Este é o resumo do artigo de 20 páginas que tem por objetivo demonstrar que o neofascismo e o neoimperialismo são manifestações da crise final do capitalismo que ocorrerá a partir de meados do século XXI. Estes dois fenômenos políticos têm como causas a crise estrutural do capitalismo em sua etapa final. O neofascismo é uma resposta política no plano interno de cada país e o neoimperialismo é uma resposta geopolítica ao nível mundial à crise final do sistema capitalista mundial. Vários estudiosos do capitalismo, como Karl Marx, Vladimir Lênin, Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi, David Harvey, Samir Amin, István Mészáros, Ellen Wood, entre outros, argumentam que o capitalismo vive contradições estruturais desde o final do século XIX até a era contemporânea como, por exemplo, a queda tendencial da taxa de lucro, o deslocamento dos investimentos do setor produtivo para o setor financeiro, a superacumulação do capital em busca crescente de novas fronteiras de exploração, a desigualdade social crescente e explosiva no interior dos países capitalistas centrais e periféricos, a erosão da ordem liberal pós-1945, a crise ambiental atual que estabelece limites ao crescimento econômico ilimitado e a competição entre as grandes potências pela hegemonia mundial. Esses eventos criaram o contexto histórico em que surgiram o imperialismo em meados do século XIX e o fascismo e o nazismo na primeira metade do século XX, bem como o neofascismo e o neoimperialismo na era contemporânea. Este artigo demonstra que a crise final do capitalismo ocorrerá a partir de meados do século XXI, que o neofascismo é a resposta política em cada país à crise final do capitalismo que ocorrerá a partir de meados do século XXI e o neoimperialismo é a resposta geopolítica ao nível mundial da crise final do capitalismo que ocorrerá a partir de meados do século XXI.
O sistema capitalista mundial chegará ao seu fim de meados até o final do século XXI porque há uma tendência de queda na taxa de lucro mundial como a ocorrida de 1869 a 2007, de queda na taxa de lucro das grandes corporações dos Estados Unidos como a ocorrida de 1947 a 2007 e queda na taxa de crescimento do Produto Bruto Mundial como a ocorrida de 1961 a 2007. Para determinar quando essas taxas chegarão a zero no futuro, mantendo suas tendências de queda, efetuou-se os cálculos usando o método dos mínimos quadrados da Estatística. Se for considerada a evolução da taxa de lucro do sistema capitalista mundial do período 1869-2007 e, for mantida a tendência de queda desta taxa de lucro no período mais recente, 1947- 2007, a taxa de lucro do sistema capitalista mundial tenderia para o valor igual a zero em 2037 e, se for mantida a tendência de queda desta taxa de lucro no período 1869 a 2007, a taxa de lucro do sistema capitalista mundial tenderia para o valor zero em 2097. A evolução da taxa de lucro ao custo histórico do capital fixo das corporações dos Estados Unidos de 1947 a 2007 apresenta declínio neste período. Se for mantida a tendência de queda desta taxa de lucro nos próximos anos, a taxa de lucro das corporações dos Estados Unidos alcançará o valor zero em 2043. A evolução do Produto Mundial Bruto de 1961 a 2007 aponta seu declínio neste período. Se for mantida a tendência de queda na taxa de crescimento do Produto Mundial Bruto nos próximos anos, esta taxa alcançará o valor zero em 2053. Conclui-se, pelo exposto, que o sistema capitalista mundial ficaria inviabilizado a partir de meados do século XXI (2037, 2043, 2053 ou 2097) quando cessará o processo de acumulação do capital com as taxas de lucro global e de crescimento da economia mundial alcançando o valor zero.
Além dos sinais de decadência do sistema capitalista mundial representados pela queda da taxa de lucro mundial, da taxa de lucro das grandes corporações dos Estados Unidos, da taxa de crescimento do Produto Bruto Mundial que alcançarão o valor zero de meados até o final do século XXI, outro sinal importante de decadência do capitalismo é a gigantesca dívida global, que alcançou US$ 275 trilhões em 2020 em dívidas governamentais, corporativas e domésticas, quase três vezes o Produto Bruto Mundial, que se constitui em uma bomba prestes a explodir. Depois da crise mundial de 2008, a expectativa geral era de que as dívidas fossem reduzidas. Não foi o que aconteceu. Vários países têm governos, empresas e famílias com dívidas que ultrapassam amplamente o PIB. O Japão, por exemplo, tem dívidas que são 4 vezes maiores que o tamanho da própria economia. As maiores dívidas entre os países são, pela ordem, as seguintes: Japão (400% do PIB), Irlanda (390% do PIB), Singapura (382% do PIB), Portugal (358% do PIB), Bélgica (327% do PIB), Holanda (325% do PIB), Espanha (313% do PIB), Dinamarca (302% do PIB), Suécia (290% do PIB), França (280% do PIB), Itália (259% do PIB), Reino Unido (252% do PIB), Noruega (244% do PIB), Finlândia (238% do PIB), Estados Unidos (233% do PIB) e Brasil (128% do PIB). O problema é especialmente grave em países como o Japão cuja dívida total é 4 vezes maior que o tamanho da própria economia. Estes números mostram que todos os países listados apresentam dívidas superiores ao PIB (Produto Interno Bruto), caracterizando a existência de endividamento excessivo. Um dos países endividados que merece uma análise especial pelo fato de se constituir na maior economia e no país mais endividado do planeta é os Estados Unidos. A dívida pública dos Estados Unidos vem batendo recordes, porque o país gasta e compra além da sua capacidade emitindo dólares e títulos do Tesouro. O risco de grandes catástrofes nos Estados Unidos com seu excessivo endividamento não desapareceu, mas se estendeu no tempo, ao preço de aumentá-las em proporção e explosão quando vier a estourar. Ressalte-se que o endividamento público dos Estados Unidos está fortemente relacionado com os excessivos gastos militares.
