Tenho corrido uma maratona nesses dias. Feito uma maluca emendei atividades uma na outra, coisa que já não estava acostumada a fazer. O resultado foi um cansaço muito grande. Isso não é desculpa para não escrever uma crônica, é claro, mas ele embotou o meu pensante e não consegui escrever nada. Então foi procurar alguma coisa antiga para não deixar o domingo em branco. Encontrei o prefácio que escrevi para o livro Memorial do Amor, que mamãe escreveu em 2002, um ano após a morte de papai. Achei que fazia sentido publicar aqui, pois tem tudo a ver com a exposição Amados Jorge e Zélia que acabamos de abrir em São Paulo.
Amanhã é dia de Conceição da Praia, feriado em Salvador. Vou descansar bastante, pois quarta-feira tem Oficina de fazer livros, na Casa do Rio Vermelho. Venham!
Prefácio de Memorial do Amor.
Durante 56 anos foram só Ela e seu amor. Destes 56, por 40 anos estiveram juntos na Bahia. Primeiro buscando a casa, depois comprando a casa, em seguida reformando a casa, para finalmente nela morarem. Juntos plantaram o jardim, juntos criaram os filhos e viram nascer os netos, juntos cuidaram de seus bichinhos, tantos, juntos cultivaram a amizade. Os amigos estiveram presentes do primeiro ao último dia. Toda a sorte de sentimentos sentiram juntos: da maior alegria à mais profunda tristeza, ternura, compaixão, raiva, amor profundo.
Sem perder a individualidade, foram se fundindo e juntos se amalgamaram à casa: uma perfeição. De repente, não mais que de repente, como disse o poeta, o cristal se rompeu. Os tufões e furacões do mundo inteiro, aqueles que salaram o sonho do comandante Vasco Moscoso de Aragão, provocaram a maior balburdia na casa do Rio Vermelho.
Ele se foi, não por gosto seu, que se pudesse não sairia do regaço de sua amada, mas porque não tinha mais jeito. Os fantasmas e as máquinas infernais, aquelas que fotografam o homem por dentro, não o deixavam mais em paz.
Ficaram Ela e a casa. Ficaram o filhos, os netos, agora também bisnetos, ficaram os bichos e as plantas... Nada disso importa, se Ele não está. Ele quis ficar ali, sob a mangueira preferida, mas o banco que a circunda ficou vazio de sua presença viva. O que fazer? Insuportável a casa sem Ele, insuportável esta distância dele e de sua mangueira.
Grande a dificuldade da decisão. A generosidade, qualidade exercida diariamente pelo casal, veio em socorro, deixe que a casa seja aberta a toda essa legião de amigos e admiradores que querem vir reverenciá-lo, sentar ao seu lado na mangueira, puxar um dedinho de prosa, parecendo doido falando sozinho. Como fechar as portas, trancar-se dentro da casa e viver de sombras e fantasmas?
Sair da casa não foi fácil, mesmo sabendo que era a escolha acertada. Como sobreviver? A resposta veio rápida, junto com a decisão de transformar a casa num memorial em homenagem ao homem de sua vida, ao escritor que o Brasil tanto ama: o Memorial Jorge Amado. Como sobreviver? Escrevendo as histórias desta casa que abrigou tanto carinho, tanto afeto. Nascia o Memorial do Amor, livro que agora se publica.
Este livro, que Zélia Gattai terminou de escrever aos 88 anos, em plena forma de sua espantosa juventude, foi inspirado na saudade, no amor, na amizade e na generosidade. Nele encontramos tudo isso elevado à sua máxima potência, contado da mesma forma simples e direta que marca sua obra.
Muito se tem trabalhado para que a casa do Rio Vermelho seja aberta ao público, mas os trâmites burocráticos são mais lentos do que o desejado. Por mais emoção que se empenhe ao projetar o Memorial J. A., a burocracia é bicho frio e vagaroso. Zélia, ao contrário, atirou-se de corpo e alma ao seu trabalho literário, fazendo com que seu Memorial anteceda ao outro. Felizmente, não é necessária a visita à casa para entender livro, ele somente dará água na boca, e no momento oportuno é só vir ao Rio Vermelho e reconhecer objetos, histórias e personagens.
Desejo a todos uma boa leitura!
Bom domingo a todos.