
Quando se fala em Segurança Pública, nota-se a tendência em se pensar apenas na resolução de crimes. Vale lembrar que existem outras variáveis que norteiam as estatísticas e envolvem a segurança da população. Dentro desse contexto, pode-se incluir incêndios e salvamentos. Esse tipo de ocorrência é muito mais comum do que imaginamos. Em 2021, o Estado do Ceará registrou 9.402 incêndios, o que significa que o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE) realiza cerca de 26 atendimentos por dia.
A Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), vinculada à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE), entre outras funções como armazenamento de dados e estatísticas, trabalha desenvolvendo soluções tecnológicas para otimizar a segurança pública do Ceará. Dentro da Diretoria de Estratégia em Segurança Pública da Supesp (Diesp/Supesp) foi pensada uma ferramenta para incrementar o atendimento do CBMCE: o Sistema de Georreferenciamento Operacional (Sigo).
O Sigo foi idealizado pelo tenente-coronel do CBMCE e assessor da Supesp, Ricardo Catanho, e pelo geógrafo e também assessor da Supesp, Flávio Moreira. A ferramenta tecnológica nasceu de uma mistura de conhecimento interdisciplinar com a vontade de sanar problemas, a fim de salvar vidas. “A ideia era solucionar um problema antigo do CBMCE: localizar os hidrantes de forma rápida e eficiente. Antes do Sigo, a gente precisava contar com algum agente de segurança que conhecesse essa localização”, explicou Catanho, que tem doutorado em Políticas Públicas e é especialista em Defesa Civil.

Saber a localização dos hidrantes sem dar chance à imprecisão gera rapidez nos atendimentos das ocorrências. No caso de incêndio, o tempo reduzido na operação pode significar menos prejuízo material e preservação da vida. O Sigo vem sendo utilizado pela SSPDS desde 2019 e chamado atenção no Brasil e no exterior. A ferramenta desenvolvida pela Supesp conquistou, em 2021, o terceiro lugar no 6º prêmio Internacional de Gestão por resultados promovido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), na categoria ‘Monitoramento e avaliação, províncias e estados’, sendo o único representante do Brasil.
Além disso, o Sigo foi o ganhador da Medalha do Mérito Funcional do Governo do Estado do Ceará e selecionado como caso de sucesso para uma palestra internacional no Seminário Internacional da Rede de Governos Subnacionais (Rede), que agrega países da América Latina e Caribe, promovido pelo BID, envolvendo gestores e especialistas em segurança pública de diversas partes do mundo.
“O Sigo foi desenvolvido totalmente dentro da Diesp/Supesp. Um resultado de uma proatividade, do pensar e do agir”, concluiu Catanho, que está desde 1992 no CBMCE e hoje assessora as atividades de estratégia promovidas pela Supesp. Conversamos com o tenente-coronel para entender melhor o funcionamento do Sigo, quais resultados a ferramenta tem gerado para a Segurança Pública do Ceará e quais novidades vão surgir.

Catanho – Levando em conta a minha experiência de quase 30 anos no Corpo de Bombeiros e somando ao planejamento de conhecimento estratégico, que foi somado a alguns conhecimentos de georreferência do assessor da Diesp/Supesp, Flávio Moreira, desenvolvemos a construção do Sigo. Essa ferramenta tecnológica foi desenvolvida para solucionar um problema antigo do Corpo de Bombeiros: localizar de forma rápida e eficiente os hidrantes. Isso pode parecer algo simples, mas influencia e muito no resultado da operação. Sabendo precisamente onde está o hidrante, o agente ganha tempo e consequentemente ameniza prejuízos materiais e aumenta as chances para salvar vidas. Isso se explica, pois, em incêndios de grandes proporções, se eu demoro a recarregar a água de uma viatura, consequentemente eu demoro mais no combate ao fogo. Antes dependia apenas do conhecimento do agente de segurança. Com o Sigo não existe mais isso.
Catanho – Outro problema que identificamos ao longo dos anos foi a dimensão das vias. Nós temos viaturas de grande porte e nem sempre aquelas vias perto da ocorrência cabia às viaturas. Isso só era verificado quando se chegava lá, o que resultava em perda de tempo e perda de tempo pode ser perda de vida. Isso está solucionado. É importante frisar que posso ter situação de crimes que a pessoa bota fogo na casa, isso envolve outras Forças de Segurança na mesma ocorrência e ter a equipe mais adequada, assim como a rota, já pode otimizar bastante o atendimento. Eu posso usar o Sigo pra vários tipos de ocorrências, não só incêndio, mas como salvamento e tentativas de suicídio, por exemplo.
Catanho – Quando há a ocorrência a Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops) é acionada. O operador da Ciops tem na frente dele a tela do computador, onde o Sigo é operado. Com a localização do incêndio é possível saber, por georreferenciamento, quais as vias estão próximas, onde estão, também, os hidrantes mais próximos, além de identificar qual unidade do CBMCE é a mais viável para o atendimento. A identificação disso tudo ocorre em segundos com apenas alguns cliques na tela. A rota da viatura até o incêndio é traçada de forma precisa e sem margem de erros.
Catanho – O Sigo é um sucesso. Além de todos os problemas citados e resolvidos, procuramos algo de baixo custo e viável. A operacionalidade dele nos deu visibilidade nacional e internacional. Nós já tivemos contatos dos bombeiros dos estados do Pará e Piauí, além do México. Isso é importante para a gente, porque com futuros estudos podemos avaliar as peculiaridades de cada local pra posterior instalação. Além disso, na própria SSPDS podemos utilizar o modelo do Sigo em outras vinculadas de segurança, por exemplo, em relação aos locais de ocorrências voltadas para área da Polícia Civil, conhecendo a localização exata das delegacias. Pode ser, também, em termos de rota, de raio de atuação e fazer uma leitura das delegacias que vão ou não estar de plantão naquele momento.
Catanho – Em função do sucesso da 1ª versão, bem como das necessidades que vão surgindo e pensadas, a gente começou a desenvolver outros atributos para o Sigo crescer. Fizemos o projeto em parceria com a Coordenadoria de Tecnologia da Informação e Comunicação (Cotic) da SSPDS para colocar o projeto em prática, com o objetivo de colocar mais facilidade na gerência das ocorrências. Posteriormente, vamos ter o georreferenciamento de todas as ocorrências que o Sigo atender, para subsidiar o desenvolvimento de mapas e estudos. Expectativa é que a versão 2.0 do Sigo seja lançada ainda em 2022.
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