O sistema financeiro mundial liderado pelo dólar norte-americano começa a apontar a perda acelerada da confiança no dólar que domina o mundo há quase um século à medida em que evolui o endividamento dos Estados Unidos. Em 2018, a parte do dólar nas reservas internacionais caiu até 61,7%, que é o nível mínimo nos últimos 20 anos, demonstrando a falta de confiança no dólar. Esta perda de confiança resulta do fato de a atual crise econômica mundial mostrar que um sistema monetário como o atual baseado em papel-moeda emitido livremente e sem lastro pelo governo dos Estados Unidos é algo inerentemente instável cujas inevitáveis consequências desse processo são o crescimento econômico artificial, a euforia e os maus investimentos que tal crescimento gera, e, finalmente, as depressões econômicas. A queda de confiança no dólar está fazendo aumentar a cotação do ouro no mercado mundial. Além de haver aumento da demanda de ouro para substituir o dólar como reserva internacional, há a tendência de substituir o dólar por moedas mundiais capazes de substituí-lo como, por exemplo, o Euro, o Yuan chinês e Direitos Especiais de Saque (moeda do FMI). Além da falta de confiança provocada pela ausência de lastro do dólar, do declínio da economia norte-americana, o abandono do dólar como moeda de reserva mundial é impulsionado, também, pela possibilidade da explosão da bolha da dívida pública dos Estados Unidos que corresponde a 23 trilhões de dólares, valor superior ao PIB do país, um recorde histórico.
Pelo exposto, pode-se afirmar que o sistema capitalista evolui, portanto, com uma tendência universal de evoluir para uma crescente desordem e autodestruição. Esta situação é demonstrada pela tendência de queda da taxa de lucro global, da taxa de lucro das grandes corporações dos Estados Unidos e da taxa de crescimento do Produto Bruto Mundial que alcançarão o valor zero a partir de meados do século XXI, bem como pelo endividamento excessivo dos países do mundo especialmente, Estados Unidos, China e Japão. Outro sinal de decadência do capitalismo reside no fato de todos os dados disponíveis apontarem no sentido de que o sistema capitalista mundial evoluirá para uma crescente desordem e autodestruição porque o planeta Terra já está atingindo seus limites no uso de seus recursos naturais. Hoje, por conta do atual ritmo de consumo, a demanda por recursos naturais excede em 41% a capacidade de reposição da Terra. Se a escalada dessa demanda continuar no ritmo atual, em 2030, com uma população planetária estimada em 10 bilhões de pessoas, serão necessárias duas Terras para satisfazê-la. O previsível esgotamento dos recursos minerais, particularmente os energéticos, e as ameaças de mudanças climáticas catastróficas, temas maiores da agenda ecológica, encaixam bem no processo entrópico.
O neofascismo tem sido a resposta política em cada país à crise final do capitalismo que deverá ocorrer a partir de meados do século XXI. O termo neofascismo não significa retorno integral ao fascismo clássico que surgiu no século XX, mas sim formas atualizadas de autoritarismo politicamente massificado como resposta política à crise final do capitalismo na era contemporânea. No século XXI, a crise econômica do sistema capitalista mundial que eclodiu em 2008 nos Estados Unidos levou vários países do mundo à estagnação econômica com graves consequências políticas e sociais. Esta crise deu origem ao fortalecimento de partidos políticos de extrema direita neofascistas em vários países da Europa, nos Estados Unidos e em outros países do mundo insatisfeitos com a situação política, econômica e social existente. Há vários países atualmente governados pela extrema-direita ou com governos dominados por forças de extrema-direita na Europa (Hungria, Itália, Holanda, Áustria, Finlândia, República Checa, Croácia e Eslováquia) e nas Américas (Estados Unidos, Argentina e Chile). Cerca de um terço dos governos da União Europeia incluem forças de extrema-direita em posições de poder ou têm grande influência política. Há vários países onde partidos de extrema-direita podem chegar ao poder no futuro próximo na Europa (França, Alemanha, Portugal, Bélgica e Polônia). Da mesma forma que o nazifascismo, o neofascismo funciona como mecanismo de contenção das tensões sociais produzidas pela crise geral do capitalismo porque, na era contemporânea, canaliza frustrações populares contra alvos desviados (imigrantes, minorias, opositores), mantém o controle político sem demandar mudanças no modelo econômico capitalista, reforça o poder de elites financeiras e empresariais e permite políticas de austeridade e privatização sob clima de emergência permanente. Assim, o neofascismo seria uma estratégia de estabilização autoritária dos impasses do capitalismo em sua etapa final.
