
A presença das garças na praça Batista Campos, no bairro de mesmo nome, passou a exigir uma atuação permanente da Prefeitura de Belém. Além das ações para reduzir a concentração das aves no espaço, o Município também criou uma estrutura específica para atender os animais que se machucam ou são encontrados mortos. A iniciativa uneresgate, atendimento veterinário, reabilitação e destinação adequada das aves, com o objetivo de reduzir os impactos ambientais e sanitários provocados pela superpopulação.
A ação é coordenada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e conta com uma viatura, um biólogo e uma veterinária preparadas para realizar o recolhimento das garças na praça.Em um mês de funcionamento, entre14 de julho e 18 de agosto de 2026, 12 aves foram recolhidase examinadas.Sete foram encaminhadas ainda vivaspara avaliação veterinária, dessas sete,cinco morreram e as outras duas passaram por reabilitação, uma foi devolvida à natureza e uma permanece em recuperaçãono Bosque Rodrigues Alves.

A medida faz parte da força-tarefa iniciada pela Prefeitura em julho para enfrentar a concentração excessiva de garças em Batista Campos. Na ocasião, a Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel) iniciou a lavagem diária da praça , enquanto a Semma passou a desenvolver ações ambientais para estimular a migração das aves para outros espaços urbanos.

Em Batista Campos, os agentes de praça fazem o monitoramento diário do espaço. Ao identificarem uma garça ferida, debilitada ou morta, eles entram em contato diretamente com a equipe da Semma responsável pelo atendimento.
A viatura funciona em horário comercial, de segunda a sexta-feira, com bióloga e veterinária. Em situações que exigem atendimento durante o fim de semana ou quando a equipe municipal não consegue realizar o recolhimento, oBatalhão de Polícia Ambiental (BPA) pode ser acionado pelo 190.
A diretora do Departamento de Gestão de Áreas Especiais da Semma, Ellen Eguchi, explica que a estrutura foi criada a partir das demandas observadas na própria praça.

Ellen destaca que o trabalho não se limita à retirada dos animais.A Prefeitura também acompanha as condições ambientais da praçae atua para reduzir os fatores que favorecem a permanência de uma quantidade elevada de garças no local.

O plano emergencial tem previsão de continuidade porpelo menos um ano e meio, acompanhando a evolução das ações de manejo ambiental na praça.
Quando uma garça é encontrada machucada, o trabalho começa ainda no momento do resgate. A equipe precisa ter cuidado com a contenção, o transporte e o manejo porque o estresse provocado nesses procedimentos pode causar uma condição conhecida como miopatia de captura, uma síndrome grave que pode levar animais silvestres à morte.

Dentro do plano de manejo emergencial, a equipe de fauna da Semma identificou a necessidade de desenvolver um tratamento específico para a miopatia de captura em garças. Segundo Ellen Eguchi,o protocolo elaborado para essas aves é inédito e não há, até o momento, publicação científica sobre esse tipo de tratamento aplicado especificamente às garças.
O procedimento inclui desde o tratamento de suporte para a correção da acidose metabólica, alteração que pode ocorrer em situações de estresse físico intenso, até os cuidados posteriores relacionados aos traumas provocados durante quedas, brigas ou outras ocorrências.

Ao chegarem ao Bosque Rodrigues Alves, as aves passam por avaliação física individual e, de acordo com a condição apresentada, recebem estabilização, medicamentos e exames complementares. O protocolo é aplicado desde a contenção, transporte e chegada ao local de reabilitação, sendo ajustado conforme a resposta de cada animal.
Entre os problemas encontrados nos animais atendidos estãofraqueza muscular, perda de coordenação motora, dificuldade ou incapacidade de voo, baixo escore corporal, lesões traumáticas, fraturas e alterações na cavidade oral, além da presença de ectoparasitas.
A intenção é que a experiência acumulada durante os atendimentos seja sistematizada pela equipe de fauna e transformada em uma publicação científica, contribuindo para o conhecimento sobre o manejo de garças submetidas a situações de estresse, trauma e contenção.
As aves que chegam mortas são acondicionadas e destinadas à Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), onde passam por procedimentos de investigação, incluindo necropsia. Entre os exemplares analisados estão garças das espéciesArdea alba, conhecida como garça-branca ou garça-real, eEgretta thula, a garça-branca-pequena.
O biólogo Eduardo Lobão integra a equipe responsável pelo resgate e explica que o trabalho começa a partir do acionamento feito pelos profissionais autorizados.

Segundo Eduardo,nem todos os óbitos registrados estão relacionados a doenças.Alguns animais chegaram ao atendimento depois dequedas, traumatismos ou disputas entre as próprias aves, especialmente entre filhotes.

Uma das garças que conseguiu se recuperar já foi devolvida à natureza em setembro. O momento marcou uma das etapas mais importantes do trabalho desenvolvido pela Prefeitura: depois de receber tratamento e permanecer em condições adequadas para sobreviver fora do ambiente de recuperação, a ave voltou ao seu habitat.
Outra garça permanece no Bosque Rodrigues Alves, onde recebe acompanhamento da equipe até apresentar condições para uma possível soltura.

Apesar de a Semma manter uma viatura específica para o atendimento na Batista Campos, o acionamento direto do veículonão está disponível para o público em geral. A solicitação deve ser feita por pessoas autorizadas pela Semma, como os agentes que atuam na praça.
Caso qualquer pessoa encontre uma garça ferida, debilitada ou morta,a orientação é não tocar, não tentar capturar e não transportar o animal. A comunicação deve ser feita pelo190, número do Centro Integrado de Operações (Ciop), que encaminha a ocorrência para a equipe ou batalhão responsável pela área.
O resgate é apenas uma das frentes do plano desenvolvido para a Batista Campos. Desde o início da operação, a Prefeitura mantém a limpeza diária da praça , com lavagem das áreas que apresentam maior concentração de dejetos e sujidades.
A Semma também realiza ações de educação ambiental para orientar frequentadores e comerciantes, principalmente sobre a importância de não oferecer alimentos às garças e aos peixes dos lagos.

A grande quantidade de alimento disponível, especialmente a presença de tilápias nos lagos, somada às árvores que servem de abrigo, contribuiu para a permanência das aves no local. A Prefeitura, em parceria com órgãos ambientais, também trabalha em etapas de manejo dos peixes para reduzir os fatores que favorecem a concentração das garças.
A estratégia segue a proposta apresentada pela Prefeitura desde o início da força-tarefa:melhorar as condições de convivência entre a população e a fauna, sem abandonar o cuidado com os animais.
A atuação também considera a possibilidade de as garças migrarem para outros espaços da cidade. Por isso, a Semma mantém o monitoramento e prevê que o serviço de resgate possa acompanhar eventuais mudanças na presença das aves em Belém.

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