Economia DEPENDÊNCIA
A DESESTABILIZAÇÃO DA ECONOMIA MUNDIAL EXIGE O FIM DA DEPENDÊNCIA DO BRASIL DE PAÍSES ESTRANGEIROS.
Para o Brasil, tudo isso expõe suas fragilidades estruturais.
02/04/2026 12h47
Por: Colunista Fonte: Fernando Alcoforado*
Imagem Ilustrativa.

Por: Fernando Alcoforado*

Este é o resumo do artigo de 8 páginas que tem por objetivo demonstrar que a desestabilização da economia mundial provocada pelo tarifaço do governo Trump e a guerra no Irã desencadeada pelos Estados Unidos e Israel exige que o Brasil supere sua dependência econômica e tecnológica em relação ao exterior para não ser impactado negativamente pela desestabilização em curso da economia mundial e aquelas que ocorrerão no futuro.  A combinação de tarifaço (guerra comercial) patrocinado pelo governo Trump e a guerra contra o Irã desencadeada pelos Estados Unidos e Israel criou um cenário de desorganização do processo de globalização da economia mundial com a ruptura de cadeias produtivas, inflação de custos e instabilidade financeira. A guerra no Irã, marcada pela Operação Epic Fury e ameaças no Estreito de Ormuz, combinada com uma política agressiva de tarifas pelo governo Trump, desestabilizou a economia global, elevando o preço do petróleo acima de US$ 100/barril e gerando inflação no mundo. A guerra no Irã bloqueou rotas cruciais, encarecendo a energia, fertilizantes e pressionando bancos centrais a manter juros altos, arriscando recessão. Para o Brasil, tudo isso expõe suas fragilidades estruturais.

O tarifaço com a guerra comercial patrocinada pelo governo Trump fez com que tarifas dos Estados Unidos sobre o Brasil atingissem quase metade das exportações, reduziu o comércio internacional, a geração de empregos e o crescimento econômico global.  O resultado do tarifaço contra o Brasil significou sua perda de mercados, reprimarização de sua economia e aumento de sua vulnerabilidade externa. Por sua vez, a guerra no Irã gerou escassez de petróleo, de gás natural liquefeito (GNL) e de fertilizantes, sobretudo com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial.  O fechamento do Estreito de Ormuz afeta cadeias globais e encarece transporte e seguros. A guerra no Irã elevou os preços do petróleo, do gás natural e de fretes globais com impacto inflacionário generalizado, inclusive no Brasil. A elevação do preço do diesel que o Brasil importa afeta fortemente sua logística de transporte que utiliza grande volume de óleo diesel com o consequente aumento dos preços dos alimentos. O Brasil está sendo bastante afetado, também, pela dificuldade de importar 80-85% dos fertilizantes oriundos do Oriente Médio que tem impacto direto sobre os preços dos alimentos, as taxas de inflação e o agronegócio. 

O Brasil, por exemplo, terá sua economia afetada pelo aumento dos preços de óleo diesel, gasolina e fertilizantes. O Brasil enfrenta alta dependência externa do fornecimento de óleo diesel, importando cerca de 25% a 30% do consumo, e de gasolina importando cerca de 10%. O Brasil é um grande produtor e exportador de petróleo bruto, impulsionado pelo pré-sal, com produção média próxima de 3 milhões de barris/dia (2025). O Brasil exporta cerca de 52% da produção de petróleo, principalmente para a China. Apesar de ser grande produtor de petróleo, o país importa derivados (diesel/gasolina) porque suas refinarias não processam todo o volume de diesel e gasolina necessários para atender as necessidades do Brasil.  O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes, com um consumo recorde de 49,11 milhões de toneladas em 2025. A dependência externa de fertilizantes é altíssima, com cerca de 88% dos insumos importados, totalizando 45,5 milhões de toneladas em 2025.

