Fernando Alcoforado*
Este é o resumo do artigo de 6 páginas cujo objetivo é demonstrar que a aventura belicista dos Estados Unidos contra o Irã aprofunda o declínio do imperialismo norte-americano. Neste artigo, serão analisados o fracasso do imperialismo norte-americano na guerra contra o Irã e suas consequências, bem como as causas e consequências do declínio do imperialismo norte-americano.
Pode-se afirmar que o governo Trump dos Estados Unidos não atingiu seus objetivos estratégicos centrais na guerra contra o Irã porque não conseguiu realizar a mudança do regime iraniano, não obteve a rendição incondicional do Irã, não levou ao fim do programa nuclear do Irã e não impediu o fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos. Os Estados Unidos fracassaram na guerra contra o Irã porque, mesmo contando com o apoio militar de Israel, seus objetivos políticos e militares não foram alcançados apesar da grande destruição de grande parte da infraestrutura econômica e militar iraniana que, mesmo assim, o governo iraniano atacou e destruiu instalações militares e infraestruturas de Israel, destruiu bases militares norte-americanas e instalações de empresas dos Estados Unidos localizadas nos países árabes aliados do imperialismo norte-americano com o uso de mísseis balísticos e drones.
A superioridade militar dos Estados Unidos não se converteu em vitória política e militar com a rendição incondicional do governo do Irã, evidenciando limites de seu poder militar. No momento, o Irã é que está impondo as condições para um acordo de paz com os Estados Unidos com seu plano de 10 pontos descrito a seguir:
· Garantia de que não haverá novos ataques contra o Irã;
· Manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz;
· Reconhecimento do direito ao enriquecimento de urânio;
· Suspensão de todas as sanções, incluindo primárias e secundárias;
· Encerramento de resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA);
·Pagamento de compensações ao Irã;
·Retirada das forças de combate dos Estados Unidos da região;
·Fim das ações militares em outras frentes, incluindo contra grupos aliados do Irã no Líbano;
·Liberação de ativos iranianos bloqueados no exterior;
· Aprovação de todos os pontos em uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU.
O fechamento do Estreito de Ormuz para navios de países inimigos é a principal arma que o Irã utiliza contra o governo Trump que, em contrapartida, promoveu um bloqueio naval para impedir a passagem dos navios de países amigos do Irã. O acordo de cessar-fogo negociado entre os Estados Unidos e o Irã foi suspenso pelo Irã que, ao exigir a inclusão do Líbano no cessar-fogo, forçou o governo Trump a impedir que Israel continuasse o bombardeio no Líbano. Com o fim do bombardeio do Líbano, o governo do Irã afirmou que só abriria o Estreito de Ormuz com o fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos contra navios de países amigos do Irã. Muito dificilmente haverá acordo para o fim da guerra porque os Estados Unidos não concordam com o plano de 10 pontos do Irã, nem este país concorda com as exigências norte-americanas, sobretudo de abandono de seu programa nuclear. Diante do impasse, tudo leva a crer que Trump promoverá a intervenção militar especialmente do Estreito de Ormuz e tentará destruir a infraestrutura de energia, as pontes e as instalações de dessalinização da água do Irã para obrigar o governo iraniano a assinar um acordo favorável aos Estados Unidos e ele não se considerar derrotado neste conflito. Muito provavelmente, os Estados Unidos somará mais uma derrota política e militar como as que ocorreram no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão.
A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã mostrou falta de estratégia clara por parte do governo Trump, cuja ação militar se caracterizou pela incompetência e improvisação. A resistência militar iraniana tem sido fundamental para impedir uma vitória rápida por parte do imperialismo norte-americano e seus aliados israelenses. Custos econômicos extremamente elevados e riscos globais (como o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã) ampliaram o impacto sistêmico da guerra no Irã, que pode ser entendido como sinal de desgaste estrutural dos Estados Unidos, limitação de seu poder militar e indicador de transição para uma nova ordem mundial multipolar.
O declínio do imperialismo norte-americano provocará mudanças no sistema internacional com a ascensão de grandes potências como China e Rússia, maior capacidade de resistência de países ameaçados de intervenção política e militar pelos Estados Unidos como está ocorrendo com o Irã, por exemplo, e tendência à multipolaridade. Tudo leva a crer que, em substituição à hegemonia global norte-americana, haverá a curto prazo a construção de um sistema mundial multipolar sob a liderança conjunta da China, Rússia, União Europeia e dos Estados Unidos, num quadro de equilíbrio de poder.
Apesar de seu declínio, o poder dos Estados Unidos ainda é dominante no mundo porque é detentor do maior orçamento militar global, é possuidor de liderança tecnológica e financeira mundial e dispõe de uma rede mundial de cerca de 800 bases militares em vários países do mundo. A derrota política e militar dos Estados Unidos na guerra no Irã não leva ao colapso imediato do imperialismo norte-americano. A guerra do Vietnã, por exemplo, não levou ao fim do poder do imperialismo norte-americano apesar de sua derrota militar.
O declínio do imperialismo norte-americano ocorrerá provavelmente não de forma imediata podendo levar décadas porque os Estados Unidos ainda lideram a economia global com o dólar como moeda dominante, dominam o campo da tecnologia com empresas como Apple, Microsoft, entre outras, e é detentor do maior poder militar global. O dólar, que tem sido utilizado como instrumento de poder dos Estados Unidos, deverá chegar ao fim como moeda mundial devido à falta de confiança provocada pela ausência de lastro da moeda, pelo declínio da economia norte-americana, pela possibilidade da explosão da bolha da impagável dívida pública dos Estados Unidos e, também, pelo uso político do dólar pelo governo dos Estados Unidos como arma para impor a vontade política do governo norte-americano visando a manutenção de sua hegemonia no plano mundial. O dólar, que no ano 2000 representava 62,5% das reservas mundiais, em 2025 regrediu para 45% devido à falta de confiança no dólar.
Poderá ocorrer reconfiguração do imperialismo norte-americano, mas não seu desaparecimento de imediato. Em vez do fim imediato do imperialismo norte-americano, o cenário mais plausível seria a aceleração do declínio relativo dos Estados Unidos no plano mundial, a redução da eficácia de seu poder militar como instrumento de dominação e a transição para uma ordem multipolar com a ascensão da China, maior autonomia de potências regionais como os países do BRICS e fragmentação da ordem global. A emergência da China como uma superpotência é inevitável e que conflitos de interesses com os Estados Unidos serão incontornáveis.
Existe a possibilidade de uma confrontação militar entre os Estados Unidos e a China. Esta confrontação militar com a China está em processo de preparação pelos Estados Unidos com a constituição do QUAD (Diálogo de Segurança Quadrilateral formado pelos Estados Unidos, Austrália, Japão e Índia) e da AUKUS (aliança militar tripartite formada pela Austrália, Reino Unido e Estados Unidos), enquanto a China adota medidas visando seu fortalecimento militar com o aumento constante dos seus gastos militares. Pelo exposto, o mundo está se aproximando de um conflito militar catastrófico no Pacífico entre a China e os Estados Unidos e seus aliados, com a possibilidade de eclosão da 3ª Guerra Mundial.
Para assistir ao vídeo, acesse o website https://www.youtube.
Para ler o artigo em Português, Inglês e Francês, acessar os websites do Academia.edu <https://www.academia.edu/
* Fernando Alcoforado, 86, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.