
Crônica de domingo, 21 de setembro de 2025.
Por: Paloma Amado.
Sexta-feira acordei cedíssimo, pois precisava arrumar a malinha com livros, uma camisola e escova de dentes, para sair com seu Deividesson rumo a Santa Teresinha, linda cidade baiana, ao lado de Castro Alves. Ele passaria às 7.30 e eu, como sou avexada, às 4 hs já estava pegando a malinha, para horror de meus gatos. Já arrumada e de café tomado, tive tempo de desenhar umas flores de zafferano, para o novo projeto de livrinho artesanal que estou fazendo. Partia para participar da I Feira do Livro de Santa Teresinha, a FLISTER.
Fui a primeira a ser pega, depois passamos na casa de Aldri Anunciação, depois de Sulivã Bispo e, finalmente, na de Rosania Sacramento. Neste périplo pelos bairros de Salvador pude conhecer o bairro de Narambira, gostei bastante. Os três companheiros de viagem falaram na própria sexta-feira sobre Lázaro Ramos, o grande homenageado do Festival. Amei saber do projeto que Rosania, há anos, desenvolveu com seu primo Lázaro, para formação de hábito de leitura e distribuição de livros pelas escolas. Formar leitores é tarefa árdua e sempre urgente. Ganhamos estrada e na hora do almoço chegamos à cidade. Era uma festa! Fomos diretos ao Projeto Mafuá, repleto de jovens animados, comendo uma feijoada de sustânça para enfrentar o dia de literatura, arte e saber que se apresentava.
O Projeto Mafuá foi criado por Danilo Santana, e reune em casa ampla uma biblioteca de mais de mil livros, cursos como o de teatro. Foi ele quem criou e mergulhou a fundo no projeto de uma Feira Literária que realizou com grande competência. Parabéns, Danilo.
Veio à Bahia para a FLISTER a escritora Socorro Acioli, minha querida amiga, autora de "A cabeça do santo", livro que todo mundo deveria ler. Ficamos no mesmo Hotel Fazenda Bastião, uma delícia, cheio de gente. Lá conhecemos Maria Neri, escritora de 10 anos, sua mãe Carla, sua professora de Teatro Maryse, que estava com o marido Uilson e a cadelinha Valentina! Pude ensinar a Maria a fazer um livrinho artesanal. Esta foi minha primeira atividade na Flister.
Na Praça toda engalanada, a mesa de Socorro veio primeiro, com mediação de Felipe Costa. Perguntada sobre quando soube que finalmente era uma escritora, contou uma história emocionante. Um dia foi contactada por uma professora responsável por programa de leitura em presídios, que queria convidá-la a ir ao presídio de segurança máxima de Vila Velha. O programa propõe uma diminuição de pena de 4 horas por livro lido pelo presidiário, numa quantidade máxima de 3 por mês. Neste presídio ""A cabeça do Santo" teve um número máximo de pedidos (60 contra 4 a 6 de outros títulos), os próprios presidiários fizeram um abaixo-assinado solicitando a presença da autora para uma conversa. Eram todos condenados por crimes hediondos, e Socorro aceitou mesmo assim. Um dos presidiários lhe contou nunca ter lido um livro antes, e que só leu o seu porquê um colega de cela, a seu lado, lia com grande prazer, rindo e comentando cenas. "Li a primeira página, entendi tudo. Li a segunda, também entendi. A terceira, a quarta..." Quando a luz apagava para dormirem e ele não podia continuar lendo, fechava os olhos e rememorava o que lera. Contou então, que quando começou a ler pela segunda vez (leu o livro 3 vezes em seguida) se deu conta que algum botão ligara em seu cérebro e que ele começara a pensar! Respondendo à pergunta, Socorro disse ter sido esse o momento mais importante para saber que era uma escritora. Prêmio melhor que esse ela nunca recebeu.
Fui às lágrimas, assim como me comoveram a moça que explicou estudar história, porque assim aprendera a vida com sua avó. Antes dela falar, um rapaz jovem, ainda na casa dos 20 anos, me disse que "até que foi importante a passagem de Bolsonaro pela presidência para sabermos como é ruim o fascismo". Fiquei chocada pela falta que faz o conhecimento histórico, disse isso a ele, do alto dos meus 74 anos, com passagem pela ditadura militar, tendo nascido no exílio, e, sobretudo, tendo estudado história e lido livros falando sobre o quanto a humanidade pode sofrer com governos perversos e que foi péssimo Bolsonaro ter sido responsável pela morte de quase um milhão de brasileiros.
Terminada a mesa de Socorro, fomos dançar e cantar Reggae, Axé, Samba com o grupo A Pombagem, o Museu é a Rua. Sensacional. Eu falei faraó, ó, ó...
A minha mesa foi linda. Estavamos reunidos nela minha irmã Dadá, o grande Clarindo Silva, um dos homens mais brilhantes e importantes de nossa Bahia, eu e o jornalista Felipe Oliveira como mediador. Dadá era pura emoção: "Ai quanta saudade de Mãe e de Pai, não é, minha irmã?" Contou sua comovente história de menina pobre e negra lutando pela vida, chegando aonde chegou, sempre com o sorriso mais lindo do mundo. (Um dia ela me disse, e eu nunca esqueci: "A vida era muito dura, negona... porém gostosa!") Clarindo, de uma lucidez e um raciocínio perfeitos, defendendo a Fundação Casa de Jorge Amado em função de um Pelourinho livre e inteiro, aquele umbigo da cidade que ele não deixou ser destruído com a presença de sua Cantina da Lua. Na minha vez, perguntada da importância de literatura, pude voltar à história de Socorro, à futura historiadora, e à historinha de Danilo, de que queria ser Presidente da República quando era pequeno. Volto a dizer aqui o que disse lá: Danilo, com a Feira Literária de Santa Terezinha, você fez mais pelo nosso povo que muito presidente da República tem feito por aí. Dar a chance de ligar aquele botão no cérebro e passar a pensar cada vez mais, é o que se pode fazer de melhor no mundo, e é o que a literatura faz. Mais do que votar em Danilo, pedi que todos votassem bem nas próximas eleições, para que o fascismo não se intale em nossa terra.
Obrigada Danilo e Felipe Oliveira pelo convite, foi um privilégio; obrigada Deivedisson por ser meu mais novo amigo, um amigo gentil e atento; obrigada Kátia e Paulo pelo acolhimento no Hotel Fazenda Bastião; obrigada Maryse e Uilson, Maria e Carla por me ensinarem de Mutuipe e sua gente maravilhosa; obrigada por existirem Dadazinha, minha irmã, e Clarindo Silva. Obrigada Aldri, pela história linda de meu pai e Nilda Spencer que me contou. Obrigada Socorro, por ser uma filha querida, queria poder vê-la mais vezes. Obrigada a todos os que vieram me abraçar, sempre com uma palavra de afeto.
Agradeço de todo o coração a todos os que me receberam e me deram a oportunidade de ter um palco para dizer o que penso e aprender com o povo gentil e inteligente de Santa Terezinha.
Bom domingo a todos.
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