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Com a continuidade da guerra no Irã, haverá aumento de preços de óleo diesel, gasolina e fertilizantes que contribuirão para o aumento do custo da logística de transporte do Brasil grandemente dependente do óleo diesel e do custo da produção agrícola enormemente dependente dos fertilizantes. A consequência disto tudo será o aumento das taxas de inflação no Brasil, apesar dos esforços do governo brasileiro no sentido de evitar este aumento da inflação com a adoção de medidas que contribuam para a redução dos preços do óleo diesel para o consumidor final. O governo brasileiro poderá interferir na formação do preço final para o consumidor brasileiro do óleo diesel, mas nada poderá fazer a curto prazo para lidar com o aumento dos preços dos fertilizantes que afetará o agronegócio e fará com que o preço dos alimentos se eleve fortemente no País. A dependência externa do Brasil não ocorre apenas com relação ao óleo diesel, gasolina e fertilizantes. O Brasil é um país que se caracteriza pela excessiva dependência externa econômica e tecnológica que se trata de um fenômeno estrutural, historicamente construído, que compromete o desenvolvimento autônomo do País.  A desestabilização da economia mundial atual provocada pelo tarifaço e pela guerra no Irã não é conjuntural. Ela marca uma transição da globalização para um sistema econômico mundial mais fragmentado e conflitivo. Isto coloca para o Brasil duas opções: 1) permanecer dependente e vulnerável a choques externos; ou, 2) utilizar a crise mundial atual como oportunidade histórica de promover a reconstrução nacional. Para promover a reconstrução nacional, o governo brasileiro precisa superar a dependência externa do País que não é conjuntural, mas estrutural e histórica, ligada à sua posição periférica no sistema capitalista global.

A dependência externa brasileira se manifesta em três dimensões principais: 1) Dependência do setor produtivo e industrial; 2) Dependência tecnológica; e, 3) Dependência financeira.

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1- Dependência do setor produtivo e industrial.

O Brasil possui um setor produtivo e industrial que não atende as necessidades do país haja vista que apresenta elevado nível de importação de bens industrializados e de alta tecnologia (semicondutores, equipamentos médicos, máquinas, etc) e é detentor de um setor de produção de baixa complexidade produtiva. O Brasil ainda depende fortemente da importação de produtos industrializados, o que limita sua soberania econômica. O Brasil possui uma dependência estrutural de importações em setores-chave, importando mais de 85% dos fertilizantes e cerca de 71% dos insumos de alta tecnologia. Essa vulnerabilidade expõe a agropecuária e a indústria brasileira a choques externos, com a balança comercial concentrada na exportação de commodities de baixo valor agregado. Mais de 80-90% dos fertilizantes, especialmente nitrogênio, potássio e fósforo (NPK), são importados. O Brasil tem alta dependência de componentes importados (70,8% das importações totais) para produtos de maior intensidade tecnológica.

2- Dependência tecnológica

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O Brasil possui baixa capacidade de inovação tecnológica endógena, apresenta elevada dependência de patentes estrangeiras e se defronta com forte presença de empresas multinacionais em setores econômicos estratégicos. A dependência tecnológica do Brasil faz com que ele seja obrigado realizar o pagamento de royalties tecnológicos vultosos às empresas estrangeiras. Por exemplo, na indústria farmacêutica, mais de 90% dos insumos são importados e na área de tecnologia digital, o Brasil é dependente de plataformas, softwares e infraestrutura (nuvem, Inteligência Artificial, chips) controlados por empresas estrangeiras. 

3- Dependência financeira.

O Brasil é enormemente dependente do capital estrangeiro que tem grande participação na economia brasileira, seja nos setores industrial, de comércio, de serviços e financeiro. No setor industrial, as empresas transnacionais concentram 28% da receita (37% sem Petrobras) e estão em segmentos dinâmicos e de mais elevado padrão tecnológico: material de transporte (veículos e peças), metalúrgico, eletroeletrônico, químico e alimentos e bebidas. No setor de comércio, as empresas transnacionais respondem por 47% do faturamento. Nos anos de 2010 e 2011, a participação dos bancos estrangeiros no total do crédito ofertado à sociedade chegou ao patamar de 40%, quase igual à dos bancos públicos. Assim, está clara a gigantesca presença das grandes corporações transnacionais na economia brasileira. Elas ocupam segmentos que estão no coração das cadeias de valor, permitindo-lhes o controle estratégico da produção e comercialização (para frente e para trás) em cada setor.

A superação da dependência externa exige que o Brasil adote uma estratégia nacional de desenvolvimento com a adoção das seguintes políticas: 1) Política de soberania energética e de insumos críticos; 2) Política de infraestrutura e logística soberana; 3) Política de reforma financeira e cambial; 4) Política de segurança alimentar e produtiva; 5) Política industrial ativa; 6) Política de desenvolvimento científico e tecnológico; 7) Política de substituição estratégica de importações (nova abordagem); 8) Política de conteúdo local e transferência tecnológica; 9) Política de fortalecimento de empresas nacionais; 10) Política de soberania digital; 11) Política de aumento da complexidade econômica do Brasil; e, 12) Política de inserção internacional soberana do Brasil.

1- Política de soberania energética e de insumos críticos.

A política de soberania energética e de insumos críticos é uma estratégia governamental que busca eliminar a dependência de fertilizantes, que são o gargalo central da economia brasileira, do óleo diesel, da gasolina e de insumos industriais críticos com a produção nacional de fertilizantes, a expansão da produção de energias renováveis (solar e eólica e hidrogênio verde) e a verticalização da produção de petróleo (produção, refino e distribuição de petróleo e petroquímica).

