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Semas destaca gestão participativa dos recursos pesqueiros durante apresentação de dados do Projeto Águas do Tapajós

Iniciativa fortalece comunidades tradicionais, valoriza o conhecimento local e apoia a revisão do Acordo de Pesca do rio Tapajós

16/05/2026 às 21h15
Por: Redação Fonte: Secom Pará
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Foto: Arthur Sobral/Semas
Foto: Arthur Sobral/Semas

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas) participou da apresentação dos dados do Projeto Águas do Tapajós, iniciativa implementada em 2020 para fortalecer a conservação da biodiversidade aquática e a gestão participativa dos recursos naturais, a partir do envolvimento direto de comunidades indígenas, extrativistas e pesqueiras do oeste paraense.

Representando a Semas, o secretário adjunto de Gestão e Regularidade Ambiental, Rodolpho Zahluth Bastos, destacou que a produção e a publicização de dados sobre a pesca no território do Tapajós contribuem diretamente para o fortalecimento das políticas públicas ambientais do Estado, especialmente no apoio à governança comunitária e à avaliação periódica da efetividade dos Acordos de Pesca.

“Quando o Estado, a ciência, as organizações da sociedade civil e as comunidades se reúnem em torno de dados qualificados, nós damos um passo importante para construir decisões mais justas, transparentes e eficientes. O Acordo de Pesca é uma política pública que nasce da escuta, do conhecimento tradicional e da realidade de cada território. Por isso, o monitoramento realizado no Tapajós fortalece a gestão participativa, valoriza quem vive da pesca e contribui para a conservação dos recursos naturais que sustentam essas comunidades”, afirmou Rodolpho Zahluth Bastos.

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O Projeto Águas do Tapajós reúne ações voltadas ao monitoramento da pesca na área do Acordo de Pesca do rio Tapajós, envolvendo comunidades da Floresta Nacional do Tapajós e da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. A iniciativa possibilitou mapear, reunir e divulgar informações sobre quem pesca, o que pesca, como pesca e em quais períodos a atividade ocorre no território.

Os dados apresentados também traçam um perfil dos pescadores envolvidos no monitoramento. O levantamento aponta que 91% são homens. Entre os participantes, 19% são jovens de até 30 anos, 69% são adultos e 12% são idosos. As informações ajudam a compreender a dinâmica social da pesca no Tapajós e oferecem subsídios para que as políticas públicas considerem diferentes gerações, realidades familiares e formas de permanência na atividade pesqueira.

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O estudo também identificou diferenças entre os territórios acompanhados. Na Flona Tapajós, o perfil aponta pescadores mais velhos, com maior tempo de experiência na pesca e menor escolaridade. Já na Resex Tapajós-Arapiuns, os dados indicam maior presença de jovens, maior escolaridade e melhor infraestrutura básica. Para a gestão ambiental, essas diferenças são essenciais, já que demonstram que cada território possui necessidades próprias e que os Acordos de Pesca devem respeitar a realidade específica de cada comunidade.

Além do perfil social, o monitoramento revelou características importantes sobre a forma como a atividade pesqueira é realizada na região. De acordo com os dados apresentados, 75,5% dos pescadores utilizam canoa a remo, 24,3% usam rabetas ou voadeiras, e apenas 0,14% fazem uso de barcos com motor de centro. O levantamento demonstra a predominância de uma pesca artesanal, de baixa mecanização, diretamente ligada ao modo de vida das comunidades tradicionais do Tapajós.

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As artes de pesca mais utilizadas também reforçam esse perfil tradicional da atividade. Entre os principais instrumentos estão linhas e anzóis, malhadeiras e tarrafas. Em menor proporção, aparecem arpões, arcos e flechas, práticas associadas a formas específicas de captura e ao conhecimento acumulado pelas comunidades sobre os rios, os ciclos dos peixes e os ambientes de pesca.

Para Manoel Pinheiro, presidente do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Oeste do Pará e Baixo Amazonas (MOPEBAM), os dados apresentados fortalecem a voz das comunidades que vivem diariamente a realidade da pesca artesanal.

“Esses dados mostram a realidade de quem vive da pesca artesanal no Tapajós e no Baixo Amazonas. Quando a comunidade participa do monitoramento, ela não está apenas repassando informação, ela está ajudando a construir o futuro da própria atividade pesqueira. Para nós, pescadores e pescadoras, é muito importante que esse conhecimento seja reconhecido, porque ele nasce da vivência no rio, da observação dos ciclos da natureza e da necessidade de garantir o pescado para as famílias de hoje e para as próximas gerações”, destacou Manoel Pinheiro.

A partir desse levantamento, as comunidades passam a contar com informações técnicas e comunitárias capazes de subsidiar a avaliação periódica dos Acordos de Pesca e, se for o caso, apoiar processos de revisão das regras construídas coletivamente. O trabalho também fortalece o protagonismo dos pescadores e pescadoras na defesa de seus modos de vida e na conservação da biodiversidade aquática.

Para Lucilene Amaral, coordenadora de Conservação de Base Comunitária da The Nature Conservancy (TNC), a atuação em rede é essencial para que o ordenamento pesqueiro avance de forma integrada no território.

“Como a TNC tem um papel importante nessa articulação de chamar todos os atores para discutir conjuntamente essa temática, que não é uma temática só dos pescadores, mas envolve as agências do governo, envolve as representações de povos indígenas, por exemplo, que ocupam também esse território. Então, o papel da TNC nessa parceria não é só no apoio de financiamento, mas também no apoio de construção técnica conjunta, criando essas articulações e colocando todos numa rede de atuação dentro do território”, ressaltou.

Lucilene também destacou que a conservação dos recursos naturais depende da participação de todos os atores envolvidos. “A gente acredita que o ordenamento pesqueiro, a pesca sustentável, o bem-estar das comunidades e a atuação das comunidades na conservação dos recursos naturais são fortalecidos quando todos atuam conjuntamente, estão se ouvindo e trabalhando com o mesmo objetivo”, completou.

A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Bianca Bentes, destacou a importância da publicização dos dados para as comunidades. Segundo ela, transformar a vivência dos pescadores em informação organizada permite dar visibilidade às realidades locais e aos desafios enfrentados no território.

“É de importância fundamental, porque quando a gente gera informação, a gente gera dado, a gente gera prova. Prova daquilo que a gente vive, prova daquilo que está acontecendo e dos problemas que também estão acontecendo. Então, basicamente, gerar dados e a pesquisa que foi realizada pela UFPA, em conformidade com a TNC, foi muito importante nesse sentido, principalmente porque protagonizou a essência do pescador e das famílias dos pescadores”, afirmou a pesquisadora.

Bianca Bentes acrescentou que o processo de monitoramento também valorizou a participação das famílias pesqueiras. “A gente envolveu filhos de pescadores no monitoramento, e todo o processo de aquisição de dados foi relativo àquilo que eles vivem diariamente. Então, eu acho que esse foi o maior protagonismo que a gente teve”, completou.

Participaram do evento representantes da Semas, TNC, UFPA, Colônia de Pescadores Z-20 de Santarém, Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Oeste do Pará e Baixo Amazonas, Sapopema, Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Santarém, Tapajoara, Feagle, Federação da Flona do Tapajós, ICMBio, além de lideranças de comunidades indígenas, extrativistas e pesqueiras.

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