Cultura Crônica de domingo
Rafael Alberti, Sincronicidade, Prestes e Lorca.
Por Paloma Amado
30/08/2026 22h31
Por: Colunista Fonte: Paloma Amado
Foto: Divulgação / Arquivo pessoa familia Amado.

I Rafael Alberti.

Eu tinha 14 anos. Meus pais e eu atravessamos o Atlântico no navio Monte Umbe (João foi de avião, tinha provas a fazer). Eu ia pela primeira vez  no sentido da Europa.

Em Roma, o poeta Murilo Mendes fez um jantar para nós com a presença de muitos outros escritores, a maioria amigos de meus pais. A conversa não me interessou muito, mas fiquei encantada com um conjunto de pregos enroscados que estavam sobre uma mesa de centro, era uma espécie de quebra-cabeças com o objetivo de separar os objetos presos. Fiquei ali tentando resolver o desafio, quando um senhor veio e falou comigo em espanhol. Fiquei contentíssima em entender tudo (tinha arranjado um namorado argentino no navio...) e respondi no meu arremedo de castelhano. Assim, por mais de hora, desfizemos vários nós de pregos, conversamos sobre de um tudo, rimos bastante. Percebi que papai, de vez em quando nos olhava achando graça. 

Chegados no hotel, papai me perguntou:
— Você sabe com quem conversou a noite inteira?
— O nome dele é Rafael, que eu perguntei, mas não sei o que faz, mas deve ser bom em matemática, por que separava os pregos com rapidez.
Papai riu bastante, devia estar pensando o que uma coisa tinha a ver com a outra. Me respondeu:
— Ele é simplesmente um dos maiores poetas espanhóis, da Geração de 27 como Lorca (por quem eu já era completamente apaixonada), de quem foi amigo, chama-se Rafael Alberti. Amanhã vamos a uma livraria e eu vou comprar para você um livro dele.

Continua após a publicidade
google.com, pub-9319522921342289, DIRECT, f08c47fec0942fa0

E assim fizemos, caminhando pela Via del Corso até a Mondadori. O livro era uma edição bilíngue, o que muito me agradou, estava aprendendo italiano e foi interessante comparar original e tradução. Me apaixonei por um poema, Se equivocaba la paloma, que um tempo depois foi musicado e cantado por Mercedes Sosa, uma beleza. Aí vão alguns versos:

Se equivocó la paloma
se equivocaba.
Por ir al norte, fue al sur
creyó que el trigo era agua,
se equivocaba.
Creyó que el mar era el cielo,
que la noche la mañana,
se equivocaba,
...
Que tu falda era tu blusa
que tu corazón, su casa,
se equivocaba,
se equivocaba.
Ella se durmió en la orilla,
tú en la cumbre de una rama.

Continua após a publicidade
google.com, pub-9319522921342289, DIRECT, f08c47fec0942fa0

Como a pomba do poema, sua xará brasileira se equivocou tanto na vida. Além de ser bom com os pregos, era ótimo com os versos. Pura matemática! Rafael Alberti, meu amigo de infância.

II Sincronicidade, Prestes e Lorca.

Continua após a publicidade
google.com, pub-9319522921342289, DIRECT, f08c47fec0942fa0

Escrevi esta pequena crônica sobre Alberti na quarta-feira, pois viajaria cedo na quinta para uma maratona do Sempre um Papo (meu Afonso Borges tão querido!) por São Carlos e Campo Limpo (nunca tive uma plateia tão maravilhosa em minha vida!). Queria deixar tudo pronto para domingo, pois chegaria de volta sábado, certamente cansada. Quando procurei a foto de meus pais com o poeta, não encontrei e mais uma vez recorri à Bete Capinam, que tem o acervo da Fundação na cabeça.

Bete me telefonou na maior excitação. Não só achara as fotos, mas veio junto um texto escrito por Alberti, quando da homenagem a papai na Semana do Autor, em Madrid, em 1986. Neste saudação, o poeta se referia ao Manifesto feito na Espanha pela soltura de Luís Carlos Prestes da prisão da Ditadura do Estado Novo, em 1936. E quem assinou, além do próprio Alberti? Garcia Lorca. Tem mais, três dias depois homenagearam dona Leocádia, mãe do Cavaleiro da Esperança, que estava em Madri e pode ouvir Lorca declamar para ela sua Oda al Rey de Harlem, do livro Poeta em Nueva York. No mesmo ano, a 18 de agosto,  Federico, aquele que foi o maior dos poetas, foi fuzilado pelos milicianos fascistas em nome de Franco.

Perdi o fôlego ao ler o texto.

Graças à croniquinha inicial, cheguei a esse fato histórico. Será que os estudiosos da nossa política sabem disso? Não acredito em coincidência e sim em sincronicidade, e essa existiu graças ao Afonso Borges, que me levou a São Carlos, onde estava o radialista Glauco Keller, que me entrevistou e eu contei a ele de Rafael Alberti, que virou crônica de domingo e cuja foto com meus pais eu não encontrei, mas Bete Capinam sim, e foi além trazendo Federico Garcia Lorca para a História do Brasil.

Bom domingo a todos!