2- Política de infraestrutura e logística soberana

A política de infraestrutura e logística soberana busca reduzir o custo elevado da logística de transporte (rodovias + diesel) do Brasil com a realização de investimentos na expansão ferroviária e hidroviária do País, a integração energética e digital e a redução da dependência de derivados de petróleo no setor de transporte.  A guerra no Irã eleva o custo do diesel e do setor de transporte no Brasil. 

3- Política de reforma financeira e cambial.

A política de reforma financeira e cambial busca reduzir a vulnerabilidade do Brasil em relação a fluxos financeiros externos com o fortalecimento dos bancos públicos, o aumento do financiamento de longo prazo, o controle seletivo de capitais externos especulativos e o acúmulo estratégico de reservas cambiais.

4- Política de segurança alimentar e produtiva.

A política de segurança alimentar e produtiva busca fazer com que o Brasil fique menos dependente de insumos externos promovendo a produção de fertilizantes nacionais, o desenvolvimento da agricultura de base ecológica (biológicos, fixação de nitrogênio) e da industrialização da produção agrícola.

5- Política industrial ativa.

A política industrial ativa é uma estratégia governamental deliberada que utiliza instrumentos como incentivos fiscais, financiamento de longo prazo e fomento à inovação para direcionar o desenvolvimento econômico, para aumentar a competitividade das empresas nacionais e promover a sustentabilidade econômica e ambiental. Ela foca na modernização tecnológica e em setores estratégicos com alto valor agregado. A política industrial ativa adotada pelo governo brasileiro está voltada para fortalecer setores específicos, promover a inovação, a sustentabilidade e aumentar a competitividade nacional, com foco na "Nova Indústria Brasil" (2024-2033). O Brasil destinará R$ 300 bilhões até 2026 para financiar a neoindustrialização, focando em sustentabilidade, biocombustíveis e inovação tecnológica, incluindo compras públicas com preferência nacional. A política industrial atual busca superar déficits históricos, focando não apenas em impostos, mas em uma parceria entre Estado e setor privado para alinhar o desenvolvimento econômico com a redução da pegada de carbono e o aumento da produtividade. Na adoção de uma política industrial ativa é importante que o governo brasileiro busque o desenvolvimento de setores estratégicos como semicondutores, saúde (farmoquímica), defesa, energia, tecnologias digitais e estabeleça o uso de crédito público, de compras governamentais prioritariamente de empresas nacionais e proteção seletiva de setores industriais estratégicos para o desenvolvimento nacional.

6- Política de desenvolvimento científico e tecnológico.

A política de desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil deve ter como objetivo superar a dependência tecnológica estrangeira do Brasil realizando investimento maciço em P&D (meta: 2–3% do PIB) e fortalecendo a relação universidades, empresas nacionais e Estado brasileiro.

7- Política de substituição estratégica de importações (nova abordagem).

A política de substituição estratégica de importações do Brasil (com nova abordagem) deve se concentrar na consecução dos objetivos seguintes: i) Conquistar  autossuficiência do País em óleo diesel até 2029; ii) Promover a mistura de biodiesel com o diesel para reduzir a participação do diesel fóssil no produto final; iii) Elevar a produção de etanol do País; iv) Aumentar a mistura de etanol na gasolina para reduzir a necessidade de sua importação no futuro; v) Implementar o Plano Nacional de Fertilizantes para aumentar a produção nacional e diminuir a dependência externa do País; vi) Produzir no Brasil 90% dos insumos importados para a indústria farmacêutica; vii) Produzir no Brasil 71% dos insumos de alta tecnologia importados pelo País.

8- Política de conteúdo local e transferência tecnológica.

A política de conteúdo local e transferência tecnológica consiste na adoção pelo governo brasileiro da exigência de transferência de tecnologia em contratos com empresas multinacionais instaladas no Brasil e na realização de “joint ventures” de empresas estrangeiras com empresas nacionais.

9- Política de fortalecimento de empresas nacionais.

A política de fortalecimento de empresas nacionais significa o governo brasileiro promover o fortalecimento das empresas brasileiras e a criação de “campeãs nacionais” em setores estratégicos.

10- Política de soberania digital.

A política de soberania digital significa o governo brasileiro promover o desenvolvimento da infraestrutura de dados no Brasil, da “nuvem” nacional e da inteligência artificial própria.

11- Política de aumento da complexidade econômica do Brasil.

