
Reportagem: Priscila Machado/ Secom PMS
O anúncio da efetivação do Parque Municipal do Manguezal do Passa Vaca e do planejamento de ações para a preservação e proteção do local, feito no último dia 16, foi recebido com bastante alegria por ambientalistas e moradores do bairro de Patamares. O cuidado com o último remanescente de manguezal em meio urbano na orla atlântica de Salvador era uma reivindicação antiga, sobretudo de entidades ambientais.
Logo após o anúncio, a Prefeitura de Salvador realizou um mutirão de limpeza no local com apoio de voluntários. Foram retirados resíduos sólidos acumulados na vegetação e nas margens do curso d’água , incluindo colchão, vasos, entre outros. Os materiais eram trazidos pelos rios Passa Vaca e Jaguaribe, pela maré e também resultado do descarte irregular realizado nas vias próximas.
Em breve, também será iniciado o cercamento para a proteção da área pela Secretaria de Manutenção da Cidade (Seman), que já solicitou a compra do material. A medida visa evitar ocupações irregulares e restringir práticas que possam provocar danos ao ecossistema.
Também fazem parte das propostas de melhorias a implementação do primeiro Centro de Referência do Manguezal de Salvador (CRMS), em parceria com a Fundação Vovó do Mangue, a implantação de ecobarreira e a recuperação da vegetação. O CRMS será dedicado à pesquisa, inovação tecnológica e monitoramento.
“O ato realizado em 16 de setembro, quando a Prefeitura de Salvador anunciou a demarcação e novas intervenções para a consolidação do Parque do Manguezal do Passa Vaca, representou uma importante conquista para o manguezal e para nós, moradores, que há anos defendemos esse pequeno, mas tão importante espaço natural. O parque foi criado por decreto em 2009, mas, durante muitos anos, permaneceu praticamente apenas no papel, sem a efetiva consolidação e proteção da área”, afirma Joana Kalid, moradora de Jaguaribe e ambientalista.
Para ela, as medidas anunciadas podem contribuir significativamente para preservação do local, da biodiversidade e dos serviços ambientais que o ecossistema presta à cidade.
Glicério Brito é presidente da Associação dos Condomínios Residenciais, Comerciantes, Proprietários de Residências Unifamiliares, Estabelecimentos Comerciais e Empresários de Jaguaribe (AME Jaguaribe) há mais de um ano. Ele acredita que cuidar do rio não é apenas uma questão ambiental, mas de qualidade de vida, segurança, paisagem urbana e responsabilidade com as futuras gerações.
“O parque pode ajudar a criar uma cultura permanente de preservação e mostrar que desenvolvimento urbano e conservação ambiental precisam caminhar juntos. O projeto que apresentamos à Prefeitura propõe recuperação da vegetação nativa, proteção do manguezal e das margens do rio, educação ambiental, pesquisas científicas, trilhas e percursos de baixo impacto, quando ambientalmente admissíveis, assim como espaços de contemplação, sinalização, acessibilidade, segurança e participação da comunidade”, destaca.
Glicério lembra que o cuidado com o Rio Passa Vaca e com o manguezal é anterior à própria criação da AME Jaguaribe.
“Em 2012, por exemplo, os moradores da Rua Professor Raul Chaves já realizavam mutirões de limpeza e ações voluntárias de preservação, demonstrando que essa preocupação nasceu da própria comunidade. Com a criação da AME, em 2024, passamos a formalizar institucionalmente as reivindicações relacionadas à recuperação e à preservação do rio e do manguezal. O Passa Vaca não é um patrimônio apenas de Jaguaribe, mas de Salvador, do Brasil e do mundo.”
Benefícios– A Fundação Vovó do Mangue, instituição criada em 1997 por estudantes de Maragogipe e que atua com ações de educação ambiental, preservação e recuperação dos mangues, será parceira da Prefeitura na implantação do Centro de Referência do Manguezal de Salvador (CRMS).
Carlinhos de Tote, coordenador de Educação Ambiental da instituição, explica que os benefícios proporcionados pelo bioma vão desde a proteção da costa marítima até a captação do carbono de maneira mais efetiva.
“É importante preservar uma área de manguezal, em uma zona metropolitana dessa, por várias razões. Primeiro, o manguezal é uma proteção de linha de costa e funciona como um filtro do que vem de ações antrópicas do continente para o litoral e também do que vem do litoral para o continente. O segundo aspecto é que o manguezal funciona como uma maternidade, um berçário do mar. Mais de 60% das espécies do alto-mar vêm para essas áreas estuarinas, ou seja, onde a água doce se mistura com a salgada”, conta.
Ele ressalta ainda a rica fauna que o manguezal é capaz de abrigar caranguejos, siris, aratus, sururus e ostras. “O outro ponto é que podemos referendar também o manguezal como um albergue de aves migratórias e nativas, como a garça-parda, a garça-branca, o socó, o guará, martim-pescador, maçarico, andorinha. As migratórias passam desde a Flórida, nos Estados Unidos, até a Patagônia. Durante a noite, essas aves se hospedam no manguezal, então é um abrigo de aves migratórias”, acrescenta Tote.
Um dos benefícios mais importantes do bioma, no entanto, é a eficiência no armazenamento e sequestro de carbono por unidade de área. Como o solo permanece frequentemente alagado e com pouco oxigênio, a decomposição da matéria orgânica é mais lenta. Assim, o carbono pode permanecer armazenado no sedimento durante centenas ou até milhares de anos.
“O manguezal absorve e transforma o carbono em oxigênio, deixa a atmosfera mais leve, então é um estabilizador do clima. Se estamos pensando na temperatura e no clima mundial, o manguezal favorece e capta muito mais carbono que algumas florestas. É uma lama que é vida e é responsável por amenizar a questão do clima. Então vamos louvar todos que preservam esse ecossistema e parabenizar a Prefeitura de Salvador por ter criado esse Parque Municipal do Manguezal do Passa Vaca. A criação de um primeiro Centro de Referência do Manguezal nesse parque será de extrema importância e valia para que faça jus aos últimos resquícios de manguezal dessa área metropolitana da primeira capital do Brasil. É um valor imensurável”, conclui o coordenador ambiental da Fundação Vovó do Mangue.
O Parque Municipal do Manguezal do Passa Vaca foi criado formalmente por decreto municipal em 2009, mas a desapropriação da área ainda estava pendente. A Prefeitura investiu R$ 31 milhões para garantir a proteção da área, que possui aproximadamente 19 mil metros quadrados.
“Delimitar e proteger esse território é fundamental para preservar a biodiversidade, fortalecer a resiliência climática e garantir a manutenção dos serviços ambientais prestados pelo manguezal. É um patrimônio natural que precisa ser protegido hoje para continuar beneficiando Salvador e as futuras gerações”, afirma Ivan Euler, secretário de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis).
O Rio Passa Vaca nasce na região de São Rafael, nas imediações de um condomínio residencial, cruza a Avenida Paralela, passa por Patamares e lá deságua no mesmo estuário que o Rio Jaguaribe, próximo à orla.
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