
No próximo dia 10 de abril, o ME Ateliê da Fotografia — localizado em Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, lança a exposição gratuita 'Maria Stella de Azevedo Santos — Meu Tempo é Agora', em homenagem ao centenário de nascimento da ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, enfermeira e escritora eleita por unanimidade para a Academia de Letras da Bahia.
Integrando o projeto IMORTAIS — Reverberando histórias, culturas e saberes, a mostra estará disponível para visitação de 11 de abril a 31 de maio, sempre das 16h às 19h, reunindo obras de 30 artistas convidados, além de livros e fotografias que retratam a trajetória de Mãe Stella. A programação especial conta também com exibição de documentários, oficinas e rodas de conversa sobre o papel fundamental da ialorixá na preservação e difusão do candomblé e da cultura afro-brasileira no Brasil e no mundo.
De acordo com o fotógrafo, artista plástico e curador da exposição, Mário Edson, é de extrema relevância ter Mãe Stella como homenageada no projeto IMORTAIS, em 2025. Projeto esse que desde 2019 reverência, figuras emblemáticas da arte e cultura, e que ao longo dos anos já homenageou personalidades como Frida Kahlo, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, José Saramago, Milton Nascimento e o cinema, com tributos a Marlon Brando e Marcello Mastroianni.
“Ela teve um impacto significativo na sociedade brasileira, sendo reconhecida também fora do país. Essa exposição é um tributo e um reconhecimento pelo legado que Mãe Stella deixou para a humanidade e, principalmente, para o povo de candomblé. Ela é um divisor de águas. O candomblé era uma coisa antes e se transformou depois dela”, explica o fotógrafo.
A religião de matriz africana, o candomblé exerce uma influência profunda na cultura e no cotidiano da sociedade brasileira, sendo praticado por milhões de pessoas. Segundo dados do IBGE, a população que se declara adepta de religiões afro-brasileiras cresceu nos últimos censos, refletindo uma maior valorização da identidade e da cultura negra no país. Além disso, estudos apontam que os terreiros de candomblé desempenham um papel essencial na economia das comunidades onde estão inseridos, movimentando mercados locais, gerando empregos e promovendo ações sociais.

Mãe Stella de Oxóssi: fé, sabedoria e resistência na cultura afro-brasileira.
Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida como Mãe Stella de Oxóssi, foi a quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, um dos terreiros de candomblé mais importantes da Bahia. Iniciada aos 14 anos por Oxóssi, uma ialorixá viveu 80 anos dentro do Candomblé e liderou uma casa por mais de quatro décadas. Sacerdotisa e profunda conhecedora dos cultos e tradições religiosas africanas, também se destacou como intelectual, escritora e defensora da cultura afro-brasileira.
Sua atuação transcende os limites do terreiro, alcançando a literatura, a educação e a saúde pública. Quando jovem, formou-se em enfermagem e exerceu a profissão por cerca de 30 anos, sempre mantendo o compromisso com o cuidado e o conhecimento.
Reconhecida por sua sabedoria, dedicação e compromisso com a difusão das crenças e tradições do candomblé, a ialorixá recebeu diversos títulos honoríficos ao longo de sua trajetória. Em 2025, foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) , honraria também concedida pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) em 2009. Além disso, recebeu distinções como a Comenda Maria Quitéria, a Ordem do Cavaleiro e a Ordem do Mérito, concedidas pela Prefeitura de Salvador, pelo Governo da Bahia e pelo Ministério da Cultura, respectivamente.
Em 2013, foi eleito por unanimidade para a Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira de número 33, cujo patrono é o poeta Castro Alves. Ao longo da vida, publicou nove livros, entre eles “Meu tempo é agora” e “Òsósi — O Caçador de Alegrias”, consolidando-se como uma das grandes vozes da literatura afro-brasileira.
Sua dedicação à memória e ao conhecimento também se refletiu na criação do primeiro museu aberto em uma casa de candomblé na Bahia, localizada no Ilê Axé Opô Afonjá. O espaço preserva vestimentas e objetos das mães de santo da casa e dos orixás, oferecendo aos visitantes um mergulho na história e na tradição do candomblé. Mãe Stella faleceu em dezembro de 2018, aos 93 anos, deixando um legado inestimável para a cultura brasileira.
Sua trajetória é um reflexo do protagonismo feminino e negro, desafiando barreiras e reafirmando o poder da mulher preta na preservação e promoção de suas raízes culturais. Mãe Stella foi uma líder que não apenas preservou tradições ancestrais, mas também colocou a mulher negra no centro de debate sobre cultura, religiosidade e identidade. Sua força e influência continuam reverberando como um exemplo de resistência e empoderamento.
A exposição realizada pelo ME Ateliê da Fotografia, sediado no bairro histórico de Santo Antônio Além do Carmo, reforça a importância de sua história. O espaço tem se consolidado como um pólo de resistência e celebração da arte e da memória cultural, e a homenagem à ialorixá reafirma seu compromisso em valorizar legados que marcaram a história.
“As homenagens são releituras e inspirações baseadas na vivência dela, seu universo e sua literatura. Celebrar o seu centenário por meio da arte é uma forma de reafirmar a sua importância e garantir que sua história continue reverberando. Essa mostra é um convite para que novas gerações conheçam e se inspirem na trajetória de Mãe Stella de Oxóssi”, conclui Mário Edson.
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