Ciência Mecânica Celeste.
Pesquisa liderada pela Unesp sobre órbitas de asteroides recebe prêmio da Sociedade Italiana de Mecânica Celeste.
Por meio de simulações, estudo mostrou como fenômeno de interação gravitacional pode estabilizar órbitas de pequenos corpos celestes; resultados dão perspectiva para diminuir a probabilidade de encontros próximos e colisões com planetas.
09/09/2026 20h09
Por: Fábio Costa Pinto Fonte: Unesp / @reitoria.unesp.br
Foto: Nasa

Enquanto viajam pelas veredas do Sistema Solar, alguns asteroides estabelecem uma espécie de coreografia que tem como referência a Terra, e também Vênus e Marte. Embora seu percurso não coincida exatamente com o trajeto que os planetas rochosos percorrem, esses corpos celestes levam o mesmo intervalo de tempo para completar uma viagem em torno do Sol.

Eles recebem a classificação de asteroide co-orbital, e isso ocorre devido a um fenômeno gravitacional chamado ressonância orbital. Existem muitos tipos diferentes de ressonância, estabelecidos quando um corpo exerce força gravitacional sobre o outro, influenciando sua movimentação. No caso dos planetas e seus asteroides co-orbitais, o tipo de ressonância envolvida é a 1:1, indicando que eles compartilham uma órbita muito semelhante ao redor do Sol e possuem aproximadamente o mesmo período orbital em torno do astro-rei.

Um estudo liderado pelo pesquisador Valerio Carruba, da Faculdade de Engenharia e Ciências (FEG) da Unesp, câmpus de Guaratinguetá, investigou como esse tipo de influência pode se combinar com outra forma de ressonância gravitacional, o mecanismo von Zeipel–Lidov–Kozai (ZLK), e descobriu que essa interação pode ajudar a manter alguns desses objetos protegidos de encontros próximos com os planetas.

O trabalho, intitulado “Co-orbital asteroids of terrestrial planets affected by the von Zeipel–Lidov–Kozai mechanism”, foi publicado na revista científica Celestial Mechanics and Dynamical Astronomy e reconhecido com o CELMEC IX Prize. A distinção premia os melhores artigos originais publicados nas coleções especiais da revista Celestial Mechanics and Dynamical Astronomy. O trabalho será apresentado durante o Encontro Internacional de Mecânica Celeste que será realizado entre 14 e 18 de setembro, em San Martino al Cimino, Itália, organizado pela Sociedade Italiana de Mecânica Celeste e Astrodinâmica.

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Para entender o estudo, é preciso primeiro imaginar o que significa um asteroide ser co-orbital. Em vez de pensar em um corpo que simplesmente gira ao redor do Sol de maneira independente, pode-se imaginar um objeto que se desloca de forma sincronizada com o movimento de um dado planeta. Embora suas órbitas possam ter formatos e posições diferentes, os dois levam aproximadamente o mesmo tempo para completar uma volta ao redor da nossa estrela. Essa sincronização é consequência da chamada ressonância de movimento médio 1:1.

A pergunta central do estudo envolvia estabelecer o que ocorre quando os asteroides co-orbitais, já envolvidos na ressonância de movimento médio 1:1, também apresentam a dinâmica associada ao mecanismo von Zeipel–Lidov–Kozai, ou ZLK.

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Esse mecanismo descreve oscilações na excentricidade e na inclinação das órbitas dos asteroides decorrentes de perturbações gravitacionais. Nas simulações realizadas pelos pesquisadores, foram consideradas as perturbações de todos os planetas do Sistema Solar e da Lua, permitindo investigar como essa dinâmica afeta a estabilidade dos co-orbitais de Vênus, da Terra e de Marte.

Enquanto a ressonância 1:1 faz com que os asteroides mantenham seu movimento médio sincronizado com o planeta, o mecanismo ZLK pode produzir alterações relacionadas na excentricidade e na inclinação de suas órbitas. De forma simplificada, o mecanismo ZLK faz essas duas características oscilarem de maneira correlacionada: quando a excentricidade aumenta, a inclinação tende a diminuir, e vice-versa. “Estamos investigando essa dinâmica complicada porque muitos desses objetos co-orbitais são extremamente instáveis”, conta o pesquisador Valerio Carruba.

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A busca por compreender essas incertezas é relevante para o acompanhamento desses corpos. Agências espaciais como a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Nasa realizam regularmente simulações e mapeamentos de asteroides que podem se aproximar da Terra. “Muitos desses asteroides são perdidos. Isso significa que passam um tempo nessa configuração co-orbital mas depois vão para outra configuração ou até mesmo saem da região. Justamente por essa instabilidade é difícil prever qual será a nova rota”, explica o pesquisador da Unesp.

Os resultados do estudo indicam que, no caso de determinados asteroides e determinadas configurações orbitais, a ressonância ZLK pode alterar a geometria da trajetória de modo a diminuir a probabilidade de encontros próximos e aumentar o tempo de sobrevivência daquela configuração.

“Quando existe uma excentricidade muito alta, é possível que comecem a ocorrer encontros próximos com a Terra ou com outros planetas, ou que o objeto possa ser ejetado para fora da ressonância… Enfim, é possível que a configuração do objeto seja completamente alterada. É esse o papel que a ressonância ZLK desempenha: ela pode estabilizar esse objeto. Em vez de ser ejetado, ele pode permanecer em uma órbita estável por um tempo maior”, afirma Carruba.

Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.