O neoimperialismo, por sua vez, tem sido a resposta geopolítica ao nível mundial da crise final do capitalismo que ocorrerá a partir de meados do século XXI. A distinção entre o velho imperialismo (meados do século XIX–início do XX) e o neoimperialismo (pós-Segunda Guerra Mundial, sobretudo a partir dos anos 1970) envolve mudanças nos instrumentos de dominação, não na lógica fundamental de hierarquia entre os países capitalistas centrais dominantes e os países capitalistas periféricos dominados. Apesar de suas diferenças, há continuidade estrutural entre o velho imperialismo e o neoimperialismo com a manutenção da divisão centro–periferia, a transferência de riqueza dos países capitalistas periféricos para os países capitalistas centrais, a subordinação tecnológica e financeira dos países capitalistas periféricos em relação aos países capitalistas centrais e o uso da força (direta ou indireta) quando necessário contra os países capitalistas periféricos. O neoimperialismo opera diferentemente do velho imperialismo por meio de uma “dominação sem colônias”. Pode-se concluir que o neoimperialismo representa uma nova expansão do capitalismo monopolista internacional, bem como um novo sistema por meio do qual uma minoria de países capitalistas centrais domina o mundo e implementa uma nova política de hegemonia econômica, política, cultural e militar como a praticada principalmente pelo governo dos Estados Unidos. O neoimperialismo exercido sobretudo pelos Estados Unidos não é uma colonização clássica, mas formas modernas de dominação baseadas no controle geopolítico por bases militares instaladas em vários países do mundo, alianças militares e sanções econômicas, em guerras híbridas (financeiras, tecnológicas, informacionais), no regime global de propriedade intelectual que garante rendas monopolistas, na extração de recursos naturais nos países periféricos por empresas transnacionais e na pressão sobre países periféricos via sistema do dólar e fluxos de capitais.
Um exemplo marcante de neoimperialismo é a oficialização de Trump de plano para dominar e intensificar sua presença militar na América Latina. Um documento divulgado pelo Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos em 4 de dezembro passado confirma que o governo de Donald Trump pretende expandir sua presença política e militar na América Latina. A nova “Estratégia de Segurança Nacional” explicita o objetivo de reinstalar a Doutrina Monroe (América para os americanos) e reforçar o controle norte-americano sobre o hemisfério, alinhando políticas regionais aos interesses dos Estados Unidos. Movimentos recentes, como o envio de caças e navios de guerra ao Caribe para intervir militarmente na Venezuela, agora são apresentados como parte de uma diretriz permanente de intervenção norte-americana na América Latina. Outra iniciativa recente do governo Trump é o de se estabelecer militarmente no Paraguai contando com o apoio do governo paraguaio. As prioridades do governo Trump são conhecidas: o combate às drogas, à imigração e à presença de potências externas na América Latina, especialmente a China. Um dos pontos que mais chamou a atenção foi a menção ao uso da CIA para identificar recursos e áreas estratégicas no Hemisfério Ocidental, com foco em sua “proteção e desenvolvimento conjunto” com países aliados. Em diferentes trechos do plano de Segurança Nacional do governo Trump, a América Latina é descrita como “nosso continente”. O texto do governo Trump critica incursões de países como China e Rússia na região e defende medidas para barrar sua expansão. Além disso, alerta que ideologias locais são secundárias diante do critério central de “alinhamento” dos países latino americanos com Washington e repudia políticas que ampliem a tributação ou regulação de empresas norte-americanas. A nova “Estratégia de Segurança Nacional” do governo Trump propõe ainda o monopólio de acordos com os Estados Unidos e a expulsão de concorrentes estrangeiros, prevendo contratos de fornecedor único para companhias dos Estados Unidos e ações para limitar a atuação de empresas estrangeiras que disputem infraestrutura no continente.
Em síntese, pode-se afirmar que o neofascismo e o neoimperialismo têm como causa de suas existências a crise final do sistema capitalista mundial não sendo, portanto, fenômenos isolados. O neofascismo é uma solução interna autoritária em cada país para a crise social do capitalismo e o neoimperialismo é a solução externa violenta para manter a ordem capitalista e a acumulação global do capital. Ambos seriam, portanto, duas faces de um mesmo período histórico de declínio hegemônico e contradições intensificadas, interpretado por alguns pensadores como prenúncio da fase terminal do capitalismo. Assim, o neoimperialismo seria a expressão internacional da mesma crise que produz o neofascismo no plano interno de cada país.
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