A qualidade da formação médica no Brasil entra novamente no centro do debate nacional com a divulgação de um novo informe técnico do estudo Demografia Médica no Brasil — Radar de março de 2026, que analisou os resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizado em 2025, pelo Ministério da Educação.
O levantamento avaliou o desempenho de 39.256 recém-formados de 350 cursos de medicina em todo o país e identificou fatores estruturais e institucionais diretamente associados ao desempenho insuficiente das escolas médicas.
Os dados revelam um cenário de preocupação: 30,6% dos cursos avaliados apresentaram desempenho considerado insuficiente. A análise aponta que características como expansão recente, menor concorrência no ingresso, alta proporção de alunos por docente e localização em regiões com menor infraestrutura estão entre os principais fatores associados aos piores resultados.
O informe integra o projeto Demografia Médica no Brasil, conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), com apoio da Associação Médica Brasileira (AMB) e financiamento da FAPESP. A análise utilizou dados do Enamed, do Inep, do e-MEC e do IBGE.
Para a Associação Médica Brasileira, os resultados reforçam a necessidade urgente de revisão dos critérios de abertura, avaliação e supervisão das escolas médicas no país.
“O estudo evidencia, com dados robustos, que a expansão acelerada dos cursos de medicina não foi acompanhada, em muitos casos, das condições adequadas de ensino. Isso impacta diretamente a formação do médico e, consequentemente, a qualidade da assistência à população”, afirma o Dr. José Eduardo Dolci, diretor científico da AMB.
Expansão acelerada e desigualdade na qualidade.
Nos últimos dez anos, o número de cursos de medicina no Brasil praticamente dobrou, passando de 252 para 494. Esse crescimento, impulsionado principalmente após a Lei Mais Médicos de 2013, contribuiu para ampliar o acesso à formação médica, mas também trouxe desafios significativos em relação à qualidade do ensino.
Entre os cursos avaliados no Enamed 2025:
A discrepância entre instituições públicas e privadas chama atenção:
“Os dados mostram uma diferença importante entre os modelos de formação. Não se trata de uma questão ideológica, mas de evidência técnica: é preciso garantir que todos os cursos, independentemente da natureza jurídica, cumpram padrões rigorosos de qualidade”, destaca Dolci.
Menor concorrência e estrutura impactam desempenho.
O estudo também identificou forte correlação entre a concorrência no ingresso e o desempenho dos cursos. Instituições com menor relação candidato/vaga apresentaram maior probabilidade de desempenho insuficiente.
Além disso, cursos com maior número de alunos por docente tiveram resultados significativamente piores. Enquanto cursos com bom desempenho apresentaram mediana de 5,6 alunos por professor, os insuficientes chegaram a 10 alunos por docente.
Outro fator relevante é o tempo de existência:
“A formação médica exige maturidade institucional, corpo docente qualificado e infraestrutura consolidada. Não é possível garantir qualidade com modelos improvisados ou com expansão sem planejamento”, afirma o presidente da AMB, Dr. César Eduardo Fernandes.
Interiorização e desigualdades regionais.
A localização geográfica também influencia os resultados. Cursos situados em municípios com menos de 300 mil habitantes apresentaram maior proporção de desempenho insuficiente.
Regionalmente, os dados mostram desigualdade:
Embora a interiorização da formação médica seja uma estratégia importante para ampliar o acesso à saúde, o estudo aponta a necessidade de garantir condições adequadas de ensino nessas regiões.
Caminhos para o futuro.
O informe técnico destaca que o Enamed representa um avanço importante na avaliação da formação médica no Brasil, mas ressalta que a análise da qualidade deve ser multidimensional, incluindo infraestrutura, qualificação docente, currículo e responsabilidade social.
Além disso, o estudo ganha relevância em meio à discussão no Congresso Nacional sobre a criação de um exame de proficiência para médicos recém-formados.
“O Brasil precisa avançar em mecanismos que assegurem a qualidade da formação médica. Avaliar é fundamental, mas é igualmente necessário agir sobre os problemas identificados, com regulação mais rigorosa e políticas públicas consistentes”, conclui Dolci.