
Psicólogos já atuam em unidades da Atenção Primária e no Centro de Especialidades Integradas; de janeiro a julho deste ano, mais de 1,8 mil atendimentos foram realizados nas unidades básicas
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS), vem ampliando o acesso da população aos serviços de saúde mental na rede pública. A expansão do atendimento psicológico na Atenção Primária à Saúde, realizada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Saúde da Família (USF), já está em andamento e conta com profissionais atuando em diferentes núcleos do município. A proposta é aproximar o serviço da população, permitindo que as demandas sejam identificadas e acompanhadas desde os primeiros sinais, com encaminhamento para outros pontos da rede quando necessário.
Segundo Ângela Assunção, diretora da Atenção Básica da SMS, no início da gestão, em 2025, o município não contava com psicólogos inseridos diretamente na Atenção Primária. A partir da contratação de novos profissionais, o serviço começou a ser ampliado para diferentes territórios.
“Hoje nós melhoramos muito o atendimento psicológico na Atenção Básica. Anteriormente, no início da gestão de 2025, nós estávamos sem nenhum psicólogo na Atenção Primária e atualmente nós temos psicólogos em unidades dos núcleos Cidade Nova, Nova Marabá, São Félix e Morada Nova”, explica.


A expansão deve continuar. De acordo com a diretora, novos profissionais estão sendo contratados para ampliar a cobertura em diferentes unidades, com previsão de atendimento também nas unidades Mariana Moraes, na Nova Marabá, Maria Bico Doce, no São Félix, e Edivan Xavier, no bairro Araguaia.
Para Ângela, a presença do psicólogo na Atenção Primária é importante porque permite que o cuidado comece próximo ao território onde o usuário vive. “Na Atenção Primária é onde começa o primeiro atendimento do usuário. Então, se ele começa já fazendo esse acompanhamento psicológico, ele começa a fazer esse tratamento e, consequentemente, não vai evoluir para algo mais grave. É muito importante o psicólogo na APS”, destaca.
Atendimento começa pela unidade de referência
Para chegar ao atendimento psicológico, o usuário deve procurar a unidade de saúde responsável pelo seu território. Após avaliação de um profissional de saúde e o devido encaminhamento, o paciente passa pela Central de Regulação, que realiza o agendamento em uma unidade que disponha do serviço. Isso significa que o morador pode ser atendido em outra unidade, caso o local onde é acompanhado ainda não tenha psicólogo.
Na USF Laranjeiras, por exemplo, a psicóloga Gabriely Rosa atende pacientes encaminhados de diferentes unidades da região. Contratada em abril, ela atua há cinco meses no serviço e acompanha, em média, oito pessoas por dia. “Para uma pessoa ser atendida por um psicólogo nas unidades de saúde, ela tem que passar antes pelo médico, que vai fazer esse encaminhamento. A pessoa regula e chega ao atendimento psicológico”, explica.


Segundo Gabriely, o atendimento dura, em média, entre 30 e 40 minutos e pode envolver tanto o acompanhamento individual quanto a articulação com outros serviços da rede. “Algumas pessoas não vão precisar apenas de um atendimento individual. Elas vão precisar de encaminhamentos para outros setores, da saúde ou da assistência social. Então é toda uma rede que se articula para dar suporte para alguns casos também”, afirma.
Além dos atendimentos individuais, a profissional desenvolve atividades coletivas. Entre elas estão ações de prevenção em saúde mental com grupos de idosos, em parceria com o Cras Bela Vista.
“O próprio atendimento individual inicia muito numa tentativa de orientação, buscando identificar quais são as questões daquele paciente e tentar orientar de forma primária algumas questões. Se for um caso mais agravado, existem também outros serviços da rede que a gente indica para que essa pessoa também possa ter um suporte”, explica.
Na USF João Batista Bezerra, o psicólogo Daniel Mourão também destaca a diversidade das demandas recebidas. Há cinco meses na unidade, ele realiza oito atendimentos por dia, de segunda a sexta-feira, das 7h às 13h. “Tem várias demandas, desde criança até idoso. Então é bem variado nosso atendimento e, graças a Deus, tem sido muito proveitoso”, relata.


