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País engatinha no tratamento do transtorno alimentar, mostra debate

A pouca informação sobre a assistência disponível para quem apresenta transtornos alimentares, o reduzido número de unidades públicas especializas ...

05/09/2024 às 15h13
Por: Redação Fonte: Agência Senado
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Com 15 centros de atendimento público, Brasil não consegue atender demanda de pacientes com transtorno alimentar - Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Com 15 centros de atendimento público, Brasil não consegue atender demanda de pacientes com transtorno alimentar - Foto: Roque de Sá/Agência Senado

A pouca informação sobre a assistência disponível para quem apresenta transtornos alimentares, o reduzido número de unidades públicas especializas e leitos correlatos e a falta de profissionais preparados para esse atendimento são empecilhos no combate aos comportamentos alimentares anormais que afloram em todo o país, inclusive atingindo considerável parcela infantojuvenil. A questão foi levantada em audiência pública nesta quinta-feira (5), na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), quando se debateu medidas de prevenção e de tratamento dessas condições.

Autora do requerimento para a audiência, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) salientou a preocuação de famílias que buscam ajuda diante dos crescentes casos de transtorno alimentar. A parlamentar destacou ainda a problemática das redes sociais, que apresentam pseudoespecialistas ouinfluencersque acabam por mal informar e influenciar principalmente o público formado por crianças e adolescentes.

O Brasil tem hoje apenas 15 centros públicos para atendimento de transtorno alimentar e apenas uma enfermaria especializada em toda a América Latina, localizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), onde há imensa fila para dez leitos destinados a atender brasileiros e estrangeiros.

— Fico revoltado que não haja outros centros de excelência que possam receber essas pessoas — disse o professor e representante doo Programa de Tratamento de Transtornos Alimentares do HCFMUSP, o psiquiatra Táki Athanássios Cordás.

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A frequência dos transtornos alimentares — que inclui principalmente anorexia, bulimia e compulsão alimentar em obesos — é subestimada no país, segundo Cordás. Essas condições de comportamentos alimentares anormais atingem, pelo menos, quase 5% da população brasileira, ou seja, 11 milhões de pessoas.

Cordás esclareceu que a obesidade não é um transtorno alimentar, não é uma doença psiquiátrica, não obstante cerca de 20% das pessoas com obesidade tenham um transtorno psiquiátrico, chamado de compulsão alimentar.

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— A gente come para se nutrir, biologicamente para a nossa vida é necessário. Dois, para ter prazer. Três, a comida é uma ponte entre eu e as pessoas, a comida serve de objeto de afeto. Quando essa situação está quebrada, o indivíduo para de comer sob risco de vida, não tem prazer na comida, a comida o afasta das pessoas e não aproxima, eu provavelmente estou diante de um transtorno alimentar. (...) Quando meu corpo se torna algo estranho, hostil, a minha imagem é indesejada e o meu peso é indesejado, eu provavelmente estarei diante de um transtorno alimentar.

Tratamento caro

O tratamento de transtorno alimentar é caro, exige uma equipe muldisciplinar bem formada para o atendimento, que geralmente é longo e, às vezes, pode transcorrer por uma vida inteira. Representante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Priscilla Gil afirmou que as dificuldades encontradas na rede privada são multiplicadas no Sistema Único de Saúde (SUS).

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Ela salientou que não há como priorizar campanhas, se não houver como tratar e internar os pacientes.

— O paciente com transtorno alimentar está em sofrimento, mesmo que não tenha recebido o diagnóstico. (...) Precisamos ampliar os centros para internação, ampliar as verbas dos centros que já têm propriamente execução e são capazes de multiplicar essas ações e contratar mais profissionais com plano de carreira para poder trabalhar nesses locais e atender esses pacientes que estão em tão grande sofrimento — expôs a representante da SBEM.

O coordenador da Comissão de Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), José Carlos Borges Appolinário, afirmou que a frequência dos transtornos alimentares é semelhante a outros por uso de drogas e se mostra superior a do transtorno bipolar.

— Grande parte desses casos apresenta sintomas que parecem pouco diagnosticáveis no início. Os quadros mais graves são de difícil recuperação, algumas vezes levando ao óbito — expôs.

Ele também destacou que o tratamento exige uma equipe de vários profissionais de forma integrada, constituída por profissionais de saúde como psiquiatria, psicólogo, nutricionista, clínico, e que são necessários treinamentos específicos para as pessoas lidarem com esses pacientes.

