Meio Ambiente TRANSIÇÃO
OS REQUISITOS DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA JUSTA NO BRASIL.
Este é um dos principais temas a serem tratados na COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) a ser realizado em Belém do Pará no Brasil em novembro de 2025.
22/10/2025 11h12
Por: Colunista Fonte: Fernando Alcoforado*
Imagem Ilustrativa (renovaera.com.br).

Este artigo tem por objetivo propor ao governo brasileiro os requisitos de uma transição energética justa no Brasil com a adoção de um processo estratégico que busque transformar a matriz energética brasileira ainda fortemente baseada em combustíveis fósseis em uma matriz energética baseada em energia limpa e renovável. Este é um dos principais temas a serem tratados na COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) a ser realizado em Belém do Pará no Brasil em novembro de 2025. Uma transição energética justa deve promover a descarbonização da economia assegurando benefícios econômicos e sociais para a população brasileira. Uma transição energética justa exigiria a criação de um Plano Nacional de Transição Energética Justa, com metas, cronograma e participação social, a priorização de energia limpa e renovável e da eficiência energética, a constituição de um fundo de financiamento da transição energética justa e a educação técnica e tecnológica voltada à economia verde.

Está bastante comprovado que, para evitar o futuro catastrófico que se prenuncia para a humanidade resultante do aquecimento global, torna-se um imperativo, entre outras medidas, reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa com a substituição da atual matriz energética mundial baseada fundamentalmente em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) e em energia nuclear, por outra matriz energética mundial estruturada com base nos recursos energéticos renováveis (hidroeletricidade, biomassa, energia solar, energia eólica e hidrogênio) para evitar ou minimizar o aquecimento global e, consequentemente, a ocorrência de mudanças catastróficas no clima da Terra. 

No Brasil, o Ministério de Minas e Energia elaborou o Plano Nacional de Energia 2050 (PNE 2050), publicado em 16 de dezembro de 2020, com um conjunto de estudos, diretrizes e estratégias de longo prazo para o setor energético brasileiro que não propõe a redução progressiva da produção de petróleo e seus derivados e de gás natural e. ao contrário, considera a expansão da oferta de derivados de petróleo e a ampliação da infraestrutura de movimentação destes produtos para o atendimento da crescente demanda interna comprometendo o combate à mudança climática global. Lamentavelmente, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis) autorizou recentemente a Petrobras a pesquisar petróleo na foz do rio Amazonas visando sua exploração futura em flagrante desobediência ao Acordo do Clima de Paris (COP 15).

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Considerando o fato de a matriz energética brasileira apresentar em sua composição 52 % de fontes de energia não renováveis (petróleo e derivados, gás natural, carvão mineral, nuclear e outras não renováveis) e 48% de fontes de energia renováveis (derivados da cana de açúcar, hidráulica, lenha e carvão vegetal, eólica e solar e outras renováveis), o Plano Nacional de Energia (PNE 2050) deveria ser revisto para fazer com que seja reduzida progressivamente a participação das fontes de energia não renováveis, sobretudo petróleo, carvão mineral e nuclear.

É importante observar que o governo federal estabeleceu a Política Nacional de Transição Energética (PNTE), aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 2024, para articular várias políticas do governo (clima, energia, transformação ecológica etc.). A ideia central é promover uma transição da matriz energética brasileira para fontes mais limpas, com baixas emissões de carbono. Neste sentido, foi elaborado o Plante (Plano Nacional de Transição Energética) com uma estratégia de longo prazo, com ações, metas, prazos, estimativas de investimento de cerca de R$ 2 trilhões em 10 anos na economia verde. Para levar avante a Política Nacional de Transição Energética (PNTE), foi instituído o Fonte (Fórum Nacional de Transição Energética) que é um espaço de diálogo entre governo, setor produtivo, sociedade civil, para debater custos, benefícios, impacto regional e participação democrática.

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Seria importante que a transição energética justa que venha a ser adotada no Brasil considerasse no seu planejamento como seus pilares de sustentação o seguinte:

1. Planejamento participativo – com o envolvimento de representantes do governo federal, de produtores e consumidores de energia, de órgãos ambientais, de estados da federação, de municípios, de universidades e organizações da sociedade civil.

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2. Desenvolvimento da requalificação profissional – com a implementação de programas para capacitar trabalhadores em setores verdes (energia solar, energia eólica, hidrogênio verde, eficiência energética, biogás, mobilidade elétrica, etc.).

3. Realização de investimentos públicos e privados sustentáveis – com financiamentos e incentivos fiscais para inovação energética, produção de energia limpa e renovável e eficiência energética.

4. Democratização do uso da energia – com o apoio à geração distribuída em larga escala e a implantação de cooperativas energéticas.

5. Realização da proteção social e territorial – com a adoção de políticas para mitigar impactos em regiões atualmente dependentes de combustíveis fósseis que serão afetadas com sua substituição por energia limpa e renovável.

