
Aprender, se comunicar e construir relações por meio da própria língua. Para estudantes surdos da rede pública municipal de ensino, a educação bilíngue de pessoas surdas representa mais do que uma forma de ensinar conteúdos: é uma maneira de garantir acesso à educação, respeitando a língua, a identidade e a cultura.
No dia 23 de setembro, quando é celebrado o Dia Internacional das Línguas de Sinais, a experiência desenvolvida na Escola Municipal Padre Brandão Lima mostra como a Língua Brasileira de Sinais (Libras) pode fazer parte de toda a rotina escolar e aproximar estudantes surdos e ouvintes.
Na educação bilíngue, a Libras é considerada o primeiro idioma do estudante surdo, enquanto o português é trabalhado como segunda língua, principalmente na modalidade escrita, sendo ambas utilizadas para o processo de ensino-aprendizagem, bem como o aprendizado dos conteúdos escolares.
Aprender em Libras
Na Escola Municipal Padre Brandão Lima, os estudantes surdos participam das aulas com os professores e contam com intérpretes de Libras para fazer a mediação da comunicação. Eles também recebem atendimento na Sala de Recursos, por meio do Atendimento Educacional Especializado Bilíngue, duas vezes por semana. No espaço, os conteúdos e as atividades são adaptados de acordo com o nível de aquisição da Língua Brasileira de Sinais e as necessidades de cada estudante.
A professora responsável pelo Serviço de Atendimento Educacional Especializado Bilíngue, Kelly Silvestre, explica que os estudantes chegam à escola com diferentes níveis de conhecimento da Libras.
"Alguns já são fluentes em Libras. Outros ainda estão começando a adquirir a língua e, em alguns casos, também estão iniciando o processo de reconhecimento da própria identidade, enquanto pessoas surdas. Por isso, o trabalho não se resume ao conteúdo escolar. A educação bilíngue também ajuda o estudante a compreender sua própria forma de comunicação e a se reconhecer dentro da cultura surda", explica.
Ouvintes também aprendem
Um dos diferenciais do trabalho realizado na escola é que a Libras não fica restrita aos estudantes surdos e aos profissionais especializados. Os alunos ouvintes também são estimulados a aprender sinais para estabelecer uma comunicação direta com os colegas surdos. Desde 2022, a escola desenvolve ações para inserir a língua de sinais no cotidiano das turmas. Sinais como “bom dia”, “boa tarde”, “obrigado”, “vamos brincar” e “hora do intervalo” ficam disponíveis nas salas para que os alunos possam aprender e utilizar no dia a dia. A ideia é que a comunicação aconteça de forma cada vez mais natural.
A diretora-geral da escola, Juliana Lessa de Freitas, reforça que a Libras está presente em diferentes situações da rotina escolar, desde as aulas até o intervalo e os eventos realizados pela unidade de ensino. Quando há uma apresentação musical, uma peça teatral ou outra atividade coletiva, a escola organiza a equipe de acessibilidade em Libras para garantir que os estudantes surdos possam acompanhar e participar, o que torna a Libras parte da cultura da escola.
Para a diretora escolar, a educação bilíngue de surdos deveria começar ainda na creche, na Educação Infantil, permitindo que a criança surda tenha contato com a Libras, desde os primeiros anos de vida.
"O objetivo é que ela chegue aos anos seguintes da escolarização com uma base linguística que contribua para o aprendizado, para a comunicação e para a construção da identidade. Quanto mais cedo esse contato acontece, maiores são as possibilidades de a criança desenvolver sua comunicação e estabelecer relações com outras pessoas por meio da Libras", afirma Juliana.
Para aprender e se expressar
Para Kelly Silvestre, respeitar a educação bilíngue é reconhecer que o estudante surdo possui uma língua própria e tem o direito assegurado de se comunicar e de interagir socialmente. "A Libras é utilizada para que ele possa compreender conteúdos, expressar ideias, fazer perguntas, interagir com professores e colegas e participar da vida escolar", destaca.
Segundo Kelly, os conteúdos trabalhados na Sala de Recursos são adaptados de acordo com o perfil de cada estudante, sempre buscando garantir que ele tenha condições de acompanhar o processo de aprendizagem.
Família também precisa aprender
O aprendizado da Libras não precisa ficar restrito à escola. As famílias dos estudantes são convidadas periodicamente para acompanhar o desenvolvimento e a escolaridade dos filhos. A escola também incentiva os responsáveis a aprender Libras para que possam se comunicar com as crianças dentro de casa. A participação da família é considerada importante, justamente porque a comunicação em Libras precisa estar presente em diferentes espaços da vida do estudante.
A educação bilíngue também leva em consideração que não existe um único perfil de estudante surdo, com níveis diferenciados do uso da Língua Brasileira de Sinais, que convivem com os demais alunos com necessidades educacionais diversas. Por isso, a relação ensino-aprendizagem é individualizada.
Com o aprendizado da Libras pelos alunos ouvintes, a comunidade escolar constrói um ambiente mais acessível. Uma conversa no intervalo, uma brincadeira ou uma atividade em grupo pode deixar de depender exclusivamente da presença de um intérprete.
“A Libras passa a circular pela escola. É nesse ponto que a educação bilíngue ultrapassa a ideia de apenas oferecer um atendimento especializado. Ela cria um ambiente em que diferentes formas de comunicação podem coexistir”, finalizou Kelly.
Formação em Libras para professores e profissionais
A escola oferece formação em Língua Brasileira de Sinais para professores e demais profissionais da Padre Brandão Lima, ministrada professora de Libras, Meire Pereira. O curso visa ampliar o conhecimento dos profissionais que fazem parte da rotina dos estudantes, favorecendo uma comunicação mais acessível nos diferentes espaços da escola.
A iniciativa também contribui para que o contato com a Libras não fique restrito às aulas ou à atuação dos profissionais especializados, mas faça parte do cotidiano escolar.
A formação dos profissionais é compreendida como uma estratégia importante para a consolidação de uma comunicação acessível, na qual professores, estudantes e demais trabalhadores da escola possam ampliar suas possibilidades de interação com os estudantes surdos.
Em 2026, três unidades de ensino da rede pública municipal contam com educação bilíngue de pessoas surdas. Além da Padre Brandão, as escolas municipais Carmelita Gama e Professora Maria José Carrascosa.
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