Brasil Investigação
Oposição usa chacina no RJ para defender lei que facilita intervenção dos EUA no Brasil.
Proposta pode ser votada em novembro e quer Forças Armadas combatendo facções e Comando Vermelho no crime de terrorismo.
30/10/2025 23h01
Por: Fábio Costa Pinto Fonte: Equipe da Agência Pública
Leonardo Coelho/Agência Pública

Por Caio de Freitas | Edição: Ed Wanderley

A oposição ao governo Lula (PT) já usa a mais sanguinária chacina policial na história do Rio de Janeiro como arma política no Congresso. É o que se vê no movimento coordenado da direita e extrema-direita para a aprovação de um projeto de lei que quer enquadrar organizações como o Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) no crime de terrorismo.

O autor do Projeto de Lei (PL) 1283/2025, Danilo Forte (União–CE), afirmou à Agência Pública que um novo relatório da proposta será apresentado na primeira semana de novembro, com votação articulada para os dias seguintes. “A gente vai apresentar o relatório na semana que vem, para debater e votar na semana do dia 11 [de novembro]”, afirmou o deputado nesta quarta-feira (29).

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Especialistas avaliam o projeto como uma ‘pauta-bomba’ que abre espaço para “intervenções estrangeiras” no Brasil, como já mostrou a Pública. A proposta emerge no momento em que navios e caças do Exército dos Estados Unidos têm abatido embarcações e matado pessoas no mar do Caribe para combater o “narcoterrorismo” e após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se manifestar publicamente defendendo que o mesmo seja feito nas águas do Rio de Janeiro.

  • Imagem: Agência Pública
  • Imagem: Agência Pública
 

Chama atenção que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), também tenha escolhido o pouco usual termo “narcoterrorismo” nas entrevistas coletivas que concedeu a veículos de imprensa após a violenta operação da polícia fluminense nos complexos do Alemão e da Penha, ambos na capital do estado, mesmo termo que tem sido recorrente nos discursos da oposição ao governo nas últimas semanas.

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Forças Armadas nas ruas.

No mesmo dia da chacina no Rio de Janeiro, Danilo Forte se reuniu com líderes da extrema-direita em Brasília para discutir o andamento do PL 1283/2025 no Congresso. O deputado se encontrou com o atual relator do projeto, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), com o líder do Partido Liberal na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e com o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP) — deputado federal licenciado que tem dito a veículos de imprensa que assumirá a relatória da proposta na Câmara, ainda que atualmente o parlamentar esteja licenciado do cargo.

Segundo a Folha de S. Paulo, Forte deseja também incluir as Forças Armadas no escopo de seu controverso projeto, tendo dito que haveria uma “ociosidade muito grande” dos militares. À Pública, o parlamentar confirmou o desejo e já se referiu a Derrite como relator, afirmando que o secretário estaria “bem afinado nessa ideia”.

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“Como o papel das Forças Armadas está redigido na Constituição, teria de haver uma Proposta de Emenda [PEC]. Mas isso não impede que os governos estaduais possam pedir a mobilização das Forças Armadas junto ao governo federal, permitindo que essa mobilização ocorra por meio de uma autorização no projeto”, afirmou Forte, que negou ter articulado a ideia com os comandos ou assessorias parlamentares da Aeronáutica, do Exército, da Marinha ou com o Ministério da Defesa.

Como reportado por O Globo, a cúpula militar rejeita sua participação na segurança pública do Rio de Janeiro sem a decretação de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Divulgação: Deputado Danilo Forte.

A crise provocada pela chacina no Rio de Janeiro também gerou movimentos na cúpula do Senado. Segundo anunciado nesta quarta-feira (29) pelo presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre (União–AP), será instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado na próxima terça (4). A CPI foi proposta originalmente pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE).

PL 1283/25 pode ser votado a qualquer momento.

O Projeto de Lei 1283/2025 recebeu o apelido de “PL Antiterrorismo” por defender que “milícias, facções, organizações paramilitares, grupos criminosos ou esquadrões” sejam enquadrados no crime de “terrorismo”. Ao mesmo tempo, a proposta diminui o papel da Polícia e da Justiça federais na investigação e julgamento do crime de terrorismo, empoderando polícias civis e tribunais estaduais.

Como revelado pela Pública, o projeto contou com apoio massivo de líderes do Centrão para avançar em regime de urgência na Câmara, podendo ser votado a qualquer momento. Para tal, basta que o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), inclua a proposta na pauta do dia no plenário da Casa.

A iniciativa passou na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara em agosto, sob a relatória do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). O parlamentar bolsonarista articulou a aprovação semanas antes de ser condenado a 16 anos de prisão e à perda de seu mandato pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da trama golpista.

Especialistas como o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão e o juiz do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) Marcelo Semer já contestaram os motivos da iniciativa, dizendo que o projeto sugere uma “falsa compreensão do que seja terrorismo, permitindo intervenções estrangeiras” na segurança interna brasileira.

https://apublica.org/2025/10/chacina-rj-crise-usada-para-lei-facilitando-intervencao-dos-eua/