Appolinário apresentou alguns estudos realizados no país, como em Porto Alegre (RS), onde se identificou que 10% da população do município tinha comportamento alimentar anormal, geralmente jovens. Essas pessoas foram acompanhadas por quatro anos e viu-se que mantinham o mesmo comportamento.

— Entre 2005 e 2010, no Rio de Janeiro, houve um aumento na prevalência de compulsão alimentar, e adolescentes com excesso de peso eram propensos a se envolver em dieta rigorosa ou jejum — complementou o coordenador da ABP.

Em geral, os percenuais de anorexia e bulimia flutuam próximo de 1% a 2%, sendo inferiores aos da compulsão alimentar, que atinge mais de 6% das pessoas. Todos os transtornos também afetam mais mulheres do que homens.

Obesidade

Representante da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Maria Edna de Melo reforçou que o transtorno alimentar é muito frequente em pacientes com obesidade, uma doença que tem grande impacto na saúde pública, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Segundo Maria Edna, a estimativa é de que, em 2035, 51% da população mundial tenha obesidade ou sobrepeso. E esse número duplica na população adulta, mas na população infantil tende a triplicar.

— A obesidade é o terceiro maior fardo social no país, só perde para a violência armada e para o álcool. (...) No Brasil, entre os adultos, 60% têm excesso de peso e 26% já têm obesidade. Cerca de um terço das crianças estão acima do peso e 15% com obesidade. (...) Na criança e no adolescente, o impacto na saúde mental é o que mais compromete a qualidade de vida — expôs a representante da Abeso.

O alto preço dos alimentos saudáveis é um problema a ser enfrentado, segundo Maria Edna. Ela salientou que há uma distorção em termos financeiros daquilo que as pessoas precisam consumir, e que os melhores alimentos tiveram uma valorização do preço em 60% nos últimos anos.

— Como a gente vai mandar as famílias comerem bem com esses preços? Temos que olhar mais para os subsídios — disse.

Educação

O tema do transtorno alimentar precisa ser pensado em todas as etapas da educação, segundo Priscilla Gil. Nas pós-graduações, por exemplo, já há na matriz da endocrinologia estudar transtornos alimentares. Nas graduações de medicina, hoje, se começa a estudar a obesidade, disse a representante da SBEM.

Mas para o ensino médio e para a educação infantil há que se ter muito cuidado ao se avordar o assunto, alertou Priscila. A depender das palestras, pode-se estar induzindo alguns transtornos. Por isso, ela disse ser mais producente falar sobre a aceitação de todos os corpos, desconstruir a imagem do corpo perfeito, tratar de políticas anti-bullying, o comer em família, o desenvolvimento corporal, entre outros assuntos.

A posição foi ratificada pelo professor Cordás, para quem “se deve tomar muito cuidado com voluntarismo de quem quer abordar o assunto em escola”.

— Não há ainda exatamente a definição de qual a melhor forma de prevenção. Tem que se falar em saúde, não em doença, senão você treina essas crianças [para os transtornos] — disse o professor da USP.

Redes sociais

Os especialistas também chamaram atenção para a influência das redes sociais. Para Maria Edna, essas redes “são um poço sem fundo para problemas relacionadas aos transtornos com a glamourização dos corpos ultra magros e a exposição de muita massa muscular”. Além disso, disse a especialista, há o aliciamento de crianças e adolescentes para alimentações que colocam em risco suas vidas.

— As redes sociais são algo que preocupam muito e não é só para transtorno alimentar. Também tem o desafio de comer demais, que não é comer alface, geralmente é comidatrash[lixo] — afirmou Maria Edna.

Ao final da audiência, a senadora Damares se comprometeu em manter o tema como pauta da Casa. Ela acrescentou que irá propor a criação de um grupo de trabalho para dar continuidade à discussão do assunto e que irá apresentar requerimento de informação para que o Ministério da Saúde envie dados, como os projetos desenvolvidos na área.

— Que essa audiência possibilite que tenhamos uma força tarefa para oferecer projetos para a implementação de leis e medidas que possam valer para esse país — disse o psiquiatra Cordás.

Também participaram da audiência a representante do HCFMUSP, em Ribeirão Preto (SP), Vivian Marques Miguel Suen; e o representante do Programa de Tratamento de Transtornos Alimentares do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Alexandre de Rezende Pinto.

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