Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo apresentar os fatores de sucesso no desenvolvimento econômico e social da China. Após as reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978, a China apresentou uma das mais elevadas taxas de crescimento econômico da história moderna, conforme estão indicadas no Quadro 1.
Quadro 1- Crescimento médio anual do PIB real da China.
| Período Continua após a publicidade google.com, pub-9319522921342289, DIRECT, f08c47fec0942fa0 | Crescimento médio anual |
| 1952-1978 Continua após a publicidade google.com, pub-9319522921342289, DIRECT, f08c47fec0942fa0 | ~6,1% |
| 1978-1990 Continua após a publicidade google.com, pub-9319522921342289, DIRECT, f08c47fec0942fa0 | ~9,3% |
| 1990-2000 | ~10,0% |
| 2000-2010 | ~10,6% |
| 2010-2020 | ~6,8% |
| 2021-2025 | ~5,3% |
A expansão do PIB da China resultou das taxas de investimento excepcionalmente elevadas ocorridas de 1978 a 2025, conforme estão apresentadas no Quadro 2 a seguir:
Quadro 2- Evolução da taxa de investimento
| Ano | Taxa de Investimento (% do PIB) |
| 1980 | ~35% |
| 1990 | ~36% |
| 2000 | ~34% |
| 2005 | 40,2% |
| 2010 | 46,1% |
| 2011 | 46,3% |
| 2015 | 42,7% |
| 2020 | 42,6% |
| 2024 | 40,6% |
| 2025* | ~40% (estimativa) |
A taxa de investimento da China permaneceu próxima ou acima de 40% do PIB durante mais de duas décadas, valor muito superior ao observado nas economias desenvolvidas.
A China passou a apresentar desaceleração da economia com a queda na taxa de crescimento do PIB desde o ano de 2005 e queda na taxa de investimento desde o ano de 2012. Para solucionar os problemas de desaceleração da economia da China, o governo chinês planejou a “Belt and Road Initiative” (Iniciativa Cinturão e Rota), chamada a Nova Rota da Seda, por meio da qual pretende aproximar a China do mundo exterior com investimentos e projetos de infraestrutura. O sucesso da China no desenvolvimento econômico e social resultou da combinação de planejamento estatal de longo prazo, abertura gradual e seletiva do mercado interno, realização de investimentos maciços em infraestrutura de energia, transporte e comunicações, em educação e no desenvolvimento tecnológico, bem como na integração ao comércio mundial. Desde as reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978, a China passou de uma economia agrária relativamente pobre para a condição de segunda maior economia do mundo.
Os fatores de sucesso no desenvolvimento econômico e social da China dizem respeito às reformas econômicas graduais e pragmáticas adotadas pelo governo chinês, às Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) implantadas pelo governo chinês, ao forte papel do Estado chinês no planejamento estratégico da nação e em sua execução, aos investimentos massivos realizados na infraestrutura de energia, transporte e comunicações, à execução da reforma agrária e modernização rural, aos investimentos em educação, ciência e tecnologia, à integração da China ao comércio mundial, à redução da pobreza e à estabilidade política e continuidade administrativa. Cada um destes fatores de sucesso no desenvolvimento econômico e social da China está apresentado nos parágrafos a seguir.
1. Reformas econômicas graduais e pragmáticas adotadas pelo governo chinês
O principal ponto de inflexão foi a política de reformas econômicas graduais e pragmáticas adotadas pelo governo chinês, iniciada em 1978. A China combinou mecanismos de mercado com forte direção do Estado no planejamento da economia e como indutor do desenvolvimento econômico e social. Os fatores centrais dessas reformas foram a descentralização econômica realizada, o incentivo à iniciativa privada, a atração de capital estrangeiro, a manutenção do controle estatal dos setores estratégicos do país e a abertura gradual da China ao comércio internacional. A estratégia adotada pelo governo chinês foi a de testar políticas em regiões específicas antes de expandi-las para todo o país.
2. Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) implantadas pelo governo chinês
As ZEEs, como Shenzhen, Zhuhai e Xiamen, funcionaram como laboratórios econômicos. Nessas áreas, a China permitiu o investimento estrangeiro, ofereceu incentivos fiscais, incentivou as exportações industriais e promoveu transferência tecnológica para o país. Essas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) aceleraram a industrialização do país e integraram a China às cadeias globais de produção.
3. Forte papel do Estado chinês no planejamento estratégico da nação e em sua execução.
No planejamento estratégico da nação, o governo da China preservou bancos públicos fortes e empresas estatais estratégicas, realizou o planejamento quinquenal da economia e promoveu a coordenação industrial nacional. O Estado chinês direcionou investimentos para os setores de transporte, siderurgia, energia, telecomunicações, produção de semicondutores e o desenvolvimento da inteligência artificial. Esse planejamento reduziu gargalos estruturais e permitiu ganhos rápidos de produtividade.
4. Investimentos massivos realizados na infraestrutura de energia, transporte e comunicações.
A China realizou um dos maiores programas de infraestrutura da história com a implantação de ferrovias de alta velocidade, portos, hidrelétricas, rodovias, redes digitais e obras de urbanização das cidades. Os investimentos em infraestrutura possibilitaram reduzir custos logísticos e integrar regiões pobres ao mercado nacional. Entretanto, alguns estudos alertam que parte desses investimentos gerou endividamento e excesso de capacidade.