Para o profissional, a presença dos psicólogos nas UBS e USFs contribui para ampliar o acesso e atender uma demanda que cresceu nos últimos anos. “No nosso município a gente tem uma grande demanda em relação à questão do serviço de saúde mental. Ter os psicólogos inseridos nas USFs e UBSs tem sido de grande ajuda, até para desafogar um pouco da fila, para dar um melhor suporte para a população”, afirma.
Entre os serviços que integram essa rede de saúde mental estão o Ambulatório Especializado em Saúde Mental (Ament) e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Mesmo quando o paciente é encaminhado para outro equipamento, o acompanhamento pode continuar na unidade de origem. “Se ele for da nossa região, da nossa localidade, aqui da estratégia da família, a gente vai continuar acompanhando, fazendo o retorno para ver se ele tem evoluído no tratamento. A gente não deixa o paciente desassistido”, ressalta.
Atendimento psicológico no CEI
Além da expansão na Atenção Primária, Marabá mantém atendimento psicológico no Centro de Especialidades Integradas (CEI), que há 12 anos oferece o serviço. Atualmente, a unidade conta com cinco psicólogos, sendo três clínicos e dois neuropsicólogos.
O psicólogo José Abdon de Holanda atua no CEI desde 2017 e explica que o atendimento começa pela escuta e avaliação do paciente. A partir dessa primeira consulta, é definido se há necessidade de acompanhamento terapêutico. “Eu faço a escuta dele, que é a consulta. Após isso, verifico se ele precisa fazer uma terapia. Se eu concluir que ele precisa, ele vai fazer terapia até resolver o problema e ficar de alta”, explica.


José realiza mais de dez atendimentos por dia, entre novas consultas e retornos. Segundo ele, o tratamento individual tem, em média, dez sessões, embora a quantidade possa variar de acordo com a necessidade de cada paciente.
Para explicar o papel da psicoterapia, o profissional utiliza uma metáfora. “É como se o mundo fosse um trilho e você fosse um trem. Você vai caminhando e, em certos momentos, está fora do trilho. Às vezes percebe, às vezes não. E quando percebe ou quando alguém aponta, o psicólogo está ali para te ajudar a voltar para o trilho. Mas esse trilho não é um padrão para se seguir. O trilho é você se sentir bem para poder viver a vida”, afirma.
Entre os usuários do serviço está a professora Jéssica Ibiapino, que realiza acompanhamento psicológico no CEI desde 2018. Para ela, a terapia contribui para o enfrentamento de situações do cotidiano e para o cuidado com a saúde mental.
“Eu vi que precisava dessa ajuda profissional, porque chega um momento em que, sozinho, você não consegue. Então, tem me ajudado e eu sempre indico. Todo mundo precisa desse tempo, porque a terapia vai te ajudar a organizar as emoções, os seus sentimentos, estruturar a rotina, entender o próprio ritmo, o alívio do estresse e combater também algumas questões que a gente não consegue só”, relata.


Jéssica também destaca a importância de ampliar o acesso ao atendimento psicológico para diferentes faixas etárias e em diferentes espaços da rede pública. “Sem a saúde mental, a gente não chega longe. É uma necessidade, de fato. É importante tanto nas UBSs quanto nas instituições escolares. Nós lidamos com várias questões e o profissional da saúde mental está ali para esse momento de escuta e até para prevenir alguns casos mais difíceis”, afirma.
Para ela, a psicoterapia também representa um espaço de escuta e autoconhecimento. “É um lugar seguro para desabafar, para ajustar o que está realmente fora dos trilhos. Além de alguns casos com medicação, a terapia, a psicoterapia, ajuda porque você é ouvido naquele momento, recebe um direcionamento e consegue analisar coisas que, no dia a dia, na sua rotina, estão atrapalhando. Entender e se autoconhecer, eu acho que isso é o principal”, destaca.
Procura pelo serviço cresce
A ampliação da oferta de atendimento acompanha o aumento da procura da população. Em 2025, foram registrados 383 atendimentos psicológicos na Atenção Primária. De janeiro a julho de 2026, o número chegou a 1.863 atendimentos.
Para Ângela Assunção, os números mostram a importância de ampliar a oferta e também indicam que mais pessoas estão buscando ajuda profissional. “A demanda é muito grande ainda de psicólogos, mas também há o preconceito. Algumas pessoas têm vergonha, têm medo de procurar, achando que só se procura quando está doida. Mas não é essa a ideia. É justamente na Atenção Primária que tudo precisa começar”, ressalta.
A diretora reforça que a saúde mental deve ser tratada como parte do cuidado integral com a saúde. “A saúde mental é basilar. Sem a saúde mental, a pessoa não consegue fazer as suas outras atividades laborais, porque ela precisa estar bem psicologicamente. É muito importante ter esse serviço oferecido mais próximo da população para que ela tenha acesso”, afirma.
A Prefeitura continuará trabalhando na ampliação desses atendimentos, considerando o crescimento do município e a necessidade de fortalecer os serviços oferecidos à população, fortalecendo a prevenção, o acompanhamento e os encaminhamentos dentro da rede municipal de saúde.




Texto: Fabiana Alves
Fotos: Paulo Sérgio Santos
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