6. Promoção da justiça climática – com a priorização do uso de energia limpa e renovável em comunidades mais afetadas pelas mudanças climáticas e pela pobreza energética.

No processo de elaboração de um plano de transição energética justa, é importante ter como requisitos o seguinte:

1. Realizar um diagnóstico do sistema de energia do Brasil para identificar seus pontos fortes e pontos fracos

2. Formular políticas de ação estratégica compatíveis para reforçar os pontos fortes e eliminar os pontos fracos

3. Estabelecer a governança e os mecanismos de implementação do plano

Exemplo de diagnóstico do sistema de energia do Brasil para identificar seus pontos fortes e pontos fracos, de formulação de políticas de ação estratégica compatíveis para reforçar os pontos fortes e eliminar os pontos fracos e do estabelecimento da governança e dos mecanismos de implementação do plano está apresentado a seguir:

1. Diagnóstico da Situação Atual do Sistema de Energia do Brasil (Pontos Fortes e Pontos Fracos)

Pontos Fortes (Vantagens e Oportunidades)

· Matriz Elétrica já Majoritariamente Renovável: Com mais de 80% de fontes renováveis de energia, principalmente hidrelétricas, o Brasil apresenta uma posição vantajosa.

· Potencial Solar e Eólico Excepcional: Potencial elevado especialmente no Nordeste (eólica) e em todo o país (solar) e a energia eólica offshore (no mar) como uma iniciativa promissora.

 · Produção de Biomassa e Biocombustíveis: O etanol e o biodiesel são ativos nacionais importantes, com tecnologia de ponta.

· Grande Território e Biodiversidade: O Brasil possibilita a instalação de diversos tipos de usinas e o desenvolvimento de bioeconomia.

· Experiência com Leilões de Energia: O leilão de energia é um mecanismo bem-sucedido para atrair investimentos.

Pontos Fracos (Ameaças e Desafios)

· Dependência de Termelétricas baseadas em Combustíveis Fósseis: Termelétricas ativadas em períodos de seca, que compromete a operação de hidrelétricas, são caras e poluentes.

· Concentração Regional de Oportunidades: Os empregos e investimentos em energias renováveis ainda estão concentrados em algumas regiões do Brasil.

· Existência de Populações Vulneráveis: Milhões de pessoas ainda vivem na "pobreza energética" sem acesso adequado à eletricidade ou usando lenha de forma insustentável.

· Setores Econômicos de Difícil Descarbonização: O Brasil utiliza transporte pesado (caminhões, aviação) e possui siderurgia e indústria de cimento de difícil descarbonização.

· Dependência de Regiões de Receitas do Petróleo: Municípios e estados produtores de petróleo do Brasil (como Rio de Janeiro e Espírito Santo) dependem economicamente do setor.

· Infraestrutura de Transmissão de Energia Defasada: Há necessidade de expandir as linhas de transmissão para escoar a energia dos novos parques eólicos e solares.

2. Políticas de Ação Estratégica para o Sistema de Energia do Brasil

Política 1: Aumento da Produção e do Consumo das Energias Renováveis

Meta: Tornar o Brasil uma potência global em energia solar, eólica (onshore e offshore), biomassa e hidrogênio verde

Estratégias:

· Realizar leilões específicos: Criar leilões regionais para diversificar a geração e descentralizar os investimentos.

· Elaborar Programas de Geração Distribuída Popular: Expandir programas como "Luz para Todos" para incluir micro e minigeração de energia solar em residências de baixa renda, associações comunitárias e pequenos agricultores.

· Desenvolver Cadeia do Hidrogênio Verde: Incentivar a produção de hidrogênio verde, especialmente no Nordeste, para consumo no mercado interno e para exportação, bem como descarbonizar o setor de transporte e a indústria nacional.

Política 2: Transição Energética Justa para os Trabalhadores e Regiões Dependentes do Petróleo

Meta: Elevar o nível de emprego e de requalificação profissional do trabalhador e promover o desenvolvimento em novas bases de regiões dependentes do petróleo

Estratégias:

· Elaborar Plano Nacional de Requalificação Profissional: Criar, em parceria com SENAI, Institutos Federais e Universidades, cursos de formação para trabalhadores do setor de óleo e gás em áreas como operação de parques eólicos, instalação de painéis solares, manutenção de redes inteligentes e produção de hidrogênio.

· Constituir Fundos de Transição Energética Justa: Estabelecer fundos para financiar projetos de diversificação econômica em cidades dependentes do petróleo.

· Oferecer Salário-Provisão para Trabalhadores: Garantir renda e capacitação durante o período de transição de carreira dos trabalhadores da produção de energias não renováveis para renováveis.

Política 3: Inclusão Energética e Combate à Pobreza

Meta: Erradicar a pobreza energética e garantir acesso à energia limpa e de baixo custo para todos

Estratégias:

· Instituir Tarifa Social Expandida: Revisar e ampliar a tarifa social de energia elétrica, possivelmente cruzando dados com o CadÚnico.