5. Execução da reforma agrária e modernização rural.
As reformas no setor agrário e zonas rurais começaram com a substituição do sistema de coletivização da agricultura antes existente pelo “sistema de responsabilidade familiar”, que deu maior autonomia aos agricultores. Essas reformas possibilitaram o aumento da produtividade agrícola, a expansão da renda rural, o combate à fome até então existente e a formação de excedentes para financiar a industrialização. A modernização agrícola teve base em investimentos anteriores realizados ainda no período maoísta, como irrigação e mecanização.
6. Investimentos em educação, ciência e tecnologia.
O governo da China priorizou investimentos em alfabetização da população, formação técnica para os trabalhadores, implantação e fortalecimento de universidades, desenvolvimento da engenharia e promoção da pesquisa científica. Posteriormente, passou da estratégia “Made in China” para “Created in China”, com o país investindo em inovação tecnológica e indústria avançada. Graças aos investimentos em educação, ciência e tecnologia, a China lidera hoje a disputa pela liderança mundial na comunicação 5G, na inteligência artificial, em baterias elétricas, na energia solar, em trens de alta velocidade e no comércio eletrônico.
7. Integração da China ao comércio mundial.
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 consolidou sua integração global. O país tornou-se o principal exportador mundial, o centro manufatureiro global e grande receptor de investimento estrangeiro. A estratégia exportadora permitiu acumular reservas internacionais gigantescas e acelerar a industrialização.
8. Redução da pobreza.
Um dos maiores resultados sociais alcançados pelo governo chinês foi a redução da pobreza extrema na China. Segundo dados frequentemente citados por organismos internacionais, centenas de milhões de chineses saíram da pobreza desde 1978. Os fatores decisivos para a superação da pobreza extrema na China foram o crescimento econômico acelerado, o processo de industrialização do país, o processo de urbanização, a ampliação da oferta de emprego, a realização de investimentos públicos e as políticas sociais direcionadas.
9. Estabilidade política e continuidade administrativa.
Outro fator importante para o sucesso econômico da China foi a continuidade estratégica do Estado chinês ao longo de décadas. Apesar de mudanças políticas internas, houve permanência dos objetivos governamentais relacionados com a busca do crescimento econômico sustentado, a modernização tecnológica, o fortalecimento nacional e o combate à pobreza na China. A estabilidade político-institucional favoreceu a realização de investimentos de longo prazo e a execução contínua de políticas públicas.
Conclusão:
Em síntese, o sucesso econômico e social da China decorreu da combinação singular de 1) planejamento estatal estratégico; 2) abertura gradual e seletiva do mercado interno; 3) forte investimento em infraestrutura; 4) industrialização orientada à exportação; 5) atração de capital estrangeiro; 6) modernização agrícola; 7) investimento em educação e desenvolvimento tecnológico; e, 8) estabilidade política e continuidade administrativa. Diferentemente do modelo socialista soviético, a China construiu um sistema econômico híbrido de socialismo e capitalismo, frequentemente definido como “socialismo de mercado com características chinesas”, com o Estado chinês atuando no planejamento da economia e como indutor do desenvolvimento econômico e social.
Apesar do sucesso econômico e social alcançado pela China, o modelo chinês de desenvolvimento apresenta ainda problemas importantes que precisam ser resolvidos: 1) desaceleração da economia chinesa com a queda na taxa de crescimento do PIB desde o ano de 2005; 2) queda na taxa de investimento desde o ano de 2012; 3) desigualdades regionais; 4) concentração de poder político; 5) restrições às liberdades civis; 6) envelhecimento populacional; 7) crise imobiliária; 8) endividamento do governo, empresas e famílias; 9) problemas ambientais; e, 10) excesso de capacidade industrial. Para solucionar os problemas de desaceleração da economia da China, o governo chinês planejou a “Belt and Road Initiative” (Iniciativa Cinturão e Rota), chamada a Nova Rota da Seda, por meio da qual pretende aproximar a China do mundo exterior com investimentos e projetos de infraestrutura.
Após uma injeção de dinheiro sem precedentes em cerca de 150 países, a China se vangloria de ter transformado o mundo, o que não deixa de ser verdade. Esta iniciativa começou com fortes investimentos estatais em infraestrutura no exterior. A maior parte dos gastos (estimados em US$ 1 trilhão) foi concentrada em projetos de transporte, como ferrovias e usinas de energia. A China anunciou que o projeto seria vantajoso para todas as partes envolvidas e que os investimentos estimulariam o desenvolvimento em outros países. Domesticamente, o governo chinês vendeu a ideia da “Belt and Road Initiative” (Iniciativa Cinturão e Rota), chamada a Nova Rota da Seda, como uma forma de ajudar as empresas chinesas, impulsionar a economia e melhorar a imagem do país no exterior. Uma série de acordos trouxe acesso a mais recursos, como petróleo, gás e minérios, especialmente com iniciativas na África, América do Sul e Oriente Médio. Cerca de US$ 19,1 trilhões em mercadorias foram comercializados entre a China e os países da Nova Rota da Seda na última década.
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