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Cultura Crônica de Domingo

Milagres que vivi 01: A paulista e o anel africano

Por Paloma Amado

11/01/2026 às 11h34
Por: Colunista Fonte: Paloma Jorge Amado
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Foto: Arquivo Pessoal / Paloma Amado
Foto: Arquivo Pessoal / Paloma Amado

Tocou a campainha na rua Alagoinhas. Beatriz Costa, a atriz portuguesa que era nossa hóspede, atendeu a porta, estava sozinha em casa. A senhora paulista procurava por Jorge Amado, precisava que ele lhe indicasse onde estava seu anel. Que coisa mais doida essa, pensou Beatrizinha. Me explique melhor, minha senhora. A paulista estava nervosa demais para relatar a história com alguma coerência. Cheguei de São Paulo há uma semana, já volto amanhã, só hoje soube quem era o intelectual importante, preciso saber do anel... Desesperada com a notícia de que ele não estava e só voltaria muito mais tarde, despediu-se de Beatriz com um Eu sou mesmo azarada, minha vida não tem solução, e foi embora.

Soubemos da história dela depois. Com a vida toda atrapalhada, sem dinheiro e problemas familiares, a costureira da periferia de São Paulo tentara de tudo, acabou numa sessão de Umbanda, religião de sua vizinha. No terreiro, logo baixou uma Pomba-Gira que a abraçou e disse para ir imediatamente a Salvador, procurar ali o intelectual mais importante, que ele lhe diria onde encontrar um anel africano que iria abrir seus caminhos, clarear seu tempo. Ela, mesmo sem acreditar muito, vendeu o que ainda restava, inclusive sua máquina de costura – o ganha-pão – comprou uma passagem de ônibus para a Bahia, alugou quarto numa pensão em São Bento. Voltaria em uma semana, o dinheiro não dava para mais que isso. Nesse meio tempo teria de descobrir quem era esse tal de intelectual, falar com ele, descobrir o paradeiro do anel e tomar posse do seu amuleto. Era uma prebenda difícil.

Naquele mesmo dia, depois de levar cinco para descobrir que o tal intelectual podia ser Jorge Amado, descobrir seu endereço, ir até lá e ele não estar, perdera completamente as esperanças. Voltou para a pensão, onde os hóspedes, amigos recentes condoídos com sua situação, esperavam ansiosos. E aí? Nada, minha vida é mesmo um desastre. Estavam formando um grupo para ir naquela noite ao Axé do Opô Afonjá assistir à festa de Oxóssi. Tanto fizeram que a convenceram a ir também, cerimônia linda, não vá desperdiçar sua última noite em Salvador.

Ao desembarcar no terreiro, a primeira pessoa que o grupo avistou foi papai. Olha ali o Jorge Amado! Ele é Obá de Xangô e filho de Oxóssi! Só podia estar aqui. A paulista não perdeu um só segundo, partiu para ele. Beatriz viu a cena e disse para papai ser aquela a senhora que estivera em casa. Jorge Amado, cadê o meu anel africano? Ela perguntou na tampa, sem dizer boa noite. Assim como a pergunta, a resposta veio direta: Pergunte a Camafeu de Oxóssi, que está passando aí ao seu lado. Ele sabe. Ela partiu célere: Camafeu, cadê o meu anel africano? Ela perguntou já puxando da bolsa um desenho que a Pomba-Gira fizera. Camafa olhou o desenho. Está comigo! Recebi uma partida de anéis da África nessa semana e guardei ele para mim. A mulher desabou, amparada pelo grupo de amigos. Combinaram a ida dela ao Mercado Modelo na manhã seguinte, quando Camafeu, que tinha ali uma barraca de produtos de candomblé, lhe daria a solução de sua vida.

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Nunca mais soubemos dela. Quando penso no assunto, imagino que seus problemas se resolveram, ela saiu vitoriosa. Também nunca soube porque papai indicou Camafeu, sem fazer nenhuma pergunta à senhora, nem conhecer sua história. Anel africano, minha filha, é com Camafeu... E ele estava passando do lado bem naquela hora. Arrematava: Milagres do povo da Bahia.

Bom domingo a todos.

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