· Elaborar Programa "Biogás para Todos": Levar tecnologia de biodigestores para pequenas propriedades rurais e comunidades isoladas, transformando resíduos em energia e biofertilizante.

· Promover a Eletrificação de Comunidades Isoladas: Priorizar sistemas solares off-grid com armazenamento por bateria para comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas.

Política 4: Modernização e Digitalização do Sistema Elétrico 

Meta: Criar uma rede inteligente (smart grid) e resiliente

Estratégias:

· Realizar Investimento em Transmissão de Energia Elétrica: Acelerar a expansão das linhas de transmissão para conectar os novos centros de geração renovável.

· Promover o Armazenamento de Energia em Larga Escala: Incentivar a instalação de baterias em subestações e junto a parques eólicos/solares para garantir estabilidade.

· Implantar Smart Grids: Implementar redes inteligentes que permitam gestão eficiente da demanda, microrredes e a integração de veículos elétricos (V2G - Vehicle-to-Grid).

Política 5: Descarbonização dos Setores de Difícil Mudança

Meta: Reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa no transporte e na indústria

Estratégias:

· Incrementar o Transporte Público Elétrico: Oferecer incentivos massivos para a eletrificação de ônibus urbanos e trens.

· Desenvolver Combustíveis Sustentáveis: Fomentar o desenvolvimento e uso de biocombustíveis avançados (de resíduos) e hidrogênio verde para caminhões, navios e aviões.

· Promover a Indústria Verde: Criar um mercado de créditos de carbono robusto e incentivos fiscais para a adoção de tecnologias de baixo carbono na siderurgia e indústria de cimento.

3. Governança e Mecanismos de Implementação do Plano

· Comitê Nacional da Transição Justa: Um órgão interministerial (Casa Civil do governo federal e Ministérios de Minas e Energia, Meio Ambiente, Trabalho e Ciência e Tecnologia) com participação da sociedade civil, para coordenar e monitorar o Plano Nacional de Transição Energética Justa.

 · Marco Legal: Criar uma Lei da Transição Energética Justa para estabelecer metas, instrumentos e fontes de financiamento de longo prazo, dando segurança jurídica aos investidores.

. Financiamento: 1) BNDES Verde: Reorientar linhas de crédito para projetos de transição energética justa; 2) Títulos Verdes (Green Bonds): Emitir títulos soberanos e incentivar títulos corporativos para captar recursos; e, 3) Fundo Soberano da Transição: Utilizar parte dos royalties do petróleo para financiar o Plano Nacional de Transição Energética, criando uma ponte entre o modelo atual e o futuro. 

4. Conclusão

O Brasil deveria planejar a transição energética justa tomando por base o exemplo apresentado de diagnóstico do sistema de energia do Brasil para identificar seus pontos fortes e pontos fracos, de formulação de políticas de ação estratégica compatíveis para reforçar os pontos fortes e eliminar os pontos fracos e de estabelecimento da governança e dos mecanismos de implementação do plano. O Brasil tem uma oportunidade histórica de não apenas fazer uma transição energética justa, mas de liderar globalmente um modelo de Transição Energética Justa. O sucesso da transição energética justa dependerá da capacidade de transformar desafios políticos, econômicos e sociais complexos em oportunidades de desenvolvimento inclusivo e sustentável. O planejamento da transição energética justa deve ser tratado como uma Política de Estado, e não de governo, exigindo pactuação social e visão de longo prazo para que o Brasil possa, de fato, construir um sistema energético que seja limpo, de baixo custo, confiável e, acima de tudo, justo para todo o povo brasileiro.

Para assistir o vídeo, acessar o website https://www.youtube.com/watch?v=G2mFtC3_RcI

Para ler o artigo em Português, Inglês e Francês, acessar os websites do Academia.edu <https://www.academia.edu/144573793/OS_REQUISITOS_DA_TRANSI%C3%87%C3%83O_ENERG%C3%89TICA_JUSTA_NO_BRASIL>, <https://www.academia.edu/144574276/THE_REQUIREMENTS_FOR_FAIR_ENERGY_TRANSITION_IN_BRAZIL> e <https://www.academia.edu/144574437/LES_EXIGENCES_POUR_UNE_TRANSITION_%C3%89NERG%C3%89TIQUE_JUSTE_AU_BR%C3%89SIL> e do SlideShare <https://pt.slideshare.net/slideshow/os-requisitos-da-transicao-energetica-justa-no-brasil-pdf/283878280>, <https://pt.slideshare.net/slideshow/the-requirements-for-fair-energy-transition-in-brazil-pdf/283878302> e <https://pt.slideshare.net/slideshow/les-exigences-pour-une-transition-energetique-juste-au-bresil-2-pdf/283878312>.

  • Fernando Alcoforado, 85, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela a Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023), A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023), Como construir um mundo de paz, progresso e felicidade para toda a humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2024) e How to build a world of peace, progress and happiness for all humanity (Editora CRV, Curitiba, 2024).
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