A política de aumento da complexidade econômica do Brasil significa o governo brasileiro diversificar sua pauta exportadora e aumentar a sofisticação industrial com o governo brasileiro promovendo a diversificação do setor produtivo com sua inserção em cadeias de maior valor agregado.

12- Política de inserção internacional soberana do Brasil.

A política de inserção internacional soberana do Brasil significa o governo brasileiro promover a cooperação econômica e tecnológica com países emergentes (BRICS) visando a redução da dependência de países capitalistas centrais, a diversificação econômica com parceiros (Ásia, África, União Europeia), a realização do comércio internacional em moedas locais para reduzir a dependência do dólar e a promoção da integração regional sul-americana.

Pelo exposto, a desestabilização da economia mundial atual (tarifaço + guerra no Irã) não é conjuntural. Ela marca uma transição da globalização para um sistema econômico mundial mais fragmentado e conflitivo. Isto coloca para o Brasil duas opções: 1) permanecer dependente e vulnerável a choques externos; ou, 2) utilizar a crise mundial atual como oportunidade histórica de invenção de um novo Brasil. Para promover a invenção de um novo Brasil, o governo brasileiro precisa superar a dependência externa do País que não é conjuntural, mas estrutural e histórica, ligada à sua posição periférica no sistema capitalista global. A superação dependência externa do Brasil exige a existência de um Estado nacional forte planejador e estratégico, a adoção de uma política industrial e tecnológica capaz de superar suas fragilidades, a promoção de investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento (P&D) para reduzir a dependência tecnológica do País, o fortalecimento do setor industrial para reverter o processo de desindustrialização existente, a expansão do setor de energia com ênfase na energia limpa e renovável e a reconfiguração da inserção internacional soberana do Brasil. O Brasil só elevará seu nível de desenvolvimento econômico e social se levar ao fim a dependência econômica e tecnológica em relação ao exterior.  No entanto, isto não pode ocorrer de forma abrupta porque levaria ao colapso de sua estrutura econômica diante de sua gigantesca dependência externa atual. Diante deste fato, a independência do País em relação ao exterior deve ocorrer de forma gradual, planejada e sustentável ao longo do tempo com a adoção das 12 políticas acima descritas que contribuiriam para reduzir a dependência econômica e tecnológica do Brasil em relação ao exterior e, em consequência tornar o País resiliente em relação aos problemas que afetam atualmente e venham a afetar a economia mundial no futuro. A invenção de um novo Brasil só ocorrerá quando superar sua dependência econômica e tecnológica em relação ao exterior.

Para assistir o vídeo, acessar o website https://www.youtube.com/watch?v=5Fteg7CcbI4

Para ler o artigo em Português, Inglês e Francês, acessar os websites do Academia.edu <https://www.academia.edu/165418742/A_DESESTABILIZA%C3%87%C3%83O_DA_ECONOMIA_MUNDIAL_EXIGE_O_FIM_DA_DEPEND%C3%8ANCIA_DO_BRASIL_DE_PA%C3%8DSES_ESTRANGEIROS>, <https://www.academia.edu/165419168/THE_DESTABILIZATION_OF_THE_WORLD_ECONOMY_DEMANDS_AN_END_TO_BRAZILS_DEPENDENCE_ON_FOREIGN_COUNTRIES> e <https://www.academia.edu/165419252/LA_DESTABILISATION_DE_LECONOMIE_MONDIALE_EXIGE_LA_FIN_DE_LA_DEPENDANCE_DU_BRESIL_VIS_A_VIS_DES_PAYS_ETRANGERS>, do SlideShare <https://pt.slideshare.net/slideshow/desestabilizacao-economica-mundial-e-a-dependencia-do-brasil-desafios-e-oportunidades/286772602>, <https://pt.slideshare.net/slideshow/the-destabilization-of-the-world-economy-and-brazil-s-need-for-economic-sovereignty/286772699> e <https://pt.slideshare.net/slideshow/la-dependance-economique-et-technologique-du-bresil-face-a-la-crise-mondiale/286772765> e do Linkedin <https://www.linkedin.com/pulse/desestabiliza%C3%A7%C3%A3o-da-economia-mundial-exige-o-fim-do-de-alcoforado-eogze/?trackingId=8diRfvMlO3ASrsosCZkGAw%3D%3D>, <https://www.linkedin.com/pulse/destabilization-world-economy-demands-end-brazils-alcoforado-aqsje/?trackingId=3p%2FePw1k9%2BwZjONnvx87bw%3D%3D> e <https://www.linkedin.com/pulse/la-destabilisation-de-leconomie-mondiale-exige-fin-du-alcoforado-wcpte/?trackingId=3qAyv8FXGISlsL8xj3rCuQ%3D%3D>.