquanto seu filho, ainda vivo, clamava por socorro.

“A passagem pela polícia, sempre destacada em matérias jornalísticas do gênero, funciona como argumento para as execuções, como se no Brasil houvesse pena de morte para qualquer crime cometido.

A aceitação da única versão oferecida pela polícia e a criminalização prévia dos moradores da periferia, por serem pobres e pretos, contribuem para as altas taxas de homicídios em operações policiais.

Os dados do monitoramento da Rede de Observatórios da Segurança, realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, colocam a Polícia Militar da Bahia como a mais letal da região Nordeste e uma das mais violentas do país, tendo como alvos principais pessoas negras, como Patrick, Alexandre e Cleberson.

Conforme a pesquisa “Pele Alvo: A cor da violência policial”, da Rede de Observatórios da Segurança, a Bahia possui algumas das cidades com maior letalidade policial de pessoas negras do país. É o caso de Salvador e Santo Antônio de Jesus, campeã no ranking nacional. Ainda segundo a pesquisa, em 2020, 100%, ou seja, todas as pessoas mortas em operações policiais na capital baiana eram negras.

Os números desta tragédia crescem a cada ano — entre 2019 e 2020, houve um aumento de 21,08% de mortes por ações policiais —, sem nenhum perspectiva de mudança por parte do e das autoridades da segurança pública.

O governador Rui Costa chega ao final do segundo mandato — a quarta gestão petista consecutiva no governo da Bahia —, sem, demonstrar qualquer constrangimento com esses números. Há muito tempo, o chefe do executivo estadual nem se dá ao trabalho de comentar essas mortes”.

*(Esta reportagem é do André Santana, Jornalista cofundador do Mídia Étnia e do portal Correio Nagô, para o portal Uol Notícia e autorizado publicação ao IBI, pelo autor). 

Nós do IBI, coletivo Inteligência Brasil Imprensa, repudia com firmeza este e outras práticas de violência contra quem quer que ser por policiais Militares da Bahia. 

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