
A promoção do diálogo como instrumento essencial para a construção de uma sociedade mais equilibrada, empática e democrática. Essa foi a tônica da reflexão do governador Eduardo Leite em um painel do Festival Fronteiras na manhã deste sábado (31/5), no Palácio Piratini. O encontro também teve participação do cientista político e curador do Festival, Fernando Schuler, e contou com a mediação do jornalista e presidente da Associação Nacional de Jornais, Marcelo Rech.
O Festival Fronteiras, realizado em Porto Alegre pela DCSet, com patrocínio do governo do Estado, reúne pensadores, artistas e formadores de opinião para debater temas centrais da contemporaneidade. Nesta edição, que ocupou diversos espaços em torno da Praça da Matriz, na capital, o evento trouxe painéis, apresentações e palestras voltados a refletir sobre os limites e possibilidades da sociedade na era digital, promovendo encontros entre diferentes áreas do conhecimento.
Logo na abertura, Marcelo Rech destacou como as redes sociais, ao quantificarem e amplificarem opiniões, acabam acirrando ânimos e reforçando bolhas: “As pessoas buscam validação para suas próprias ideias, sem observar ou entender o outro”, afirmou. Segundo ele, esse ambiente digital alimenta o confronto constante, tornando raro o verdadeiro diálogo, em que se escuta para compreender e não apenas para rebater.

O governador Eduardo Leite reiterou que dialogar pressupõe estar “permeável” às ideias alheias. “Sem essa permeabilidade, não há diálogo, mas, sim, monólogo”, ponderou. Ele apontou que, na política atual, o mais comum é usar o momento em que o outro fala para preparar respostas de confronto, em vez de absorver o que é dito. Leite lembrou que, embora seu posicionamento seja de centro, ele defende opiniões firmes — sobre reformas, privatizações e políticas sociais — sem, no entanto, cristalizar suas convicções a ponto de não permitir que outras visões permeiem seu pensamento. O governador também relacionou o fenômeno da desumanização do adversário na arena política com o crescimento da polarização: “Para atacar o outro, é preciso desumanizá-lo. Se você percebesse o adversário como humano, teria mais dificuldades de destruí-lo”.
Schuler aprofundou a análise sobre o impacto da era digital na dinâmica do debate público. Para ele, vivemos uma transição semelhante àquela provocada pela imprensa de Johannes Gutenberg. “A tecnologia deu poder ao indivíduo de forma inédita, mas também trouxe intolerância e censura veladas”. Schuler citou estudos norte-americanos que identificam que, enquanto grupos radicais — progressistas ou conservadores — registram até 80% de engajamento nas redes, a maioria silenciosa, mais moderada, quase não participa. “O debate público parece mais radical porque é colonizado pelos segmentos mais extremistas. No cotidiano, porém, grande parte da sociedade é silenciosa e mais centrada”, explicou. Ele ainda ressaltou o “viés da negatividade”: conteúdo negativo gera 2,3 vezes mais engajamento do que postagens equilibradas ou positivas, criando incentivo econômico para o confronto.
A partir dessas reflexões, Leite e Schuler discutiram como a atração de audiência nas redes sociais se tornou moeda política. O governador observou que, para quem está no Executivo, o desafio de dialogar é ainda maior, pois a oposição tende naturalmente ao embate. “Campanhas políticas mais reflexivas têm menos audiência do que discursos confrontacionais”, disse. Já Schuler sublinhou a necessidade de compreender o fenômeno da “espiral de polarização”: quando pessoas que compartilham a mesma visão se reúnem online, reforçam suas crenças e radicalizam-se ainda mais.
Ao final, os debatedores concordaram que, embora a polarização seja um “destino” da era digital, é possível mitigar seus efeitos por meio de uma política que valorize o centro, a escuta ativa e instituições sólidas. Leite lembrou ser fundamental que a política ofereça respostas para as dores reais da população e não apenas identifique culpados, pois “soluções para problemas complexos são sempre mais difíceis do que apontar vilões”. Schuler reafirmou que, mesmo em meio à multiplicação de vozes nas redes, as instituições e a imprensa precisam manter “soberania sobre as regras do debate” e não sucumbir ao caos digital.
O painel evidenciou que, na sociedade contemporânea, promover o diálogo exige esforço consciente para superar a desumanização do outro e lidar com os incentivos estruturais das redes sociais. Ainda que a polarização pareça inescapável, a esperança reside na construção de pontes que levem em conta a diversidade de perspectivas e no fortalecimento de espaços de escuta — sejam físicos ou virtuais — que tornem o encontro possível.
Texto: Carlos Ismael Moreira/Secom
Edição: Secom
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