Economia Negócios
Vaga afirmativa é eficaz, mas não deve ser única estratégia de diversidade
Para consultora, promoção de diversidade e inclusão requer conjunto de ações
28/11/2022 08h26
Por: Fábio Costa Pinto Fonte: Agência Dino

A criação de vagas afirmativas para profissionais de grupos minorizados, embora eficaz na ampliação da diversidade numérica das empresas, não deve ser a única iniciativa de correção de assimetrias nas organizações.

A observação é da consultora de diversidade, equidade e inclusão (DE&I) Letícia Rodrigues (imagem), sócia-fundadora da Tree Diversidade, que realizou recentemente uma mentoria para profissionais de recursos humanos sobre estratégias de diversidade corporativa.

"Muita gente critica o fato de a ação afirmativa ser dirigida a um dado grupo, mas ela não é a única ferramenta que, comprovadamente, ajuda a acelerar a correção de disparidades. Nossa sociedade tem assimetria de oportunidades. As organizações também têm essa característica, mesmo que não enxerguemos isso", aponta.

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A consultora lembrou que ações afirmativas são utilizadas há pelo menos três décadas no Brasil para corrigir disparidades. Entre os principais exemplos, ela citou as leis de reserva de pelo menos 2% das vagas em empresas para pessoas com deficiência, instituída há cerca de 30 anos, e de metade das vagas no ensino público superior para alunos negros, indígenas e egressos de escolas públicas.

Para a consultora, em todos os casos, essas políticas produziram avanços no acesso ao mercado de trabalho e ao ensino superior, mas ainda não cumpriram o objetivo de eliminar as disparidades que se propuseram a corrigir, seguindo, portanto, sendo necessárias. A especialista aponta, ainda, que mais do que dar acesso às vagas, é preciso corrigir disparidades com abordagens específicas para cada situação.

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Atualmente, a maioria das iniciativas de diversidade corporativa focam em corrigir a baixa prevalência de mulheres na alta gestão e a concentração de pessoas negras na base das organizações. Em algumas empresas também é possível ver ações voltadas à comunidade LGBTI+ e pessoas mais velhas. Mas ainda são raras as iniciativas para incluir pessoas trans, que sequer acessam o mercado de trabalho.

Para cada um desses recortes interseccionais, Rodrigues aponta a necessidade de estratégias pensadas segundo a realidade de cada empresa e, principalmente, das possibilidades profissionais das pessoas em cada grupo.

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No caso das pessoas negras, por exemplo, que até podem ser encontradas em boa prevalência nas empresas, o objetivo das iniciativas deve ser voltado ao acesso à liderança e às oportunidades de desenvolvimento e crescimento.

Na visão da consultora, as ações deveriam focar, portanto, na promoção de equidade e na eliminação de barreiras visíveis e invisíveis que atualmente dificultam a evolução de pessoas negras em suas carreiras (inclusão).

Como exemplo de ação efetiva, ela destaca os trainees para pessoas negras da Bayer e da Magalu, que vão permitir a essas empresas futuramente aumentar a prevalência de profissionais negros na liderança, possivelmente também no c-level e nos conselhos.

No recorte das mulheres, já encontradas com alguma prevalência na média gestão das empresas, a prioridade é criar estratégias para alçá-las ao c-level e aos conselhos, o que pode ser alcançado com estratégias de visibilidade para elas e outras ferramentas.

Nessa frente, Rodrigues também citou a importância da recente iniciativa de autorregulação das empresas de capital aberto, de incluir em seus conselhos ao menos uma mulher e outro conselheiro vindo de outro grupo minorizado, prioritariamente uma pessoa negra.

Embora modesta, a iniciativa na visão da consultora representa um começo importante, que não desobriga as empresas de futuramente ampliá-la até que a prevalência de mulheres e pessoas negras nos conselhos seja ao menos próxima da demografia social.