O vereador de Salvador Hamilton Assis (PSOL) criticou as revelações de que uma empresa ligada ao ex-prefeito da capital baiana, ACM Neto, recebeu milhões de reais em pagamentos do Banco Master e da Reag Investimentos. Essas instituições estão no centro de investigações sobre possíveis fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. Para o parlamentar, o caso ganha ainda mais gravidade quando se observa a relação dessas empresas com decisões administrativas da Prefeitura de Salvador.
Um decreto municipal publicado em 2021, já durante a gestão do atual prefeito Bruno Reis, aliado político e sucessor de ACM Neto, garantiu exclusividade ao Banco Master na operação de uma linha específica de crédito consignado voltada a servidores municipais. A medida foi estabelecida pelo decreto nº 33.502, de 4 de fevereiro de 2021, que autorizou que até 10% da margem consignável dos servidores fosse destinada a um produto chamado “linha de crédito rotativo”, associado ao cartão Credcesta.
Segundo informações divulgadas pelo portal UOL, a norma acabou assegurando espaço privilegiado para o banco no sistema de crédito consignado do funcionalismo municipal. O tema voltou ao centro do debate político após revelações publicadas pelo jornal O Globo, com base em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), apontarem que empresas do setor financeiro repassaram cerca de R$ 3,77 milhões à consultoria de ACM Neto entre junho de 2023 e maio de 2024.
Os repasses foram feitos à A&M Consultoria Ltda., empresa criada por ACM Neto após deixar a prefeitura de Salvador. Parte dos pagamentos teria sido realizada justamente por empresas que hoje são alvo de investigações da Polícia Federal do Brasil.
Para Hamilton Assis, o conjunto dessas informações levanta questionamentos que precisam ser esclarecidos. “Quando vemos empresas ligadas ao sistema financeiro pagando milhões para uma consultoria de um ex-prefeito, ao mesmo tempo em que um banco do mesmo setor teve espaço privilegiado dentro da estrutura de crédito da prefeitura, isso exige explicações muito claras à sociedade”, afirmou o vereador.
O parlamentar também destacou que dados do Coaf indicam que a empresa de ACM Neto, que possui capital social declarado de apenas R$ 2 mil, movimentou valores considerados elevados em relação à sua capacidade financeira declarada.
“Não se trata apenas de um debate jurídico, mas de transparência na vida pública. Quem pretende disputar o governo da Bahia precisa explicar com clareza suas relações com instituições que aparecem em investigações e que tiveram espaço relevante em políticas da prefeitura”, acrescentou Hamilton.
ACM Neto afirmou, em nota, que os pagamentos se referem a serviços de consultoria formalmente contratados, relacionados à análise da agenda político-econômica nacional, e que não houve qualquer irregularidade. Ele também declarou que, na época dos contratos, não existiam fatos que desabonassem as empresas envolvidas.
Hamilton Assis, no entanto, defende que o episódio deve ser acompanhado com atenção pela sociedade e reforça a necessidade de total transparência nas relações entre agentes políticos, o sistema financeiro e as decisões administrativas da prefeitura.