O debate sobre saúde mental infantil tem ganhado espaço no Brasil, mas ainda pouco se fala sobre um grupo específico de estudantes: crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação. Apesar de frequentemente associados à facilidade acadêmica, esses jovens podem enfrentar desafios emocionais intensos quando suas necessidades cognitivas e socioemocionais não são compreendidas no ambiente escolar.
Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que entre 2% e 5% da população apresenta altas habilidades, mas no Brasil menos de 0,5% dos alunos são oficialmente identificados com esse perfil, revelando um cenário de subdiagnóstico e invisibilidade educacional.
A falta de identificação adequada e de estratégias pedagógicas específicas pode gerar impactos diretos na saúde mental desses estudantes. Desmotivação escolar, ansiedade, isolamento social e sentimento de não pertencimento aparecem com frequência em relatos de famílias e especialistas que acompanham crianças com esse perfil.
Para a educadora especialista em Neuropsicologia Clarissa Vergara, fundadora do Clube Amplexo Educação, o equívoco mais comum é acreditar que estudantes superdotados não precisam de apoio. “Existe um mito perigoso de que o aluno com altas habilidades consegue se desenvolver sozinho, que ele não precisa de ajuda. Na prática, sem adequação pedagógica, sem olhar atento, desafios intelectuais e compreensão emocional, esse potencial pode se transformar em sofrimento”, afirma.
Segundo Clarissa, muitas dessas crianças apresentam uma combinação de alta intensidade cognitiva e emocional, o que faz com que percebam o mundo de forma mais profunda e sensível. “Elas aprendem rápido, questionam muito e têm grande curiosidade intelectual, mas também podem sentir frustração, solidão e ansiedade quando o ambiente escolar não respeita esse ritmo”, explica.
Uma pesquisa publicada no periódico científico Roeper Review, em 2018, aponta que estudantes superdotados podem apresentar níveis elevados de perfeccionismo, sensibilidade emocional e hiperconsciência social, fatores que, quando não acolhidos, podem contribuir para quadros de estresse ou sofrimento psicológico.
Esse cenário tem levado educadores e especialistas a defender uma abordagem que vá além da identificação do talento acadêmico, incorporando também estratégias de cuidado emocional. Para Clarissa, compreender o funcionamento da criança é mais importante do que apenas classificá-la. “Diagnósticos ajudam a organizar o olhar, mas é entender como aquela criança pensa, sente e aprende que realmente permite acolher e desenvolver seu potencial”, diz.
A discussão sobre o tema também começa a ganhar espaço em eventos científicos e encontros internacionais. Neste ano, Clarissa participou do Congresso Internacional de Saúde Mental da Mensa Brasil, onde apresentou reflexões sobre os desafios emocionais enfrentados por crianças com altas habilidades e a importância de ambientes educacionais que reconheçam suas especificidades.
Durante o encontro, a educadora destacou que o sofrimento desses estudantes muitas vezes nasce justamente da falta de nutrição cognitiva. “Não há nada mais frustrante para uma criança curiosa do que permanecer em um ambiente que não dialoga com suas perguntas. Quando o interesse pelo conhecimento não encontra espaço, o entusiasmo vira tédio e, muitas vezes, angústia”, afirma.
Ela explica a importância da saúde integral, do bem-estar físico, emocional e cognitivo. Historicamente, demoramos para entender essa integração. Até 1948, saúde era apenas a ausência de doença física. Levamos décadas para que o emocional ganhasse espaço, dos marcos do DSM nos anos 80 até a criação do Dia Mundial da Saúde Mental em 1992. Mas hoje, a ciência é clara: a saúde real é a integração plena entre o físico, o emocional e o cognitivo.
Dessa forma, alternativas de educação tentam preencher o vazio deixado pela educação tradicional. O Clube Amplexo Educação, criado por Clarissa, surgiu a partir da demanda de famílias que buscavam ambientes de aprendizagem capazes de respeitar as singularidades de cada estudante.
No espaço, crianças com diferentes perfis, incluindo estudantes típicos, autistas, com TDAH ou altas habilidades, participam de atividades de enriquecimento curricular, investigação científica e preparação para olimpíadas do conhecimento, estimulando a curiosidade intelectual e a convivência entre diferentes formas de aprender.
Para Clarissa, ambientes que valorizam o aprendizado ativo podem transformar trajetórias educacionais e emocionais. “Quando essas crianças encontram um espaço onde suas perguntas são bem-vindas e sua curiosidade é valorizada, algo muda profundamente. O que antes era silêncio ou frustração se transforma em descoberta, pertencimento e entusiasmo pelo conhecimento.”
A educadora defende que ampliar o olhar sobre as altas habilidades não é apenas uma questão educacional, mas também social. “Quando cuidamos dessas crianças de forma integral, estamos protegendo não apenas o potencial individual, mas também o futuro da sociedade. São mentes que podem contribuir com inovação, ciência e pensamento crítico, desde que tenham a chance de florescer.”