Cultura Crônica de Domingo
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.
Por Paloma Amado
06/09/2026 14h33
Por: Colunista Fonte: Paloma Amado
Foto: Divulgação / Arquivo pessoa familia Amado.

25 de novembro de 1948, aniversário de um ano de meu mano João Jorge. Estavam, o casal Amado e o filhote, exilados em Paris, vivendo no Grand Hotel Saint Michel, de Mme. Salvage (onde o banheiro de chuveiro – para todo o hotel – tinha deixado de ser depósito por pedido insistente de papai.).

Naquela semana resolveram chamar os amigos para comemorar lá mesmo no hotel, cada um traria uma garrafa de vinho. Mas dinheiro para presente, um brinquedinho qualquer, não havia. Na verdade, naquele pós-guerra era tudo difícil. Seu Jorge, então, se sentou e escreveu uma história para o filho, era o melhor presente que poderia dar.

Naquele 25 de novembro, o pai deu ao filho uma resma de papel datilografado e cheio de rasuras, com uma linda e triste história de amor. Ante a animação do pequeno – uma resma de papel para uma criança de 1 ano é um prato cheio para rasgar em mil pedaços, fazer confete! – sua mãe, uma senhora atenta e precavida, tirou o livro das mãos do pequeno e o guardou.

Passaram-se quase trinta anos. Em meados dos anos 70, João Jorge pai de Bruno e Maria João, recebe de sua mãe os originais do livro que ganhou no primeiro aniversário. -- Toma, Juca, encontrei nos meus guardados. Seu pai escreveu este livro para você no seu primeiro aniversário. Guardei, temendo que você picasse o papel. Como diz sua nona Angelina: "Quem tem, percura e acha; quem não tem, percura e não acha..."

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João foi ler em seguida. Era "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá". Ficou maravilhado, foi agradecer ao pai, pego de surpresa, pois estava por fora dos achados da mulher e da leitura do filho. Ao pedido de publicação imediata do livro, seu Jorge recusou. Explicou que depois de tanto tempo este livro não correspondia mais ao homem que era naquele momento. -- Se eu escrevesse esse livro hoje, meu filho, o gato e a andorinha se casariam no final, hoje já não sou preconceituoso como era. Como vou encarar todos os nossos amigos e amigas homossexuais lançando um livro cheio de preconceitos como esse?

João rebateu que ele poderia reescrever o final, coisa mais fácil. Papai disse que não, que o livro era datado, que correspondia ao homem de 1948, sem ter ainda evoluído para o que era hoje, nos anos 70. Ele era absolutamente contra modificar o que quer que fosse dos livros anteriores, “se tem erros, são erros daquele momento”. João não retrucou, mas tomou providências. Rebateu o original à máquina, e levou para Carybé. Contou a história toda e pediu que ele o ilustrasse. -- Com suas ilustrações, Cariba, papai jamais recusará a publicação.

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Assim foi feito, João, o sábio, conseguiu o que queria. O livro foi publicado e imediatamente traduzido em um sem-úmero de línguas, inclusive para o japonês – único livro de Jorge Amado nesta língua – e em guarani, em edição paraguaia belíssima, única com ilustrações diferentes. Ao capitular, papai vinculou a venda para o exterior com a publicação das ilustrações de Carybé. No caso da edição em guarani, era pirata, sem contrato... Mas papai adorou saber dela e ter um exemplar.

Hoje, no ano de 2026, cinquenta anos depois de sua publicação, é o segundo livro mais vendido de papai, só perdendo para "Os Capitães da Areia". Quem for visitar nosso lindo museu na Casa do Rio Vermelho, verá uma foto tirada no primeiro aniverário de Juca.

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Na minha casa tenho o meu gato malhado, ele se chama Xukuru Kariri, mas eu o chamo de Malhadão, quando faz suas caras de fera. Sem querer plagear meu dindo, também o desenhei em várias versões.

Bom domingo a todos.